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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

30
Mar20

Ir ao dicionário não chega

e consultar dicionários não demonstra conhecimento

Ricardo Nobre

O Público colocou no seu acompanhamento de notícias relacionadas com a pandemia de coronavírus uma ligação para um documento pdf no qual um filólogo reunia informação sobre a origem da palavra «coronavírus». Nada de novo: já se sabia que era uma forma composta de corona (mas não do acusativo, como ali se diz… as palavras que entram por via erudita vêm do nominativo, ó Cícero e Nero!) e virus (sobre este não se escreve que veio do acusativo — pelo menos isso, até porque o nominativo é igual ao acusativo, e o vírus não saberia qual escolher).

Só que o especialista limitou-se à nobre tarefa de consultar dicionários, e não a doutrina. E assim verificou que o elemento de ligação deveria ser «o», que no caso de coronavírus eliminaria o «a» (criando na sua imaginação a sugestiva palavra «coronovírus»). E seguem-se exemplos, numa lista que junta apenas compostos grego-latinos e compostos gregos. Nenhum exclusivamente latino. Não diz o nosso amigo filólogo — porque nunca o problematizou — que os compostos gregos têm «o» na ligação (há excepções, como «parquímetro»), mas não os compostos latinos, que simplesmente se aglutinam (como acontecia na língua de onde procedem).

Assim, é de pedir que se retire o documento do site do Público porque induz os leitores mais suceptíveis em erro. E já basta de informação ficcional.

Senhor(a) leitor(a), mantenha-se em casa e lave as mãos com regularidade.

29
Mar20

A Arte de Automatizar a Pandemia

Da rubrica vamos todos ficar bem (em casa)

Ricardo Nobre

Atribuo grande parte dos desmandos da população sobre as vantagens de se manter em casa durante a pandemia do coronavírus Covid-19 a um certo jornalismo sensacionalista que em cada assunto relativamente irrelevante tem exacerbado emocionantemente as paixões dos consumidores de informação. A esses meios de comunicação social falta uma fleuma objectiva e desinteressada, pois as histórias divulgadas não valem pelo facto em si, mas capitalizam o enredo de forma a manter a atenção do telespectador. Quando surgiram as primeiras notícias de infecção pelo novo coronavírus, os jornalistas andavam numa fona à procura de casos em Portugal: os suspeitos eram todos relatados e até se fez de um portuguesinho residente no estrangeiro uma espécie de herói nacional, com direito a entrevistas via Skype, tendo mesmo havido espaço a entrevistas à família, com directos e debates especiais.

O mesmo acontece diariamente em certos programas da manhã com rubricas de assuntos criminais.

Isto não é só encher o vazio espaço informativo: é a apologia do vazio, mas pelos vistos as audiências (e os rendimentos que delas provêm) justificam tudo. Perversamente, porém, os telespectadores com menos discernimento acabam por interiorizar que estas são acções banais (de que não estará completamente ausente o aproveitamento de determinadas forças políticas a que se vem chamando «populistas») e, por isso, a que se não deve dar importância.

Alegoricamente, trata-se da materialização da famosa fábula do moço que tantas vezes anunciou o lobo que, quando o lobo veio, já ninguém acreditou. Depois de tanto alarme, é natural que a população não tenha dado o real valor ao que está a acontecer. Desta vez, o lobo veio e vivemos verdadeiramente um momento único da nossa história.

A sua infiltração silenciosa do Covid-19 no nosso organismo é um facto, tal como a a propagação sem limites de um vírus com elevada taxa de letalidade pelo mundo inteiro.

Senhor(a) leitor(a), mantenha-se em casa e lave as mãos com regularidade.

18
Mar20

Estado de alerta, quase emergência

Da série Lisboa para vir ver e não para viver

Ricardo Nobre

Vivemos tempos estranhos e ao mesmo tempo não reprimo a expressão da ideia de que é um tempo fascinante. Não pelo medo, cuidados connosco e com os outros, mas pela consciência de que esta é uma experiência histórica, irrepetível (pelo menos, quero crer, no nosso tempo de vida) e única.

A cidade onde vivo não está vazia, mas é como se estivesse. Nas ruas e nos transportes, apenas encontro as pessoas que precisam de sair de casa (muitos estrangeiros residentes), a maioria de máscara. A burguesia aquartelou-se, e até o Jardim da Estrela ontem à tarde estava praticamente despovoado. Acabaram as festas, em público e em privado, não há grupos de pessoas, que circulam ou sozinhas ou em pares.

