Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

30
Mar18

Quantas Peregrinações há?

Ricardo Nobre

Prometo não fazer do plágio um tema frequente deste espaço, mas a complexidade do assunto exige que se fale nele novamente.

Falei aqui de apropriações na academia e no jornalismo. Desinteressa-me um pouco a história da música da festa da canção da RTP (não vi ninguém fazer uma comparação entre músicas, apenas jornalistas velhacos a remeterem os leitores para o Youtube), mas agora volta a discutir-se o plágio no uso criativo, desta vez no cinema. João Botelho, que toda a gente conhece, terá usado o livro de Deana Barroqueiro, que pouca gente conhece, para criar personagens e cenas no filme Peregrinação. Aparentemente, a produtora do filme reconhece a relação, mas o que parece estar em causa (ou pelo menos o que justifica a notícia) é a falta de menções de Botelho ao contributo de Deana Barroqueiro para a sua obra, visto que a escritora aparecer nos agradecimentos do filme não é crédito suficiente.

Na verdade, a notícia tem um título enganador: Botelho não adaptou (nem «terá adaptado») o romance de Barroqueiro. Poderá ter usado cenas e personagens retirados do romance (a autora diz que o romance tem bibliografia, por isso dá ideia de ser daqueles livros que, sendo ficção, reclamam ser história, algo que o patrono deste espaço reprovaria e que o seu mestre repudiaria). A produtora do filme diz que não conseguiu contactar a autora do livro, mas que, apesar disso, usou a obra à mesma, ou seja, sem autorização. Já tinha ouvido críticas ao filme por ser pouco fiel à verdadeira Peregrinação e por dizerem f em vez de ss porque alguém viu o ſ (é um s longo) na tipografia do tempo e tomou-o por um f, pensando que não existiam ss no tempo de Fernão Mendes Pinto (ou quando o livro foi publicado, décadas depois da morte daquele).

Sem ter visto o filme nem ter lido o livro, importa repetir novamente e sempre: o uso indevido (por não ter sito citado ou por a dívida não ter sido reconhecida) da obra de outra pessoa, quer científica, quer artística, é plágio. No entanto, João Botelho não publicou um livro com parágrafos escritos por Barroqueiro. Criou uma obra cinematográfica, usando personagens de um livro. Aliás, o suporte não é o mais importante aqui: há o caso de um Diego Velázquez e de um Pablo Picasso, como há um Hércules de Eurípides, outro de Séneca e outro da Disney. Também há um Camões original e um Camões de Almeida Garrett ou de Arnaldo Gama. Há um poeta Bulhão Pato e há um Tomás de Alencar personagem d'Os Maias (que aparece no filme de João Botelho a fazer o contrário do que faz no livro…). Para Isabel Coutinho e Lucinda Canelas falar no caso Botelho-Barroqueiro não é suficiente — e não é por Botelho não ter falado sobre o assunto: é porque as jornalistas, que são pessoas com muitas leituras e dos poucos motivos por que ainda assino o Público, não fizeram elas próprias o confronto do livro com o filme. A descrição das cenas do livro e do filme e a sua comparação seriam suficientes para sabermos se Botelho se inspirou criativa e livremente ou se plagiou.

28
Mar18

Falta o respeito por pessoas com mobilidade reduzida

Ricardo Nobre

Recebemos ontem a notícia de que alguns monumentos nacionais vão ter obras para garantir o acesso a pessoas com mobilidade reduzida, enquanto a cidade continua a ser um campo de batalha para quem usa cadeira de rodas. Pessoas com mobilidade reduzida são cidadãos que não conseguem andar com a ligeireza normal, quer por motivos de saúde, quer pela idade, quer por estarem grávidas.
Há alguns meses, tínhamos recebido a notícia de que o estacionamento indevido em lugares reservados a deficientes iria retirar dois pontos na carta de condução.
Também desta legislatura é a obrigatoriedade do atendimento prioritário, em restaurantes ou supermercados, de pessoas com mobilidade reduzida. Os supermercados deixaram de ter uma caixa para em todas se poder atender prioritariamente estas pessoas.
O estado, afinal, funciona.

Infelizmente, a prepotência de alguns agentes deste mesmo estado corta os direitos que a sociedade civilizada lhes reconhece. Mais infelizmente, o exemplo escolhido para ilustrar este atropelo civilizacional é uma casa de cultura, apesar de não ser gerido por uma pessoa com relevância cultural (o peso da directora é outro: é uma especialista em biblioteconomia, com doutoramento feito no estrangeiro).

Há anos, dos lugares reservados a deficientes, junto à entrada principal da Biblioteca Nacional, em Lisboa, um estava ordinariamente ocupado por uma chefia (que também gere a utilização das instalações sanitárias, porque proibiu um funcionário de usar as dos deficientes; a ironia não ficará por aqui). Coincidentemente, usava um lugar de estacionamento que tapava o acesso directo à boca de incêndio mais próxima. Nos filmes americanos, além de proibido, é uma prática condenada pelos cidadãos comuns. Depois da legislação dos pontos, a mesma funcionária deixou de usar esses lugares para estacionar o carro.

