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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

28
Jun17

Transportes públicos (por quem usa)

Ricardo Nobre

No mês passado, quando Assunção Cristas queria fazer crescer a rede do Metro vinte estações, Ricardo Costa notava no Expresso, de que é jornalista, que as eleições tornam as estações do metro a “fruta da época”. Poderemos ouvir os especialistas em transportes (porque os há, e bastante bons), mas os passageiros são absolutamente ignorados pelas empresas de transportes, cujas decisões não raramente se podem considerar bizarras, prepotentes e economicistas; poupam em tudo, menos no preço dos bilhetes e passes. Isto tem de ser dito muito claramente: o transporte público em Lisboa não é barato e o preço está muito acima da qualidade do serviço. O debate fica a perder com a atenção centrada em mudanças no regime de administração (qual é, do ponto de vista do passageiro-contribuinte, a melhoria decorrente da concessão a privados?) pelo simples facto de, venha quem vier, as decisões vão ser tomadas por quem não sabe utilizar nem nunca andou de transportes públicos (porque têm um «carro da empresa»).

A proximidade de eleições abre, afinal, a época dos transportes. A opinião de um utilizador diário.

1. O Metro de Lisboa (novamente separado da Carris), na linha verde, vai voltar a ter quatro carruagens. Como a estação de Arroios não tem dimensões para comboios com seis carruagens, em vez de quatro que teve antes do governo Passos Coelho/Paulo Portas, na linha verde estavam a circular composições com três. Interesse no passageiro? Nenhum. Lógica? Não, poupança — e evidente estado de degradação do material circulante. Só não se poupou quando houve a WebSummit: fechou-se Arroios para que os génios das startups não andassem apertados em três carruagens e não levassem a summit para outra cidade, como a do medicamento ou a mais verde (estes se calhar viram isto).

2. Na CP (Comboios de Portugal) as mudanças na administração trouxeram algumas boas notícias (como o comboio de passageiros a circular na linha do Leste). Até nos informam de que vai haver transportes reforçados e preços especiais para a praia e um especial de Verão na linha do Tua. Não vou falar do reforço ou da activação de carreiras para a praia (ainda me lembro de a Carris ter um autocarro que ia para a Costa da Caparica em Agosto), porque me parece legítimo e útil que as empresas de transportes aproveitem a sazonalidade. Prefiro os comboios especiais (que a CP já promove quando são concertos de grande dimensão).

Quero recordar que, há poucos anos, a CP fez alterações na circulação dos comboios na linha da Azambuja (revertendo uma solução tomada pouco tempo antes): os comboios de Alcântara-Terra (1) deixaram de ir para a Azambuja (encurtando o percurso à coroa imediatamente anterior, ou seja, Castanheira do Ribatejo) e deixaram de funcionar aos fins-de-semana e feriados (reduzindo o serviço a Azambuja-Santa Apolónia, onde há metro, mas sem passar por Roma-Areeiro [ligação com linha verde do metro, a Fertagus e autocarros suburbanos], Entrecampos [ligação com linha amarela do metro e a Fertagus], Sete Rios [ligação com linha azul do metro, a Fertagus e a Rede Expressos] (2). Que me lembre, houve protestos, mas apenas a Câmara de Vila Franca de Xira teve êxito junto da CP, que repôs comboios mais cedo e mais tarde e (até ao ano passado) abriu aos fins-de-semana e feriados, na época balnear, a linha até Alcântara-Terra para que os veraneantes pudessem ir à praia. Para isso, havia comboios que iam de manhã para Alcântara, mas não havia comboios a sair nesse período (apenas à tarde, no regresso da praia). Para comparar com a atitude de Vila Franca, gostaria de saber que atitude tiveram, em defesa dos munícipes e fregueses (3), a Câmara de Lisboa, a Junta de Freguesia de Alcântara e a Junta de Freguesia da Estrela quando a CP retirou os comboios de Alcântara-Terra aos fins-de-semana e feriados (não foi por falta de comboios, dado que estão a degradar-se em Campolide). Além desta passagem para a praia, a CP tem agora um bilhete especial para a Linha de Cascais: quem vai para a praia paga menos. Quem trabalha aos fins-de-semana e feriados, por seu lado, tem de arranjar alternativas porque a CP não ajuda sequer a fazer ligação a Campolide (o 713 da Carris também não funciona nesses dias), estação sem ligação à linha de Cintura porque os comboios não passam em Sete Rios (é preciso ir a Benfica fazer transbordo). Pensamento focado no passageiro? Não, desinteresse.