Jardim da Estrela (Lisboa), dia 17 de Março de 2020, pelas 16h30

A entrada e a saída dos veículos (autocarros e eléctricos) da Companhia Carris fazem-se pela porta de trás (para proteger o tripulante de contactos desnecessários), não é preciso validar o título de transporte, cuja venda a bordo está suspensa e os veículos param em todas as paragens para que não seja preciso accionar o botão de STOP.

No Metropolitano (que circula praticamene vazio, mas sempre com seis carruagens), os canais onde antes, quando havia hora de ponta, se aglomeravam centenas de pessoas em fila, que precisavam de colocar a mão no sensor para passar, estão abertos.

Metro de Lisboa à chegada ao Marquês de Marquês de Pombal (linha amarela) no dia 17 de Março de 2020

Canais de acesso ao Metro (estação de Entrecampos, linha amarela) dia 17 de Março de 2020

A CP anunciou hoje a supressão de vários comboios, em todos os serviços, dado que muitos circulam vazios. Mas pela primeira vez, para sair do comboio, quem entra afasta-se e não afunila quem sai.

Comboio suburbano de Lisboa no dia 17 de Março de 2020

No autocarro, eléctrico, comboio e no metropolitano, ninguém se senta ao pé de ninguém, ninguém fala, a distância, a não ser do vírus. Ainda há quem ache que é exagero, outros pensam que é pouco e que todos deveriam estar em casa (mas estão ali, dentro de um transporte colectivo).

No céu, apenas pombos, gaivotas e melros, além das moscas. Os aviões são poucos e o ruído não perturba a tranquilidade diurna nem o sono à noite.

As idas à rua são rápidas como Aquiles de pés velozes e cada vez mais raras. Numa grande avenida de Lisboa, estão as lojas quase todas fechadas, incluindo frutaria, cafés, restaurantes, oficinas, lojas de decoração. Mantêm-se (provavelmente até hoje) outros cafés, lavandaria, a loja de conveniência e cabeleireiros e barbeiros. Longe daqui, museus, escolas, universidades, monumentos, muitas outras lojas e cadeias de lojas simplesmente fechadas «devido à situação do nosso país».

O perigo dá medo, mas ao mesmo tempo multiplicam-se e partilham-se, graficamente e em línguas vivas e mortas, brincadeiras sobre papel higiénico, lavagem das mãos e permanência em casa.

Nunca poderia imaginar que era preciso uma pandemia para que Lisboa voltasse a ser uma cidade boa para viver.

04
Fev20

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett

Da série poetas na cidade

Ricardo Nobre

Cidadão empenhado, desde cedo mostrou inclinação para as letras. Os primeiros testemunhos dos poemas que escreveu documentam que foi na adolescência, enquanto vivia nos Açores (para onde a família foi viver por causa da segunda invasão francesa, depois de ter nascido no Porto, em 1799), que João Baptista da Silva Leitão sentiu o impulso da escrita. Começou por ser um desforço com um substituto do professor de Latim, uma menção épica ao pau de marmeleiro com que foi castigado por considerar que sabia mais do que aquele substituto. Escreveu ainda uns poemas amorosos e traduziu tragediógrafos gregos, mas quando se aproxima a partida para Coimbra já canta as saudades que a despedida do campo lhe vai deixar. A universidade viu-o crescer como poeta e dramaturgo, diligente defensor da liberdade e da causa liberal, que entretanto triunfaria no Porto, em 1820 (na sequência da qual faz uma viagem à sua cidade natal, cai do cavalo e fica seriamente doente; virá daí o uso de um capachinho). Nas férias, no Porto e nos Açores, continua sempre a escrever, voltado para a alegria e prazeres da vida, brincadeiras de rapazes, e amores que se sucedem. As amadas têm ainda pseudónimos neoclássicos. Traduziu Catulo, Horácio, Píndaro e poemas atribuídos a Safo, Anacreonte e a Alceu.

A política nunca o deixou de interessar. Militante liberal, depois das contra-revoluções absolutistas, teve de emigrar: esteve na Inglaterra e em França (onde publicaria as primeiras obras poéticas: Camões, Dona Branca, Adozinda, que viria a integrar o Romanceiro, e Lírica de João Mínimo). Exerceu cargos públicos em Portugal e na Bélgica; a sua presença (e indumentária) nas cortes davam que falar no meio galante. É depois do setembrismo que publica as suas obras-primas: Frei Luís de Sousa, Flores sem Fruto (colectânea onde reúne «As Minhas Asas»), Viagens na Minha Terra. Em 1853 publica Folhas Caídas, recebidas não sem escândalo.