FFD8255A-3047-4668-875C-AD6B232FA4FF.jpegComo a biblioteca não tem orçamento para a aquisição de livros nem para o restauro de obras antigas, com o descongelamento financeiro, adquiriu-se agora um carrinho amigo do ambiente. Juntando a outro, anterior a 2000, e ao seu próprio, a direcção da Biblioteca Nacional pode agora andar em três carros. (Se o estado fosse mesmo amigo do ambiente, dava-lhe um Navegante, e tinha todos os autocarros da Carris à disposição, por isso ainda é uma limitação.)
Nos locais de estacionamento da direcção, cabem ainda os corpos da Direcção-Geral das Artes (a funcionar no mesmo edifício) e duas carrinhas de serviço, normalmente paradas. Ou seja, o carrinho novo não tem espaço, e por isso ocupa o lugar dos deficientes, que partilha com motas e bicicletas, além de outros mais afoitos (durante um tempo documentei essa prática e tenho uma colecção guardada). A fotografia que ilustra este texto foi tirada esta tarde, em pleno horário de expediente da Biblioteca. Mas podia ter sido tirada no sábado ou na segunda, pois é lá que ele agora está. Se alguém estacionasse no lugar da directora (como chega ao serviço já a manhã está a terminar, quem chega cedo podia tentar), lá vai o segurança mandar tirar o carro.
Pelos vistos as ordens não chegam a situações mais escandalosas do que ter uma directora de serviços ter de andar cem metros para chegar ao gabinete.
Junte-se a esta normalidade o facto de, há meses, o elevador do átrio principal da Biblioteca ter deixado de funcionar. Os deficientes deixaram de ter acesso às salas de leitura (porque o átrio tem umas escadas) e aparentemente não há prioridade em solucionar o problema. Acho que foi depois disto que chegou a cadeira de rodas que os edifícios públicos precisam de ter. A ironia, na verdade, não encolhe os ombros, como também espero que o ministro não faça a este respeito. As leis são para cumprir. Por todos.

26
Mar18

Já era tempo de perceber

Ricardo Nobre

Finalmente comecei a perceber que na vida é preciso lutar por ideais e defendê-los porque, apesar de nos terem sido oferecidos, nada garante que sejam eternos. Mesmo os valores que pensávamos seguros, como a liberdade e a democracia, parecem erudir-se nas páginas dos jornais, cheias de sintomas de regressão das democracias, incluindo na União Europeia (edificada contra a vontade dos povos) e nos Estados Unidos da América. A culpa não pode ser apenas do Facebook, dos mecanismos protectores pós-11 de Setembro, da tensão religiosa ou do medo dos refugiados. Alguma coisa falhou nas democracias ocidentais: terem sido construídas à sombra do capitalismo, baseadas em consumismo e egoísmo, que lhes substituíram os valores da tolerância, liberdade e conhecimento?

Quando faço o enorme esforço de olhar para a minha biografia profissional, percebo que passei grande parte do tempo a responder a questões como «isso serve para quê?». Talvez seja altura de responder: para defender valores democráticos e a liberdade. Se os perdermos agora, a pretexto de segurança e protecção, como na Antiguidade romana, depois de décadas de guerras civis, cairemos numa tirania, sem darmos conta. E Tácito poderá voltar a perguntar, depois de alguns enriquecerem com a nova ordem política, preferindo a tranquilidade do presente aos perigos do passado: quantos restam dos que conheceram a liberdade?

24
Mar18

Engenheiros e Patos-Bravos

Ricardo Nobre

A Arquitecta Helena Roseta, igualmente autarca de Lisboa, defendeu uma posição de classe nas páginas do Público esta semana a propósito da lei que concede aos engenheiros a possibilidade de assinar projectos de arquitectura. Roseta carrega no tom das críticas, concluindo que a lei foi feita por uns engravatados burocratas que não percebem nada do assunto sobre o qual legislaram.

Eu diria que o pato-bravismo1 não decorre da acção de engenheiros, mas da acção dos nossos parlamentares, pois o que a Arquitecta Roseta traz a público é uma questão em que penso desde o Acordo Ortográfico: os deputados da Assembleia da República são, na maioria, formados em direito, por vezes sabe Minerva em que Atenas, escrevem muito mal (como se vê de cada vez que alguém desenterra textos escritos pelo seu punho, ou, como aparentemente outros, pagam para que escrevam as teses em seu nome) e, no entanto, impuseram a milhões de pessoas uma forma de escrever cheia de problemas, lacunas e erros. Cheguei ao ponto de ver que, de todas as pessoas a quem se paga o salário para legislar em Portugal, apenas o Partido Comunista e dois deputados do CDS-PP me representam. Os outros acham que escrever mal é que está bem.