3. Na Carris apenas se vê que a degradação do serviço prestado é consistente. A única mudança da actual administração (esta é agora uma empresa da câmara) que os passageiros podem notar empiricamente é o aumento de autocarros a circular com encurtamentos (v.g., 736, de Odivelas para Cais do Sodré, encurtada frequentes vezes para Rossio, Restauradores, Marquês de Pombal e Saldanha — quando é das raras carreiras que faz a Avenida da Liberdade; 738, da Quinta de Barros para o Alto de Santo Amaro, encurtada a horas de ponta ao Rato — sítio até onde também vai o metro, cujo percurso acompanha desde a Cidade Universitária).

De resto, com tantos turistas em Lisboa, é evidente que ninguém percebeu que o 727 (um dos autocarros que serve Belém) não pode circular de meia em meia hora ao fim-de-semana; também um 714 (circula no Parque de Campismo, Belém, Praça da Figueira) sempre cheio dá uma ideia aos turistas de que Portugal «está na moda» mas também no século xix. Há, aliás, muitas coisas urgentes a resolver na Carris: a adequação da oferta à procura é uma delas. Talvez os eleitores, contribuintes e passageiros não tenham bem consciência de que a empresa de autocarros de Lisboa não alterou horários e número de autocarros em circulação por causa da onda (ou tsunami) de turistas; talvez se tenha perdido a percepção de que, pelo mesmo motivo, os lisboetas não conseguem andar de eléctrico. Salvar o eléctrico do empecilho do vizinho que estaciona o carro em cima dos carris para ir beber café ou «ir só ali entregar uma coisa» é, aliás, outro problema. A Polícia Municipal (4), que parece uma associação columbófila com tanto apito, não deveria ser mobilizada para evitar situações de entupimento do trânsito? Não deveria ter reboques prontos a retirar os carros dos carris? Outra melhoria que os utentes dos transportes de Lisboa apreciariam seria painéis como os que existem no Metro do Porto: à saída da estação, há informação clara sobre todas as carreiras das paragens dos interfaces e o tempo que falta para cada uma. Em Lisboa, muitos painéis do tempo de espera estão como este, na paragem da Avenida 24 de Julho: sem funcionar há mais de um ano.

painel de contagem do tempo em Alcântara

Neste breve texto, percebe-se que os responsáveis políticos (e os gestores, seus representantes) estão há anos a discutir transportes, ligações, horários e mobilidade: está na altura de ouvir os utentes. É fundamental haver representação dos passageiros na administração das empresas, cheias de gestores e gente certamente muito competente, mas sem experiência de andar numa carruagem do metro completamente cheia ou num autocarro sem ar condicionado; sem experiência de esperar todos os dias mais de vinte minutos por um autocarro, lidar com supressões e atrasos. Está na altura de respeitar os utilizadores dos transportes e mudar a mentalidade acerca de quem, afinal de contas, é contribuinte e passageiro.

(1) Estação terminal da linha de Cintura, com (penosa) ligação pedonal à linha de Cascais (estação de Alcântara-Mar, onde as escadas rolantes não funcionam há mais de cinco anos), problema por resolver há quase vinte anos. É possível que leitores que não usam transportes de Lisboa tenham ficado impressionados com a notícia de que a estação de Alcântara-Terra (onde fica o Banco Alimentar contra a Fome) está a funcionar, e não devoluta (apesar de o edifício ter sido restaurado em 2005). Como a ironia não tem fim, funciona no edifício dessa estação o serviço de Património das Infraestruturas de Portugal (antiga REFER).