Fernando Pessoa começou a escrever em português depois de o ler. É, sem dúvida, o nosso primeiro poeta, romancista e dramaturgo moderno. Almeida Garrett, nome que viria a adoptar depois da morte do tio D. Frei Alexandre da Sagrada Família (clérigo de altíssimo nível intelectual), que morreu em Lisboa a 9 de Dezembro de 1854, na casa onde vivia (Rua Saraiva de Carvalho, n.os 66 a 68) e que foi demolida por não ter «valor arquitectónico, patrimonial ou histórico», faria hoje 221 anos. Encontra-se sepultado no Panteão Nacional.

Túmulo de Almeida Garrett no Panteão Nacional

Em Lisboa, dá nome à antiga Rua do Chiado (outrora com dois nomes, pois do actual Largo do Chiado à Praça Camões chamava-se Rua das Portas de Santa Catarina), com início em frente aos actuais Armazéns do Chiado (na Rua Nova do Almada), desde Junho de 1880, por edital do então Presidente da Câmara, José Gregório da Rosa Araújo (que tem um busto, de Costa Motta, 1936, na Avenida da Liberdade, defronte da rua perpendicular a que dá nome). Garrett é celebrado por uma estátua de Salvador Barata Feyo (1950) na mesma Avenida da Liberdade (cruzamento da Rua Alexandre Herculano, onde se encontram igualmente as esculturas a Alexandre Herculano, ainda de Barata Feyo, de António Feliciano de Castilho e de Oliveira Martins, estas do Mestre Leopoldo de Almeida); no átrio poente do Teatro Nacional de Dona Maria II, encontra-se um busto dele (da autoria de João Anastácio Rosa). No Porto, que tem uma biblioteca pública com o nome dele nos jardins do Palácio de Cristal, a sua estátua, igualmente de Barata Feyo (1954), ergue-se diante da Câmara Municipal, na Avenida dos Aliados.

Estátua a Almeida Garrett (Porto)

Chegou a dar nome ao Teatro Nacional de Dona Maria II (cuja sala principal conserva o seu nome) e ao Liceu de Lisboa (actual Maria Amália Vaz de Carvalho).

04
Jan20

Arte Pública

Da série tudo é polémico até ser história

Ricardo Nobre

A expressão que uso no título deste texto tem sido reproduzida em várias notícias e artigos de opinião que se têm referido às pichagens numa obra «minimalista» do escultor Pedro Cabrita Reis, em Leça da Palmeira, berço de António Nobre1, município de Matosinhos.

Portugal é um país muito engraçado de analisar porque é um lugar onde tudo é polémico: construção de aeroportos, barragens (com um exemplo recente, por causa das cheias no Mondego), caminhos-de-ferro2, museus, extensões das linhas do metropolitano (os meus casos favoritos), metros de superfície prometidos e nunca construídos, igrejas, urbanizações e outros edifícios, feira popular, terminal de cruzeiros, demolições de edifícios históricos, entre outros (incluindo jantares no panteão, colecções de pintura, a vedação de um miradouro, etc.). Julgo que só a construção de estádios esteve isenta de críticas (agora é mais comum fazê-las; reclama-se que se deveriam ter construído hospitais, mas nem a construção de unidades de saúde desmerece alguma polémica).

O que parece estar em causa é o desgosto que temos (incluo-me neste grupo) em ver diante dos nossos olhos a mudança na cidade que conhecemos como a conhecemos. Também se fala no dinheiro que se gasta neste ou naquele empreendimento, em relação a outras necessidades que o país tem e a que não consegue dar resposta (os cidadãos e as cidadãs não são avisados/as, por exemplo, de que muito financiamento vem da União Europeia, decorrente de concursos para determinados fins, e que o dinheiro não pode ser deslocado para outras despesas).

Além dos exemplos apontados (e que se poderiam multiplicar por outras cidades e cronologias3; o que é mais notável no pequeno levantamento feito é ver as datas das notícias e o que não foi feito), é comum um minidebate (normalmente de fraca duração, mas agora amplificado pelas redes sociais) sobre as obras de arte em espaço público. Neste âmbito, também não escasseiam casos de vandalismo que demonstram descontentamento popular, que excede em muito peças de arte não figurativa, como a de Pedro Cabrita Reis, ou então extensas críticas a outras obras4:

- A estátua a Fernando Pessoa, do escultor Lagoa Henriques, foi objecto de grandes críticas (muito pequena e modesta… tudo o que Pessoa foi em vida), sobretudo porque fica muito próxima da estátua monumental do poeta quinhentista António Ribeiro Chiado.

- Não muito longe, no Largo Barão de Quintela, a estátua a Eça de Queirós, de Teixeira Lopes, é de bronze  porque foi preciso substituir a original, de mármore (e que se encontra actualmente nos jardins do Museu de Lisboa — Palácio Pimenta, no Campo Grande), por causa do vandalismo (e destruição). O motivo era que a alegoria da Verdade, um corpo feminino nu nos braços do escritor (a alegoria do poder do Marquês de Pombal é bem mais pacífica, e nada tem que ver com o clube desportivo do Campo Grande), era uma «vergonha» (palavra que prestigia o pichador de Leça).

