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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

15
Set17

Uma nova geração sem referências

Ricardo Nobre

O fim das férias é motivo para muitas novidades no mundo editorial. A capa do «Ípsilon» (suplemento do Público) de hoje chama a atenção para elas. No interior (pp. 4-8), há textos sobre novos livros de escritores mais jovens e talvez desconhecidos e sobre as novidades que o mercado livreiro português conhecerá com a assinatura de (entre outros) Hélia Correia, Dulce Maria Cardoso, Lobo Antunes e Mário de Carvalho (que não é mencionado no texto). Na secção da crítica, porém, não se fala de nenhum livro português.

Neste contexto, há que valorizar o texto de José Riço Direitinho «Os novos Portugueses: Rentrée [sem itálico] literária», que tem menos de lista de novidades do que informações críticas sobre as obras de Carla Pais (quase-Prémio Agustina Bessa-Luís, 2016), Raquel Gaspar Silva e Rodrigo Magalhães. Destes, a mais nova é a Raquel, nascida em 1981 (o texto serve ainda para reflectir sobre o que é uma «nova geração», já que são todos mais velhos que o poeta Frederico Pedreira, por exemplo). As meninas são as únicas debutantes, pois o Rodrigo já tinha publicado um romance (falado neste mesmo suplemento) em 2013. José Riço Direitinho realça nas autoras a coincidência do cenário rural em que se passam as obras, configurando esse ambiente não só uma caracterização espacial e geográfica mas temporal e religiosa.

Há depois um aspecto muito interessante e que parece ser fundamental para os autores (sobretudo em início de carreira), que é a «influência». Carla Pais identifica Rui Nunes, Maria Velho da Costa, Almeida Faria e Philip Roth; Raquel Gaspar da Silva nomeia Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, García Márquez e Joanna Ruocco, sem ter «afinidades» com autores portugueses. Já «[a] imaginação de Rodrigo Magalhães parece assentar […] na estética da pequena biografia», de que Marcel Schwob, Borges e Bolaño poderão ser considerados paradigmáticos. No entanto, o autor identifica como influência W. G. Sebald, Gogol e Flaubert.

Geração em geração, até os escritores portugueses esquecem os escritores portugueses.

09
Set17

Continuam os tempos difíceis para a divulgação da literatura portuguesa

Ricardo Nobre

Os jornais de que aqui se tem falado (o Público e o Expresso) esta semana não publicam nos seus suplementos culturais («Ípsilon» e «E») nenhuma crítica ou entrevista a escritores portugueses — excepto, no «Ípsilon», um texto de Maria da Conceição Caleiro sobre o livro de José Tolentino de Mendonça Teoria da Fronteira, já recenseado no Expresso em 29 de Julho. Na «E» de hoje, há, ainda assim, crítica da crítica literária (um livro de Nemésio sobre Raul Brandão e um Essencial sobre Vergílio Ferreira).

02
Set17

Setembro começa como Agosto: como se não houvera literatura portuguesa contemporânea

Ricardo Nobre

No «Ípsilon» (suplemento do Público) de ontem, nota-se a completa ausência da literatura portuguesa. No entanto, refira-se que esta semana foram publicadas entrevistas (uma na quinta, outra ontem, dia 1 de Setembro) a dois escritores portugueses, embora a literatura tenha sido um tema muito secundário. De qualquer maneira, vale a pena ler a entrevista a Alice Vieira (por Bárbara Wong) e sobretudo ao escritor Marcello Duarte Mathias (que Isabel Lucas entrevista sobretudo por ser ex-embaixador; para mim, é quase como pensar em Eça de Queirós como cônsul e não enquanto escritor). A propósito de literatura, no Público de hoje, dia 2, publica-se uma entrevista com Sousa Lara, responsável pela censura do Estado Português (sendo primeiro-ministro Cavaco Silva1) à participação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, a um prémio literário internacional. Mais de vinte anos depois, o responsável (professor catedrático, claro está) entende que fez bem e afirma (talvez sem ter lido o livro, convenhamos): «Um livro que insulta a divindade, que é o que o livro faz num país que, mal ou bem, tem como referência a Bíblia, é um insulto à cultura portuguesa». A proposta de Saramago, muito superior à filosofia corrente e cujo debate não cabe neste espaço (Aristóteles ainda não entrou), é um desafio à religião estabelecida, mas não nega os seus fundamentos e muito menos a divindade de Jesus, embora coloque ao seu lado tanto Deus como o Diabo.

Hoje, o Expresso traz uma entrevista ao coordenador da programação cultural da Feira do Livro do Porto (começou ontem e termina dia 17) e que pretende «explor[ar] as várias dimensões da palavra». Sophia de Mello Breyner Andresen é a autora homenageada. Na «E», Diogo Ramada Curto escreve sobre o Neo-Realismo e Pedro Mexia faz a recensão do livro de ensaios de Helder Macedo sobre Camões e outros contemporâneos (com ensaios sobre diversas épocas da nossa literatura).

1 Os nomes devem ser ditos para que a memória não os esqueça.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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