(2) A ligação com a linha vermelha ocorre no interface do Oriente, onde não há comboios da Fertagus.

(3) A propaganda oficial da Junta da Estrela escreve fregueses com aspas. Talvez por os impostos pagos à edilidade não revertam a seu favor, como noutro tipo de comércio, mas em feiras do cavalo?

(4) Gostaria de falar um dia sobre esta força policial, que me tem surpreendido pela descortesia e ameaças com que fala com os automobilistas, perdidos no meio das mil e trezentas obras; talvez fosse mais inteligente apostar na pedagogia e saber explicar às pessoas como se circula de carro depois da reorganização de trânsito.

21
Jun17

O fim da Arcádia

Ricardo Nobre

Os textos que se têm publicado desde o início do incêndio de Pedrógão Grande (1) reconhecem que já se disse tudo (alguns autores foram buscar textos escritos no ano passado, por ocasião do incêndio na ilha da Madeira). Ainda assim, dizem tudo outra vez. Também o estudo exige repetição para atingir o conhecimento: o combate aos incêndios começa pela prevenção. Muitos lamentam o fim da pastorícia, apontando ainda a monocultura (em particular aquela que é muitíssimo comburente: o famoso eucalipto (2)), a falta de limpeza das matas (em substituição de animais que comeriam o pasto), etc. Com efeito, estamos tão submersos em saber rural e estamos tão certos de que se sabe exactamente como o problema pode ser minorado que o difícil é escolher por onde começar.

A amargura apenas se sente quando o cidadão percebe que não tem poder para fazer nada e o Estado não quer agir: falta de coragem, desinvestimento no interior (que não dá os votos que eles lá querem), política agrícola e florestal pouco trendy porque pertence a uma vida sem gostos ou hashtags (3). Como todos têm a sua fantasia (faltou quem culpasse a Caixa Geral de Depósitos por ter fechado a agência de Almeida, mas recordaram-se os correios, tribunais e as repartições de finanças que contribuem para a desertificação), eu também gostaria de acrescentar uma.

A minha proposta é a criação de uma brigada florestal na GNR para substituir os antigos guardas florestais (que não eram polícias). Se há entidade que tem pessoal disponível (alguns até têm tempo livre a mais), com jipes, cavalos e cães é a Guarda Nacional Republicana. Compravam-se drones (aproveitando a onda de solidariedade, podia ser que alguma multinacional os oferecesse), construíam-se uns postos de observação elevados (como os faróis) e mandava-se a guarda para a floresta. Com a agilidade no manuseio de telecomunicações, seria mais fácil detectar os incêndios e chamar os bombeiros.

De resto, julgo que o regresso à economia rural preconizada pelo amanho do campo e pastorícia já não é possível. Quem se dedica à criação de gado (para produzir queijos, por exemplo) no século xxi adopta métodos mais baratos, seguros e economicamente eficazes que não implicam levar os animais para o campo.

De qualquer maneira, se se conseguir reintroduzir os rebanhos, peço o regresso de ovelhas ao Campo Grande (4):

Biblioteca Nacional

A fotografia que ilustra este texto representa a entrada principal da Biblioteca Nacional de Lisboa esta manhã, dia 21 de Junho de 2017. Por vergonha (às vezes, quando os dirigentes não têm, tenho eu por eles), não tirei nem vou publicar fotografias da savana que circunda o edifício do depósito bibliográfico português.

(1) Aproveito para informar os jornalistas e o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (ver aqui uma publicação de dia 18, às 3h22) que Pedrógão se escreve com acento agudo no primeiro o. Sendo esta a naturalidade (de acordo com Inocêncio Francisco da Silva, tomo ii, p. 289) de Fernão de Oliveira, primeiro gramático português (ler a Gramática da Linguagem Portuguesa aqui), o pudor exige a correcção ortográfica.

(2) Etimologicamente, é um primo de Calipso, pois partilham da mesma origem: eu- significa ‘bem’, em grego; kalyptós quer dizer ‘escondido, encoberto’; apesar disso, está bem à vista a destruição.