- Ainda hoje se discute se aquele D. Pedro IV, na praça a que nunca deu nome, não será o imperador do México (a altura em que está é excessiva e desproporcional: talvez o pior exemplo de disposição de arte no espaço público).

- Os bustos que figuram um jogador de futebol no Aeroporto da Madeira foram muito falados e criticados. Ainda no Funchal, dificilmente se reprime um sorriso (ou uma gargalhada) com a estátua de corpo inteiro do homenageado por causa do volume nos calções.

- O monumento ao 25 de Abril de João Cutileiro (no alto do Parque Eduardo VII) talvez seja o melhor exemplo recente de incompreensão pública pela arte. Sim, tem forma fálica, mas… e o obelisco da Praça dos Restauradores?

As estátuas mencionadas (apenas algumas de que me lembrei) já não causam polémica porque se tornaram parte da nossa memória (e todos têm um retrato com Pessoa no Chiado). Deixaram, foram deixando ou deixarão de ter um efeito-surpresa que suporte as críticas durante muito mais tempo (em particular nessa amnésia chamada redes sociais). No entanto, de modo nenhum os cidadãos e as cidadãs devem aceitar impassíveis a disposição da arte em espaço público. Talvez devessem, porém, colocar as suas opiniões em perspectiva e lembrar que o que é hoje tradição já foi inovação, como dizia o imperador Cláudio citado por Tácito.

 

1 Confesso que só sei o que é Leça por causa desta circunstância literária. Só aprendi o que era o porto de Leixões mais tarde.

2 Garrett e Herculano eram contra a construção do caminho-de-ferro (Flaubert também; dizia que as viagens ficavam mais curtas, permitindo aos estúpidos encontrarem-se mais depressa — parecia a premonição do aparecimento das redes socais). Eça de Queirós, n’Os Maias, coloca na boca do abade Custódio esta referência à linha-férrea (na época a que a história se reporta, apenas até ao Carregado): «O País não estava para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas…» O «pobre diabo» Cavaco Silva ouviu-o.

3 Lembro que levou décadas a erecção da estátua a Camões. Inaugurada em 1867, localiza-se na Praça de Camões, entre o Chiado e o Bairro Alto, e é da autoria de Vítor Bastos, o escultor da estátua ao grande orador José Estêvão, no jardim de São Bento, atrás da Assembleia da República.

4 Já agora: faltam estátuas em Lisboa. A Fernão Lopes (existe uma na Biblioteca Nacional, mas lá também estão outros escritores que têm estátuas noutros lugares, como Eça e Camões), Gil Vicente, Cardoso Pires, Irene Lisboa (que nem tem uma placa evocativa na casa onde viveu, na Estrela), José Saramago, para mencionar apenas escritores (nota para o autor deste blogue: fazer um itinerário de estátuas e nomes de ruas de escritores portugueses em Lisboa).

03
Jan20

Lisbalbúrdia

Da série Lisboa para vir ver e não para viver

Ricardo Nobre

aqui falei dos ruídos excessivos nas cidades, e tenho de insistir no assunto porque parece que um navio no Tejo incomodou os habitantes e turistas de Lisboa que queriam dormir1. Por precaução, em situações de nevoeiro, os navios são aconselhados a usar a sirene. De novo, fala-se em poluição sonora, mas:

  • quer-se o aeroporto no centro da cidade;
  • acha-se normal haver festa em vários espaços ao ar livre, mesmo rente a zonas habitacionais;
  • as obras são muitas, mas vão começar as piores de todas (as do metropolitano);
  • está barulho, mas usa-se a buzina porque o carro da frente não arranca no segundo em que o semáforo fica verde ou o peão está a fazer travessia na via adequada;
  • o barulho é excessivo, mas onde existem parques querem restaurantes e animação, derrube de árvores e chinfrineira;
  • reclama-se da sirene do navio por causa da segurança, mas acha-se bem o fogo-de-artifício que andou a estalar em Lisboa muito antes e muito depois da meia-noite da passagem de ano (foram pelo menos quatro dias de estouros, sempre à noite, naturalmente), afinal, é bonito — melhor seria se um cacilheiro tivesse abalroado o navio, sempre era mais silencioso e atraente para mirones.

Não é o progresso, é a falta de planeamento.

1 Vivo a poucos metros do Tejo e não ouvi nada. Ou então pensei que fosse mais um piquenique electrónico (em inglês e com k, claro) num jardim qualquer.

