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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

26
Ago17

Seca de literatura portuguesa

Ricardo Nobre

As barragens estão cheias de livros de escritores portugueses, mas nos jornais a seca é severa: não abrindo as comportas, os livros ficam com microalgas e em breve chegam ao esquecimento.

O «Ípsilon» (suplemento cultural do Público) continua imparável na sua ignorância (na verdade, não sei se é «não saber» ou «não querer saber») da literatura portuguesa. A 18 de Agosto, Hugo Pinto dos Santos fazia uma resenha crítica muito interessante (quase «como todas as críticas deviam ser») aos Poemas Quotidianos de António Reis. Todavia, ontem, 25 de Agosto, o «Ípsilon» não publicou crítica a qualquer livro da nossa literatura (embora tenha de escritores lusófonos). Ainda assim, Helena Vasconcelos assina um texto sobre o Dicionário Sentimental do Adultério, de Filipa Melo, que já tinha sido recenseado no Expresso. Outra tendência que parece poder concluir-se é que os livros escritos por jornalistas têm mais probabilidade de ser divulgados nos «suplementos culturais» dos nossos jornais (já tinha acontecido, antes da monitorização deste blogue, com Rodrigues Guedes de Carvalho) do que livros de escritores portugueses que tenham outras profissões. (Isto está certamente muito bem, eu também conheço melhor o trabalho dos meus amigos do que o das pessoas que nunca vi.)

A revista «E» nas últimas duas semanas também publicou poucos textos sobre livros de literatura portuguesa: a edição de 19 de Agosto dava três estrelas aos microcontos Insanus de Carlos Querido e a edição de hoje, 26 de Agosto, trata apenas de reedições (uma é antologia de textos curtos).

19
Ago17

Fogo-de-vista da Cultura

Ricardo Nobre

A revista «E» (suplemento do Expresso) de hoje traz dois textos de extremo interesse.

Um, de Diogo Ramada Curto, sobre as extravagâncias orçamentais das festas e do folclore (a propósito de um festival literário no México) em detrimento de uma política cultural consistente, sólida e séria, que promova a leitura, o conhecimento e a preservação do património bibliográfico português. A ironia do texto está na chapelada1 à directora da Biblioteca Nacional, instituição que tem cortado em todas as despesas (o Prof. Ramada Curto enumera-as) menos… no folclore das exposições. Eu sei que uma exposição (que digo? na Biblioteca Nacional de Lisboa há sempre cinco ou seis exposições ou mostras em simultâneo) não é assim tão cara: excepto três, que exigem uma sala iluminada e climatizada — ao contrário da sala de leitura geral durante a maior parte do ano (não falo na «sala multimédia», todo o dia a transmitir filmes ou documentários) —, as outras exposições ou mostras estão em corredores ou na sala de referência. Os visitantes são muito poucos (e, como não têm cartão de leitor, logo expulsos da sala de leitura, que deve ser o espaço mais interessante acessível ao público). Mas a Biblioteca Nacional não distribui leitura durante a hora de almoço por falta de pessoal: não quer dizer que haja falta de pessoas; só que estão a montar exposições — ou a não fazer nada, como amplamente se tem visto num sofá em frente de leitores e visitantes.

Antes deste texto, porém, está uma notícia de António Valdemar sobre um estudo que Arnaldo Saraiva fez (com documentos outrora inacessíveis) sobre a passagem do escritor Vergílio Ferreira pelo seminário do Fundão (e da Guarda). É evidente que nestes contextos é preciso salientar as novidades descobertas, mas é claro que considerar a obra do autor (em particular a Manhã Submersa) testemunha autobiográfica parece uma ingenuidade — a mesma que levaria a acreditar que o seminário não trouxe nada de bom a Vergílio Ferreira, nem sequer o desenvolvimento da sua capacidade de expressão em língua portuguesa. As vigilâncias, repressões e outras rotinas dos seminários também precisariam de ser contextualizados para que o leitor mais sensível não fique a pensar que não havia atrocidades dessas fora dos seminários (e até ao 25 de Abril). Eu sei que a palmatória do professor do menino José [Trindade Coelho] (em «Para a Escola», incluso em Os Meus Amores) não fez muitos doutores, mas era o instrumento da disciplina.

Numa idade em que um escritor só existe com os holofotes e a exposição mediática (afinal pode relacionar-se isto com o festival do México de que fala Ramada Curto), eu sei que pode parecer importante conhecer a vida (íntima ou privada, porque quanto mais privada mais interessante para as massas) dos criadores literários. Pois eu acho que não, mas também defendo que cada um estuda e investiga o que quer.

Última nota para dizer que, na infância e adolescência de Vergílio Ferreira (e até ao Concílio Vaticano II, em 1969), a missa católica era em latim, mas o autor da notícia (imagino que levado pelo autor do estudo) sublinha-o: «ajudar à missa, e em latim, antes dos seis anos». É óbvio para quem quer que seja que isto não quer dizer que Vergílio Ferreira sabia latim antes dos seis anos: a missa era ritualizada e baseava-se em repetição de expressões ou frases. Em todo o caso, foi o seminário que lhe deu o conhecimento do latim e do português.