(3) Deslocando do contexto e adulterando uma citação de João da Ega, «é estrangeirismo! fujamos!». Nota aos alunos que fizeram Exame Nacional de Português este ano: João da Ega é uma personagem do romance Os Maias, publicado por Eça de Queirós em 1888, o mesmo ano em que nasceu o único poeta que estudaram por causa da comuna.

(4) Não foi assim há tanto tempo que rebanhos de ovelhas circulavam na Alameda da Universidade e no jardim do Campo Grande (presença testemunhada no programa Bairros Populares de Lisboa, de 1990, episódio sobre o Campo Grande, como se pode ver no Arquivo da RTP).

19
Jun17

«Deixai-me parir!»

Ricardo Nobre

Tiago Miranda, fotojornalista do Expresso, publicou na versão digital diária desse jornal, no dia 20 de Abril, um texto que intitulou «Maternidade Alfredo da Costa, a fábrica de parir e o acompanhante que não é de luxo». Em síntese: Tiago foi pai de uma menina e conta a experiência de utilização das instalações da Maternidade Alfredo da Costa.

O texto, geralmente bem escrito, tem muito interesse porque acrescenta ao debate público sobre o possível fecho da maternidade um relato testemunhal sobre a desadequação das instalações para receber os pais dos bebés portugueses (mas não os bebés, note-se). Não é (como até aqui julgo que tem acontecido) um relatório burocrático sobre o legado de Alfredo da Costa nem o interesse profissional de equipas de saúde (e inevitável afeição pelo espaço, nostalgia, etc.) e muito menos o receio da conversão do edifício em hotel ou outros negócios de especulação imobiliária sem transparência. É, repito, uma magoada reflexão em torno de «é aqui que gostaria que o seu bebé nascesse?» Pelo testemunho do pai, não.

No entanto, talvez por ter sido o início de uma vida de parentalidade, há muita emoção e sensibilidade que não beneficiam o texto. De facto, alguns aspectos preocupantes (portas de emergência fechadas a cadeado) são remetidos para depois do fim do relato. Com efeito, a função do p.s. é acrescentar uma informação de que nos esquecemos, e este é um assunto demasiado relevante (mais do que as dimensões do quarto da parturiente e certamente mais do que o banquinho onde o autor aguardou a chegada da filha) para um lugar tão secundário.

De facto, o problema com o texto tem tudo que ver com a hierarquização das ideias. O que mais importunou o autor não foi (nem podia ser) o tratamento clínico que a mulher recebeu na maternidade; também não foi a falta de limpeza, a antipatia do pessoal e dos seguranças, o mau funcionamento da equipa que acompanhou o parto. O incómodo de Tiago Miranda — a ponto de ter feito a chamada ao título — adveio do facto de ele ter sido tratado por «acompanhante» e porque a mulher foi «parir». Estou seguro de que terá sido apenas a hipersensibilidade de pai recente que o levou a insistir nestes dois termos, sobre os quais gostaria de fazer algumas notas.

O facto de associar o primeiro termo à expressão «acompanhante de luxo» diz mais do estreitamento do seu universo de referência enquanto falante do que à desadequação ao contexto. Se fosse hoje (mais de um mês depois a mudar fraldas), o autor já se lembraria de que uma parturiente não tem de ser obrigatoriamente acompanhada do pai biológico do bebé. «Acompanhante» é ‘aquele ou aquela que acompanha’, faz companhia (etimologicamente, ‘quem partilha do mesmo pão’). Não deve haver termo mais neutro do que este, sobretudo quando a maternidade é um sítio público onde aparecem toda a sorte de situações.