02
Jan20

Pior que bem

Da série escrever para o jornal sobre uma norma que a língua não tem

Ricardo Nobre

Na gramática de português há algumas regras que aparentam ser arbitrárias, debitadas em livros de «bem escrever», sem que haja justificação, explicação ou comentário para o que se recomenda ou para o que se condena (normalmente, se o gramático gosta de uma construção, permite-a; se embirra com ela, condena-a). Alguns falantes aprendem-nas dos seus professores e passam-nas, por sua vez, aos alunos, tomando-as como leis inquestionáveis. Este gesto atribui à gramática e a preconceitos um poder que nada nem ninguém deveriam ter. Vem isto a propósito de uma curiosa carta à direcção do Público, publicada dia 22 de Dezembro do ano passado, onde uma leitora escrevia: «Tenho a agradecer a Vasco Pulido Valente (V.P.V.) o pedido público aos seus colegas para que distingam entre “melhor” e “mais bem”. Professores, mesmo ex-professores, subscrevem, não pelo bem-estar linguístico exclusivo dos colegas de V.P.V., mas das “massas” e respectivos filhos» (p. 6). A leitora aludia ao «Diário» de Valente de 14 daquele mesmo mês. Na entrada de 7 de Dezembro, o autor (identificado como historiador) escrevera: «Peço aos meus colegas do jornalismo falado e escrito, mas sobretudo falado, que não se esqueçam sistematicamente de que “melhor” não é igual a “mais bem”» (p. 9).

Autor e leitora estão a falar do comparativo do advérbio «bem» (superlativo: «optimamente»), que não querem contaminar com «melhor», que seria, no seu entender, comparativo (e superlativo) do adjectivo «bom» (superlativo: «óptimo»). Teríamos assim um limite muito seguro entre as classes de palavras: ao adjectivo o que é do adjectivo, ao advérbio o que lhe diz respeito. De onde vêm estas regras senão de um português «mais bem» aprendido por uma escola «melhor» do que a que agora existe?

Falemos, portanto, de «mais bem» e de «melhor» (mas poderíamos estar ainda a falar de «mais mal» e «pior», «mais pequeno» e «menor», «mais grande» e «maior»).

Apesar do que a leitora e Valente reivindicam, a palavra «melhor» é, de acordo com vários dicionários e com o Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966), comparativo de bom e de bem. Trata-se, consequentemente, de um adjectivo e de advérbio (a diferença é que enquanto adjectivo a palavra admite flexão e como advérbio, não) — e com efeito, olhando à etimologia, em latim, melior é feminino e masculino e melius é neutro do adjectivo bonus e comparativo do advérbio bene. Nada mais natural que a forma de masculino e feminino tenha levado de vencida à neutra, que desapareceu da nossa língua, impondo-se em todos os contextos. O mesmo fenómeno é exibido por outras línguas indo-europeias, como o grego (a regra é: o comparativo do advérbio coincide com o acusativo neutro do comparativo do adjectivo — Boas et al., The Cambridge Grammar of Classical Greek, Cambridge Univ. Press, 2019, pp. 87-88). Também Ferreira e Figueiredo (Compêndio de Gramática Portuguesa, Porto Editora, 1995, p. 221) avisam: «Não confundir melhor (comparativo de bem) com melhor (comparativo de bom): “Os meus estudos vão bem, mas podiam ir melhor (= mais bem)” e “Este aluno é bom, mas aquele é melhor”».

Sem se poder obrigar o utente da língua portuguesa a usar construções latinas (em prol de um purismo que rigorosamente nunca existiu), observe-se que em latim (e em grego) os comparativos de superioridade se formam normalmente por sufixação (ou seja, muda a terminação da palavra). Em algumas situações, poderia ainda recorrer-se a advérbios equivalentes aos nossos mais, menos, muito (Almendra e Figueiredo, Compêndio de Gramática Latina, Porto Editora, 2003, pp. 55 e 58). Foi isto que o português normalizou: numa tendência analítica, usam-se mais palavras e reduziu-se a flexão. Nada nestas transformações é linear, e por isso mantêm-se do latim, além dos superlativos óptimo e péssimo, os comparativos melhor (< melior) e pior para bom e mau (aquela terminação -ior é precisamente a marca latina de comparativo de superioridade de que se falava atrás).

Por haver duas formas disponíveis, uma latina e outra mais portuguesa, diz-se que os adjectivos têm uma forma de comparativo (de superioridade) sintética e outra composta. «As formas compostas do comparativo de superioridade e de inferioridade dos adjectivos bom, mau, grande, pequeno, alto, baixo, empregam-se quando se comparam qualidade do mesmo sujeito ou da mesma acção: É mais mau do que irreflectivo» (Ferreira e Figueiredo, Compêndio de Gramática Portuguesa, p. 153).