1 Acredito que seja um elogio sincero, pois não é a primeira vez que é feito. No entanto, não se pode concordar com ele.

12
Ago17

Raul Brandão e Cristina Carvalho

Ricardo Nobre

A revista E (suplemento do Expresso) de hoje publica um texto de Pedro Mexia sobre Os Pobres, de Raul Brandão. A obra, de um autor de que este ano se comemoram os 150 anos do nascimento, acaba de ser reeditada pela Opera Omnia e recebe cinco estrelas. Da literatura nossa contemporânea, há ainda, na revista, a crítica de Rui Lagartinho (quatro estrelinhas) a Rebeldia, de Cristina Carvalho (n. 1949), autora que conhecemos dos contos de Até Já Não É Adeus (Relógio D'Água, 2016; 1.ª ed. Ponta Delgada, 1986).

11
Ago17

Fernanda Botelho

Ricardo Nobre

A reedição de Esta Noite Sonhei com Brueghel (pela Abysmo), da autora de A Gata e a Fábula, que não pode receber menos de cinco estrelas, é pretexto para um extenso texto de Isabel Lucas publicado no «Ípsilon» (suplemento cultural do Público) de hoje (pp. 20-21). Não há mais literatura nas críticas dos livros (nem traduzida).

09
Ago17

Manuel Alberto Vieira

Ricardo Nobre

O único livro de literatura portuguesa que a revista E (suplemento do Expresso) desta semana menciona é o volume de contos de Manuel Alberto Vieira (n. 1979, já conhecido pelo Caderno de Mentiras), Teatro Vertical, que merece três estrelas de José Mário Silva. Ainda assim, a atenção dada à literatura portuguesa nas páginas desta publicação é menos deceptiva do que no Público.

05
Ago17

Carmen Miranda escreve no Público?

Ricardo Nobre

Estou a pensar se não devo criar uma rubrica no blogue (chamada «o repousante lugar-comum») com a antologia de títulos do Público decalcados da música da Carmen Miranda. A 15 de Junho era a Suécia, ontem foi uma empresa automóveis eléctricos. Apetece perguntar: «o que é que o Público não tem?» Imaginação, leituras, referentes culturais, graça.

02
Ago17

Férias sem literatura portuguesa

Ricardo Nobre

Exceptuando o contexto escolar, sou muito desfavorável ao aconselhamento de leituras. Todas as pessoas têm interesses e visões particulares sobre o mundo, o sentimento, a beleza, a arte, enfim; penso que um grande livro lido na altura errada pode significar a desilusão que a literatura não merece.
Isto não significa que eu não leia (por curiosidade profissional, confesso) listas e sugestões de leitura. Recentemente, apreciei muito a lista que o El País-Brasil fez sobre obras-primas cujos leitores dificilmente chegaram ao fim (há sempre a vaidade de encontrar romances que já li, embora reconheça a dificuldade que tive em terminá-los).
Chegando Julho e Agosto, sobretudo, é tradição jornais e revistas darem atenção a locais que sugerem para férias; por vezes, acrescenta-se uma sugestão de leitura (dando a entender que as férias é o momento de pôr leituras em dia). O Doutor Carlos Fiolhais, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra, no Público de hoje, segue a tendência de Verão e escreve apenas para indicar livros para ler nas férias. Há pouca ficção e interessantemente obras sobre a cultura portuguesa. Tudo isto está muito bem se eu não concordasse com Eduardo Lourenço (alguém discordará?), que, na entrevista que o mesmo jornal publicou na segunda-feira passada, à pergunta «Sempre analisou as questões da identidade a partir da literatura e sobretudo da poesia. A melhor maneira de conhecer um povo é a partir da literatura que ele produz?» afirma claramente:

«Sim, a arte em geral. A literatura não tem uma função. É um efeito do que somos de mais misterioso, de mais enigmático e ao mesmo tempo de mais ambicioso. Penso que, de todas as artes, a que revela o que a Humanidade é de mais profundo e absoluto é a música. A literatura é uma música um tom abaixo. Não se explica, não é da ordem do conceito como a filosofia. É natural que os homens reservem à literatura a sua maior atenção. A literatura é o nosso discurso fantasmático, absoluto. Todas as culturas se definem pela relação com o seu próprio imaginário. A encarnação dele é a literatura.»

A lista de Carlos Fiolhais, antigo director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, infelizmente, não indica ao leitor que gosta de sugestões um único título de literatura portuguesa, por isso eu permito-me sobrepor à lista do Professor de Física (e excelente leitor de literatura portuguesa, que eu sei que é) também uma sugestão. Quem quer aproveitar estes meses para ler, quem tem interesses sobre a cultura portuguesa, saber o que escrevem autores portugueses, como eles pensam o país, o mundo, os afectos que leia literatura portuguesa. Porque, parafrasenado Sebastião da Gama, ler é, olhe, é ler. Em português, se me permitem acrescentar.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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