A crítica ao termo «parir» é mais infundada:

Tiago Miranda

O próprio autor diz que é um termo técnico. E é, porque todos os mamíferos nascem da mesma forma: «expulsar do útero», diz o Houaiss. O mesmo dicionário diz que o termo existe na nossa língua desde que ela existe, século xiii, ou seja, «parir» vem harmoniosamente do latim para o português sem sobressaltos. Mesmo o sentido metafórico de ‘criar, inventar’ já existia em latim (e ainda outros, como ‘produzir, gerar’, ‘pôr os ovos’ ou ‘obter, alcançar’). O mais interessante na censura a «parir» é que ela ignora completamente todo o campo lexical que com ele se relaciona: «parturiente», «parto», «parteira», «parente», «parental». Além disso, o parentesco (outra palavra) com as línguas românicas (e o inglês, já agora) é evidente.

O estreitamento do universo de referência, potenciado pela circunstância de o autor estar diariamente exposto à velocidade com que as línguas adoptam termos sem critério para logo os abandonar (alguém usou ou alguém se lembra daquele «entroikado», palavra do ano da Porto Editora em 2012?), bem como novas formas de expressão, aliado à hipersensibilidade da recente parentalidade justificam as queixas de Tiago Miranda. Mas de modo algum estas palavras são desadequadas do ponto de vista científico, socialmente ofensivas ou virão a ser alteradas se a maternidade mudar de instalações ou se dissolver nas mudanças para o Hospital Oriental. Estou convencido de que vai chegar o dia em que o politicamente correcto vai alterar (‘tornar outro’) muito e transformar (‘mudar de forma’) as línguas (em Portugal, é provável que comece pelo «cartão de cidadão»), mas, nos dois exemplos que se podem recolher deste texto, não é já.

p.s.: O título deste texto provém da tradução portuguesa de Ulisses, de J. Joyce (trad. Jorge Vaz de Carvalho. Lisboa: Relógio D’Água, 2013, p. 218). No original: “Let me parturiate!”.

15
Jun17

O repousante lugar-comum

Ricardo Nobre

No Livro de Estilo do Público (edição de 2005, p. 66):

As frases feitas e os lugares-comuns, os chavões e as palavras de ordem devem ser igualmente evitados: artificializam ou estereotipam a prosa e tornam-na menos incisiva na apresentação dos factos e das ideias.

Na edição de 15 de Junho (pp. 10-11 e aqui):

O que é que a Suécia tem?

No editorial da mesma edição (p. 44 e aqui):

César, (sic) o que é de César (e a sua mulher)

Os exemplos podem multiplicar-se, com expressões mais incómodas. Recorde-se que o jornalismo de referência atravessa uma fase de risco financeiro, mas entendo que no fim será a qualidade do produto a determinar se o consumidor o compra. Não é assim que vão conseguir leitores para o jornal.

10
Jun17

Um Quinto não é um Marco

Ricardo Nobre

A editora Gradiva tem uma colecção de livros breves («Um guia clássico para líderes actuais») que, apesar das interrogações que me levantam (sobretudo quanto à tradução), tem a enorme vantagem de popularizar e divulgar textos clássicos. Por exemplo, obras de Cícero, numa miscelânea de textos sobre governação, e um manual de campanha eleitoral (Commentariolum Petitionis) do irmão dele (que recebe um título de leitura de gestor, Como Ganhar Eleições).

Lá na Wook (a livraria que uso), ninguém notou (alguém sabe?) a diferença entre Marco Túlio Cícero e Quinto Túlio Cícero, por isso o Manual de Campanha Eleitoral aparece atribuído ao primeiro.

Como ganhar as eleições

 Curiosamente, na sinopse, a autoria está correcta (imagino que copie informação algures no livro).

09
Jun17

Nota linguística a uma nota histórico-cultural

Ricardo Nobre

A exibição de conhecimento é a estratégia comum para a configuração da auctoritas, ou seja, o valor da palavra (e daquilo a que ela dá forma, como uma ideia, um pensamento, um raciocínio ou ponto de vista) de um autor. Quando Henrique Monteiro, redactor principal do Expresso, faz (aqui), entre parênteses rectos, uma «nota histórico-cultural» está a edificar a sua auctoritas:

Sabem quem foi Pirro? Theresa May já deve saber

Quando coloca um acento agudo em Epiro está a demonstrar que conhece Pirro (e a batalha de Ásculo, no ano de 279 a. C.) por meio de fontes secundárias. Mantendo o contexto britânico, dir-se-ia que o classicista oxoniense Boris Johnson poderia esclarecer o esclarecimento de Henrique Monteiro.