Interessa, porém, olhar para o advérbio.

Ainda que mais próxima da origem da língua, a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Cunha e Cintra (Sá da Costa, 15.ª ed., 1999), classifica de «anómalas» as formas «melhor» e «pior» como comparativos de advérbios (pp. 545-546); sem condenar o seu uso, regista-se, porém, uma restrição: «os comparativos regulares mais bem e mais mal [são] usados, de preferência, antes de adjectivos-particípios», demonstrado por exemplos como «As paredes da sala estão mais bem pintadas que as dos quartos». O aborrecimento é que «na posposição só se empregam as formas sintéticas»: «As paredes da sala estão pintadas melhor que as dos quartos» (p. 546). Estranho advérbio que não admite mobilidade na frase, «desfazendo-se» na forma anómala quando muda de posição.

É uma restrição estranha: o que a justifica e a que se deve? Não há resposta para isso; a regra ficou enunciada para Pulidos Valentes e suas leitoras as imporem a colegas e aos leitores.

Vejamos o que por aí se disse.

No Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Rodrigo de Sá Nogueira (Livraria Clássica, 2.ª ed., 1974) afirma: «Melhor feito. Melhor acabado. Melhor pensado — Isto é corrente, mas não é correcto. Os escrupulosos, que têm a verdadeira noção do valor gramatical da forma melhor, não a empregam assim. — Melhor é a forma comparativa do adjectivo “bom”, não do advérbio “bem”: melhor equivale a “mais bom”, que se não usa; “mais bem” usa-se, naturalmente porque não existe uma forma simples designativa do comparativo do advérbio “bem”. […] Diz-se: “este rapaz trabalha mais bem ou mais mal que ou do que aquele”, e não: “este rapaz trabalha melhor ou pior que ou do que aquele”. […] Não obstante o que fica exposto, há certa tendência para empregar as formas melhor e pior, não só com o valor de comparativo dos adjectivos bom e mau, como dos advérbios bem e mal» (pp. 250-251, itálicos e negritos do original, sublinhado meu).

À margem, comente-se que é muito bizarro fazer coincidir o que se diz com a norma e o que não se diz com o erro, sobretudo quando no fim se admite que o que não se diz é afinal o que se diz. Além disso, se historicamente melhor (e pior) funcionam bem como advérbios, porque é que Nogueira lhe retira a pertença àquela classe de palavras? Reconhecendo a «tendência para empregar as formas melhor e pior […] como dos advérbios bem e mal», é igualmente interessante que no artigo «Melhores», que se segue ao agora citado, Sá Nogueira volte a escrever: «Propriamente a forma melhor é o comparativo do adjectivo bom, não do advérbio bem. Contudo, na prática, está há muito consagrado que ela é também comparativo desse advérbio bem em certos casos. O comparativo regular de bem é mais bem.» Parece escrito por outra pessoa, mas é o mesmo Sá Nogueira que continua: «“Melhor” é a forma comparativa do adjectivo “bom”, e do advérbio “bem”; no primeiro caso é variável, mas no segundo não deve ser. — Assim, diz-se: “o meu carro é melhor que o teu” e “os meus cavalos são melhores que os teus”, mas “o doente está melhor”. — No primeiro caso, pois, “melhor” equivale a “mais bom”, e “melhores” a “mais bons”; no segundo caso a “mais bem”». Neste ponto, não há dúvida de que nenhum falante de português optaria por «mais bem» em vez de «melhor» (que também funciona como adjectivo: «os doentes estão melhores» é, provavelmente, menos estranho do que «os doentes estão melhor»).

Sá Nogueira, todavia, ainda não acabou; apela agora à autoridade: «O Dr. Cândido de Figueiredo condenava que se dissesse, por exemplo, “este livro está melhor feito que aquele”, preconizando que de preferência se dissesse: “este livro está mais bem feito que aquele”. A razão que dava era de que “melhor” é propriamente comparativo do advérbio “bom” e não do advérbio “bem”. — Se o benemérito lexicógrafo tivesse razão, certamente deixaríamos de poder perguntar a alguém se está “melhor”, para termos de passar a perguntar-lhe se está “mais bem”. — Sem dúvida, Cândido de Figueiredo estava na razão: gramaticalmente é assim. O que acontece é que o uso geral determinou “não obedecer às razões de lógica gramatical”» (p. 251, itálicos do original, sublinhado meu).

