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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

26
Dez17

Os textos por escrever

Ricardo Nobre

Os primeiros meses do blogue acabaram por ser tempos de textos não escritos. Não me interessa comentar os «casos» da «actualidade», como se toda a vida tivesse reflectido sobre questões sérias como o despovoamento do interior ou acerca dos meios de combate aos incêndios. Vimos tantas pessoas que pensam que o leite vem do pacote e que a esparguete da embalagem a comentar sobre a agricultura que eu não quis ser mais uma voz aos gritos, indignada com aquilo que não poderei mudar. Também não falei da Dra. da Raríssimas, porque não lhe dei importância nenhuma, como não tem importância toda a criatura que quer ser tratada por doutora.

Nesta altura, estão todos a fazer balanços e revistas do ano. Mas a minha memória não me dá para me lembrar de nada com menos de cinquenta anos. Por isso, o balanço do ano civil que agora termina é impossível para mim de fazer. Recorro ao «Ípsilon», suplemento do Público de 22 de Dezembro, para voltar a fazer contas: dos melhores livros de ficção de 2017, três são portugueses (2.º, António Lobo Antunes; 5.º, Rui Nunes; 8.º, Alexandre Andrade). A selecção é dos críticos do jornal: Helena Vasconcelos, Hugo Pinto Santos, Isabel Lucas, José Riço Direitinho.

Na poesia, acontece o fenómeno de apenas terem sido seleccionadas obras portuguesas. Em primeiro lugar estão os Últimos Poemas de José Miguel Silva, mas o destaque poderia ser de outros títulos. O melhor da lista é a inclusão de «jovens autores». É ainda uma lista que permite fazer a brincadeira: ainda bem que não inclui o nome de Maria Teresa Horta (a escolha é de António Guerreiro e Hugo Pinto Santos), não recusasse ela a posição que lhe é atribuída. Na não-ficção, sente-se novamente a estranheza de, em dez, seis serem livros de autores portugueses.

No balanço do ano de 2017, o Público esqueceu-se da marginalização com que, durante o ano, mimoseou a literatura portuguesa.

Independentemente da nacionalidade dos autores dos livros, o balanço que este blogue faz do ano que termina é: dos trinta livros considerados melhores de 2017, cinco são da Relógio D’Água, editora à qual este blogue já tinha atribuído o acontecimento literário do ano — o lançamento da tradução de O Conde de Monte Cristo.

Se tiver de escolher o acontecimento cultualmente mais relevante em Portugal em 2017, diria a publicação da edição crítica da Fénix Renascida (Fundação Calouste Gulbenkian).

O ano termina com muitos textos por escrever, mas há mais quem escreva e há quem publique: eu estou aqui a ler.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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