Como o Expresso Curto costuma ter uma sugestão de leitura, termino com o conselho de leitura da Vida de Pirro, de Plutarco (aqui em inglês).

[Nota linguística: a acentuação de nomes próprios obedece às regras da acentuação latina, mesmo quando eles têm origem grega. Assim, em Epīrus (do grego Ἤπειρος), porque a segunda sílaba tem uma vogal longa, a acentuação é paroxítona. São longas as vogais latinas cuja origem são ditongos em grego; neste caso, ī provém de ει.]

07
Jun17

Financiar a leitura

Ricardo Nobre

Os portugueses têm a sensação de que pagam muitos impostos. Tal como tenho defendido em relação a outros aspectos mundanos, a impressão de que se paga muito só poderia ser atenuada se o retorno fosse equivalente: ninguém se importaria de pagar impostos se, em caso de necessidade, chegasse a um hospital e fosse de imediato atendido, tratado e saísse de lá curado. Quem se queixaria de impostos se as crianças portuguesas frequentassem escolas aquecidas no Inverno e frescas nos meses de Verão, com material escolar gratuito e sempre novo? Alguém se insurgiria contra o valor dos impostos e das contribuições sociais se soubesse que, depois de uma pesada carreira contributiva poderia retirar-se da vida activa com disponibilidade financeira suficiente para ajudar um amigo em situações complicadas, para assistir à família ou para poder pagar um lar de «luxo»?

Os portugueses têm, efectivamente, a sensação de que pagam impostos demasiado elevados e sentem-se traídos pelas notícias de parcerias público-privadas, pela saída de um político de um cargo dirigente para o topo de uma empresa; sentem-se traídos, claro, pelo valor pago a políticos e gestores públicos (refiram-se aqui a Carris e a CP, que são empresas deficitárias e que nunca prestaram um serviço de transportes acima do medíocre). Apesar de nos queixarmos do valor dos impostos, a verdade é que existem serviços públicos que funcionam muito bem. Talvez porque o seu funcionamento seja mais barato do que pôr um autocarro a circular entre Odivelas e o Cais do Sodré.

Falo das bibliotecas públicas municipais.

Em Lisboa, temos uma rede há poucos meses enriquecida pelo novo espaço, em Marvila, a que a propaganda oficial da Câmara chamou «biblioteca de terceira geração» (desconheço o conceito de geração aplicado a bibliotecas). Diria que Belém e Telheiras têm bibliotecas exemplares não apenas pelos óptimos espaços que ocupam, mas sobretudo pelos acervos bibliográficos (Telheiras tem ainda o serviço de música e filmes). Todas as bibliotecas públicas que conheço apenas têm o problema do horário de funcionamento, ajustado ao funcionalismo público, ou seja, enquanto as pessoas estão a trabalhar, as bibliotecas estão abertas; quando as pessoas estão de férias ou de folga, as bibliotecas também. Apesar disso, as bibliotecas têm uma função sociocultural de enorme relevo. São espaços onde jovens e idosos são bem-vindos, onde há desenhos animados e jornais, livros e computadores. Constituindo espaços de liberdade, de criatividade e de cultura, não tenho dúvida de que as bibliotecas públicas são uma das melhores conquistas do nosso país. Completamente gratuitas. Para isto vale a pena pagar impostos.

Anexo a esta mensagem uma nota importante.