Esta última citação vai ao encontro do que atrás foi dito sobre restrições de uso de «melhor», mas, como atrás também se disse, gramaticalmente não «é assim». Porque não é em todas as situações que «mais bem» substitui «melhor». Nos exemplos do excelente lexicólogo e fraco poeta Cândido de Figueiredo, é clara a preferência por «mais bem» porque a perífrase acompanha um particípio passado. Sá Nogueira nunca faz essa distinção. Em «Mais bem. Mais mal. Mais bom. Mais mau», no mesmo Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, o autor repete as informações já mencionadas, mas recorre a Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, pp. 203-204 (2.ª ed.): «Assim como ninguém dirá “a obra melhor feita”, mas sim “a obra mais bem feita”, nem “o melhor aventurado”, mas sim “o mais bem aventurado”, corrente e correcto será dizermos “as obras mais bem acabadas”, “os livros mais bem impressos”, “os concorrentes mais bem classificados”. — A meu ver, a razão filológica de que o mais bem é ali a forma exacta, é que o advérbio bem, anteposto a adjectivo qualificativo, é um proclítica, isto é, um elemento que perde a sua acentuação própria, subordinando-se à do adjectivo, e constituindo com ele como uma só palavra. Em bem aventurado até se reuniram os dois termos, formando realmente uma só palavra. — (Diário de Notícias de 19 de Fevereiro de 1905)» (p. 240, itálico original).

José Leite de Vasconcelos está apenas a falar de «mais bem» com particípios e explica porque é que ele pensa que esse fenómeno se dá com essas formas (ainda não lêramos nada que explicasse o fenómeno). O que está em causa para o grande sábio é que, afinal, «bem+particípio» já constitui uma unidade lexical, e por isso o comparativo natural forma-se regularmente com o acrescento de «mais» antes de «bem feito», «bem construído», «bem formado», «bem aventurado» (esta última expressão lexicalizou-se como uma só palavra, e por isso escreve-se com hífen quando é substantivo). Essa unidade lexical parece ser um bom motivo para que «As paredes da sala» de Cunha e Cintra estejam efectivamente «pintadas melhor que as dos quartos», pois a expressão deixou de ser «bem pintadas». A mesma análise é feita por Augusto Epifânio da Silva Dias, como mais abaixo citarei.

No entanto, há o uso, a história da língua e as suas áreas críticas (oscilações sincrónicas), que denunciam a veracidade do lugar-comum «a língua não é estática» (declinado também como «a língua é dinâmica», «está sempre a evoluir», etc.). É por isso que a gramática (e a linguística contemporânea) tem de ser teórica: para descrever abstractamente o funcionamento da língua, dando conta de diferentes construções (nota autobiográfica: tive uma professora de Sintaxe que dizia que a língua não tem excepções, tem é situações não explicadas).

Epifânio da Silva Dias, na sua Sintaxe Histórica Portuguesa (5.ª ed., Livraria Clássica Editora, 1970) recolhe a lição da sã linguagem dos nossos clássicos:

«De comparativo (de superioridade) de grande serve maior; de bom e de bem, melhor; de pequeno, menor (a par de mais pequeno); de mau e de mal, pior:

E a saude melhor he conheçida depois da doença que primeyramente (V. Bemf., 222). mal entendida, e peor praticada (Vieira, II, 108). ouçamos aquelle engenho [Ovidio] que melhor que todos soube exprimir os affectos da dor, e da natureza (Id., ibid., 877, 878).

No port[uguês] arc[aico] também se dizia mais grande:

em outro mais grande (Gir. Alv., 14).

Pode dizer-se, v.g.: mais ou menos grande:

Obs. Diz-se v.g.: mais bem feito, mais mal feito, porque mais pertence para o conjunto bem feito, mal feito. Também quando se comparam qualidades do mesmo sujeito, ou da mesma oração, naturalmente se diz, vg.: ele é mais mau do que irreflectivo; procedeu mais bem do que mal.» (pp. 169-170, itálico do original, sublinhado meu, ortografia actualizada, excepto nos exemplos, cujas abreviaturas correspondem, segundo pp. 7-11, a: Virtuosa Bemfeitoria do Infante D. Pedro, Porto, 1910: cit. a página; P.e António Vieira, Sermões: cit. a parte e a página; Mestre Giraldo, Livro d’Alveitaria: cit. a página da Revista Lusitana, tomo 12)

A leitora citada, os seus colegas e Pulido Valente continuam com a legitimidade de reclamar de «melhor», mas a verdade é que nada podem fazer contra o uso (contemporâneo ou não), a etimologia, e a história da língua. São  irreflexões de quem chega à letra de forma da imprensa que mais não fazem do que espalhar o erro, o preconceito e, desculpem lá, a ignorância de que acusam os outros.

