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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

31
Mai17

Estávamos dizendo

Ricardo Nobre

Contemporâneo do nosso Luís de Camões, o agostiniano Frei Luis de León foi um filósofo, teólogo e poeta humanista espanhol. Cristão-novo, foi perseguido pela Inquisição 1 e, por causa da denúncia de um professor de Grego seu colega em Salamanca, esteve preso mais de quatro anos. Um dos delitos de Frei Luis foi o de preferir ler o Antigo Testamento em hebraico e não pela versão oficial do Concílio de Trento, ou seja, a Vulgata de São Jerónimo. Outra acusação era ter feito uma tradução para castelhano do Cântico dos Cânticos 2, prática proibida pelo mesmo Concílio.

A perseguição a Frei Luis de León foi uma de entre milhares e representa exemplarmente como a ignorância e o fanatismo (em «Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, [n]o mundo!») têm um poder que os nossos dias classificam de terrorista. Ao mesmo tempo, a tranquilidade com que cumpriu a pena havia de ficar célebre. Regressado à sua cátedra salmanticense, em 1577, recomeçou a aula com as estóicas palavras: Dicebamus hesterna die (‘dizíamos no dia de ontem’ ou ‘como íamos dizendo’3).

Os exemplos históricos de heroísmo, que serviram de base à educação europeia até ao século xx, causam admiração, mas dificilmente poderão ser replicados: o contexto histórico é diferente, o valor da coragem é diminuído e ridicularizado; a opinião pública segue uma ortodoxia que os debates (ou tentativas de debate) não movem; a aceitação tem medidas matemáticas, fórmulas e números de amizades. Em suma, os exemplos não comovem, o conhecimento é substituído pelo motor de busca, o sucesso é medido em índices, seriações e listas e «amigo» deixou de ser um parente etimológico do verbo «amar» para ser uma categoria virtual.

O reinício deste blogue (continuador natural e  de um outro, que escrevi entre Agosto de 2006 e Dezembro de 2011 e cujo fim teve motivos ordinários e extraordinários) não é, porém, o retomar de uma cátedra, mas de uma conversa. De amigo, que nasceu com o verbo amar lá dentro.

Estava eu a dizer…

1 Ver o processo da Inquisição aqui.

2 No discurso que fez por ocasião da entrega do prémio, Frederico Lourenço, vencedor do Prémio Pessoa 2016 (e o mais recente tradutor da Bíblia), salientou exactamente que já foi motivo de perseguição a tradução dos textos sagrados para uma língua vulgar. Contudo, Frei Luis de León seria inocente.

3 Como íamos dizendo é também o título das memórias da vida de José Hermano Saraiva (1919-2012).

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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