À rede de bibliotecas municipais de Lisboa faltam a biblioteca do Campo Pequeno (no Palácio Galveias, que reabrirá no dia de Camões, próximo sábado) e a biblioteca de Alcântara (cujo antigo edifício foi demolido para dar lugar a um novo hospital da CUF, entre a Avenida 24 de Julho, a Avenida da Índia e a rua de Cascais). O edifício da futura biblioteca de Alcântara, na rua José Dias Coelho, está em ruína, como se vê na imagem disponível na vista de rua do Google (à direita, por cima do edifício, vê-se o viaduto norte da Ponte 25 de Abril), e, em breve, já se poderá fazer algo de raiz, como a Câmara de economistas e arquitectos gosta (também em Alcântara, foi preciso uma holandesa defender um edifício para que se revissem os planos de demolição, contou o jornalista João Pedro Pincha no Público de dia 25 de Maio de 2017, p. 19 da edição de Lisboa, e aqui).

Biblioteca de Alcântara

04
Jun17

A rotina

Ricardo Nobre

http://www.keepcalmandcarryon.com/history/

O romance Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto (Mário de Carvalho, 1995 (1)) tem como história paralela à intriga principal a ascensão (rápida e sem queda) de Eduarda Galvão: de empregada de uma loja a jornalista de referência. O narrador (que acumula o papel de autor) expõe o ridículo das circunstâncias de uma pessoa intelectualmente não preparada (a sua única formação é a «universidade» do Bairro Alto) conseguir exclusivos consecutivos: com um escafandrista francês (sem saber a língua), uma entrevista com Agustina Bessa-Luís (sem conhecer a escritora) ou a história inédita de um homem que mordeu um cão («aconteceu»: p. 110; cf. pp. 118-126 134). Não é apenas a sorte (ou a graciosidade) que ajuda a sua carreira; por trás do sucesso de Eduarda Galvão está um antigo professor seu, Jorge Matos, que transforma em material publicável as histórias que a ex-aluna lhe leva (ironicamente, Jorge nunca publicaria nenhuma das suas peças). Numa cena em que as duas personagens interagem (e que julgo que é o início do seu afastamento), Eduarda pergunta a Jorge qual é o seu signo. A reacção de Jorge é um dos momentos antológicos da obra de Mário de Carvalho. O professor indigna-se (p. 199):

Atreves-te a falar no Zodíaco em minha casa, quatrocentos anos depois de Pico della Mirandola! (2) Atreves-te a negar milhares de anos de civilização que custaram muito a ganhar, ouviste?

A civilização em causa não teve uma ascensão constante nem rápida como a de Eduarda Galvão. Teve muitos sobressaltos e retrocessos, como a história do século xx mostra: em cem anos, a Europa pôs em causa toda a sua história, mas, nesse mesmo intervalo de tempo, reconstruiu-se, reformou-se e ficou em paz (como recordava George Steiner na revista E de ontem).

Com os atentados à civilização ocidental — de que o Zodíaco é uma projecção mínima e as acções terroristas uma projecção máxima (bem como a negação das alterações climáticas e do Holocausto) —, o espaço mediático enche-se de especialistas, opinadores e fundamentalistas. A mensagem dominante, fora o pesar com as vítimas, é a da superioridade da democracia e do estoicismo britânico (“Carry on”). Diante do terrorismo, a Europa levanta-se e continua a erguer os ideais que «custaram muito a ganhar» ao longo de «milhares de anos de civilização». Há quem defenda que não se deve falar dos acontecimentos para não lhes dar demasiada importância. Alguns entendem que o aumento de medidas de segurança e o cancelamento de eventos que mobilizam multidões é uma cedência aos terroristas. Outros alertam para o medo que estas acções provocam (que não se pode comparar com o medo de o mundo acabar no ano 2000), mas também dizem que agora matam menos que os grandes atentados do 11 de Setembro (quando as vítimas não somos nós ou a nossa família são sempre apenas pequenos números).

Ao medo de atentados soma-se o pânico da ascensão de (partidos) políticos que apresentam uma solução imediata: fechar fronteiras, expulsar o estrangeiro e atacar o inimigo na sua casa. Negando a hipótese de escolha (o acto), esses partidos recusam aceitar que há coisas que não se escolhem (a essência [da nacionalidade, como outras determinações que não se escolhem, como a cor da pele ou o sexo]), propondo acções terroristas aplicadas aos outros para responder a actos praticados nos nossos. Se não aprendemos «absolutamente nada» com a História (outra vez George Steiner), saibamos ler Platão, Aristóteles, Spinoza, Locke ou Hume para que a nossa opinião não se alicerce em juízos precipitados e impressões do momento.