23
Dez19

Se mais geringonça houvera lá chegara

Da série a língua não começou ontem às três da tarde

Ricardo Nobre

Continua no Público o mito de que a «expressão “geringonça” em contexto político é de facto da autoria de Pulido Valente». Talvez fosse conveniente, mesmo a jornalistas experientes, reler José Rodrigues Miguéis, O Milagre Segundo Salomé: «o problema é essencialmente económico, mas tudo depende da família política. Se não for dentro da geringonça parlamentar, há que ir buscá-la fora dela». E aqui, como por milagre, temos num romance publicado em 1974 a «expressão “geringonça” em contexto político». Eu sei que não interessa quem foi o primeiro, o que interessa é quem é percepcionado como sendo o primeiro, mas os mitos e a falta de leitura não estão de acordo com a retórica do jornalismo de rigor (a que se juntou uma retórica pedinchona — a expressão não é de minha autoria, porque surge já no século XVIII). O mundo não foi inventado nestas duas décadas só porque foram as que melhor conhecemos.

13
Dez19

A ficção da escrita ou a escrita de ficção

Da série a verdade não existe, a mentira também não

Ricardo Nobre

Disse noutro lugar que a criação de um blogue (confessional, documental, diarístico, humorístico, sobre tudo e sobre nada) é sempre um acto ficcional e fiquei a pensar que deveria reflectir aqui sobre isso.
A vida de quem escreve não são as palavras que publica (na internet ou noutro lado); embora os textos possam traduzir sentimentos mais ou menos genuínos, a transposição de um sentimento para palavras, a sua organização em frases, em textos mais ou menos curtos são uma ficcionalização (ou seja, uma representação, uma mimese1). Quando se escrevem diários (que nunca supõem não terem leitor, mesmo que o jurem) também se selecciona informação do que se regista e, notoriamente, essa reflexão é subjectiva porque está sob um ponto de vista de um sujeito (um mesmo objecto ou facto são percepcionados por pessoas diferentes de formas diferentes).
Em cima disto, a vida fora da rede é assim também, todos criamos uma persona para enfrentar o mundo. Essa persona tanto pode ser uma personagem mais ou menos frágil, corajosa, impertinente, estúpida e avassaladoramente erudita como simplesmente aborrecida. Mas cada uma destas características pode ser mais ou menos atraente, de acordo com a percepção de quem a lê (ou de quem lida com ela). Os blogues reflectem isso: independentemente do propósito com que se criam, estas páginas publicam textos que representam o dia-a-dia de alguém (com informação sobre filhos, pais, colegas de trabalho, pessoas com quem convivem quotidianamente), as suas viagens, percepções do quotidiano na sociedade e na política, avaliações do desempenho de serviços públicos e privados. Alguns divulgam impressões de leitura2, o modo como vivem a vida, por vezes com desafios interessantes, com uma espécie de activismo.
Além de tudo, escrever é uma arte que a alguns (como a mim) é custosa. Gosto de tudo no sítio, o lugar de cada vírgula é pensado com o mesmo esforço com que procuro a palavra certa para dizer a coisa certa (é um exercício de tradução de pensamento em palavra, ou seja, repito, mimese, representação, ficção). Não venho para este liceu reclamar nenhuma condição para mim (acho que nunca disse a minha profissão, nunca falei em problemas de saúde, familiares e outros; só falo de transportes públicos, mas ninguém sabe que também tenho carta, ando de carro e que sei o Código da Estrada; aqui ninguém sabe se fumo, me drogo ou se bebo vinho — talvez apenas o Pedro se lembre de uma resposta minha a este propósito há uns tempos). Sou um como os outros e, neste ambiente online, é isso que gostaria de continuar a ser.
E agora, se tudo o que eu acabo de dizer é ficção? Não sei, mas também sei que ninguém tem nada que ver com isso. É a beleza do ser humano, da literatura, da palavra.

Gaudeamus igitur. E boas festas!

 

1 O mesmo acontece quando vemos uma fotografia de um monumento ou um directo da televisão: não estamos a ver o monumento, mas uma representação dele ou a olhar para a televisão, que reproduz por ondas hertzianas imagens com movimento de outro local qualquer que não a nossa sala.

2 Eu próprio gostaria muito de escrever mais vezes sobre livros. Leio, fora o que me é obrigatório ler diariamente, cerca de dois por semana. Era boa matéria para tratar no blogue? Era. Criaria polémica todos os dias com trolls e lesmas? Certamente, pois, apesar de eu dizer que só leio autores mortos, tenho uma pulsão sadomasochista que me faz ler autores vivos. Literatura e ensaio, portugueses e estrangeiros. Premiados e não-premiados. Uns bons e outros maus (imagine-se se eu viesse dizer mal de uma autora que depois se procura a si própria na internet para me vir insultar).

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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