Afinal, a lição da Europa civilizada é esta: a memória não se apaga.

(1) Referências da edição Porto: Porto Editora, 2014.

(2) Recorde-se, a este propósito, que Pico della Mirandola (1463-1494) foi autor das Disputationes adversus astrologiam divinatricem (em linguagem portuguesa: Discussões contra a astrologia da adivinhação).

03
Jun17

Os reis de Queluz e as jornalistas de Alcântara

Ricardo Nobre

D. Maria I, mulher de D. Pedro III e mãe de D. João VI

Nelma Serpa Pinto e Ana Fernandes (que a editou mas não corrigiu) escreveram no Público de 3 de Junho de 2017 (p. 22 da edição de Lisboa e aqui) que «[e]nquanto as tropas francesas entravam pela fronteira portuguesa em 1807, D. Maria I e D. Pedro III partiam para o Rio de Janeiro». No parágrafo seguinte, afirma-se que «[e]m 1821, D. João VI, filho da família real exilada, regressa a Portugal e realoja-se em Queluz».

Dificilmente se terão juntado tantos lapsos de História de Portugal numa publicação que se quer de referência: D. Pedro, o patrono das recomendações que ficaria conhecido como «Capacidónio» (1), morreu em 1786 (antes da revolução francesa). A sua morte foi, aliás, apontada como um dos motivos que terá levado D. Maria I à loucura. Logo, não embarcou para o Brasil.

Quando saiu de Belém, em Novembro de 1807, para fugir às invasões francesas, a família real dirigia-se à Bahia, mudando-se para o Rio de Janeiro, a capital do Brasil até 1960.

O D. João VI que, por imposição das Cortes, regressa a Portugal em 1821 não era «filho da família real exilada» porque, pela morte de D. Maria I, a sua mãe, se havia tornado rei de Portugal e do Brasil em 1816.

Quando desembarca em Lisboa, o rei vai imediatamente ao Palácio das Necessidades votar as Bases da Constituição, de onde parte para Queluz (com passagem pelo Palácio da Ajuda), onde fará o beija-mão e fica «poucas semanas» (2). Mas viverá no Palácio da Bemposta (3), onde aliás viria a morrer depois de uma célebre merenda em Belém (4). Em Queluz, vive a sua mulher, D. Carlota Joaquina (mãe dos futuros reis D. Pedro IV e D. Miguel), opositora do regime liberal implantado em 1820.

Não deixam de causar desconforto falhas tão elementares num texto sobre um tema que não é exactamente novidade — ou cujo conhecimento não é exclusivo de historiadores (falo da história do Palácio de Queluz, que as jornalistas até podem conhecer aqui ou aqui) — num momento crítico do jornalismo (tema a que gostaria de regressar em breve), quando o director do periódico, David Dinis, apela aos leitores para que façam uma assinatura. Os leitores pagarão quando pensarem que estão a contribuir para um jornalismo competente e de qualidade, e não para uma quantidade assinalável de erros factuais.

A matéria onde as jornalistas se enganaram é estudada no 6.º ano de escolaridade na disciplina de História e Geografia de Portugal, no tema «A Revolução Francesa de 1789 e seus reflexos em Portugal» (5).

(1) Porque escreveria nessas recomendações «é capaz e idóneo», juntando muito as letras.

(2) Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna, vol. i, p. 261.

(3) Oliveira Martins, 1887, História de Portugal, vol. ii, p. 266. O Palácio da Bemposta é onde actualmente está instalada a Academia Militar, no Campo de Santana, em Lisboa.

(4) Oliveira Martins, 1895, Portugal Contemporâneo, vol. i, p. 1.

(5) Consultar documentos do Ministério da Educação aqui.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.