O meu problema com o Acordo Ortográfico começa a ser este: a imposição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, da Imprensa da Universidade de Coimbra ou das universidades que obrigam que se use essa norma nas teses e dissertações. A aflição aumenta quando alguns dos responsáveis pelas editoras ou universidades encolhem os ombrinhos e lamentam porque também são contra a grafia. Até o Poeta Ministro da Cultura o faz. Que pensaria disto Almeida Garrett, que fazia saber sobre os seus escritos «antes m’o reprovem do que me alterem as palavras, virgulação ou orthographia»?

Se os deputados substituem arquitectos por engenheiros (mais ou menos como substituir médicos por enfermeiros), estudos científicos por negócios obscuros, democracia por imposição, então mais vale substituir todo o saber pela ignorância. Em 1828, Garrett escrevia que «cabedal de letras» «é a mais ruim fazenda que neste país se pode ter». 190 anos depois, as malaquices do acordo ortográfico comprovam que nada mudou.

1 Pato-bravo é uma expressão que me lembra sempre José Cardoso Pires. Deve ser por estar na altura de podermos caçar na lagoa.

22
Mar18

Já que falamos em plágio… falemos de plágio no jornalismo

Ricardo Nobre

Enquanto leitor de informação «tradicional», estou um pouco cansado do discurso da falta de meios (dinheiro, portanto) para um jornalismo de investigação e reportagens (bem-vindos à realidade de todos os dias da maioria da população fora do Parlamento). Já não há correspondentes no estrangeiro e nem a informação do fundo do quintal é bem dada. Entedia-me que os jornais portugueses valorizem apenas o que se valoriza noutros países (incluindo o sucesso de portugueses) e que, em terreno nacional, sejam tão monotemáticos e que falem apenas dos seus favoritos (era preciso esclarecer qual é o fétiche do Público com o artista Vhils: é casado com alguma jornalista? é sobrinho de alguém da administração?), ignorando (por desinteresse ou desconhecimento) outros. Não defendendo uma promoção aleatória e muito menos propaganda dissimulada, seria preciso definir critérios que levam os assuntos às páginas dos jornais: relevância e diversidade cultural.

A falta de recursos dos jornais faz com que os jornalistas e estagiários das redacções passem o dia na internet à procura de notícias (daí a importância que os Facebooks têm nas notícias). Há coisas inacreditáveis que vêm parar aos sites de notícias (o da TSF é bem significativo disso) e há falta de pudor na transcrição de notícias que são de outros. Estamos novamente no domínio do elementar plágio.

Usar frases de outros sem aspas, sinal que marca graficamente que o que está escrito não é da nossa autoria, é plágio. Dizer «como diz o António Silva» não é suficiente para não ser plágio. É preciso não assinar um texto quando este é, afinal, tradução de outro (e dizer muito claramente quando é). Ora, essa apropriação de material informativo alheio é muito frequente nos jornais portugueses. É comum acontecer com notícias da Agência Lusa, mas também com imprensa estrangeira, como agora se exemplificará.

O site é do Público1 e o texto, publicado hoje, tem uma autora, Filipa Almeida Mendes, que é, na verdade, tradutora de um texto (publicado ontem) de Adam Gabbatt, nome não citado. Aliás, o jornal onde Gabbatt escreve apenas é mencionado uma vez, a propósito de umas «declarações». Hugo Daniel Sousa editou o texto, por isso é cúmplice do plágio, dissimulado pela tendência actual de inserir hipertextos como nós, não jornalistas, fazemos nos blogues.

1. No início, não há nada de aberrante. É o débito de uma informação.

Adam Gabbatt: «Smoking while walking would be banned in New York City if a new bill is passed into law.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Foi apresentado nesta quarta-feira, em Nova Iorque, um projecto de lei que pretende proibir as pessoas de fumarem enquanto andam nas ruas.»

2. A proximidade à fonte não identificada vai-se tornando evidente não apenas na estrutura do texto («nesta quarta-feira» vem na frase seguinte do Guardian) ou dos nomes citados (não consta que o Público tenha ido a Nova Iorque ou que os jornalistas tenham lido a proposta legislativa): começa a tradução.

Adam Gabbatt: «Councilman Peter Koo is introducing the legislation on Wednesday, in what he says is an attempt to keep secondhand smoke away from pedestrians.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «A legislação, proposta por Peter Koo, membro do Conselho da Cidade de Nova Iorque, quer evitar que os peões sejam expostos ao fumo do cigarro de terceiros.»

3. Agora é só traduzir, juntando mais palavras (estratégia permitida pela prolixidade do português e da escrita jornalística, como aquele «aprovada e implementada») ou até com o câmbio, não vamos nós ser apanhados a desrespeitar a lei em Nova Iorque e autuados. Houve uma mudança da posição da frase sobre fumar-se estando parado.

Adam Gabbatt: «If the bill is passed into law people would be fined $50 if they were caught walking and smoking on city streets. Smoking is already banned in many public spaces in New York City.»; «Under the bill, smokers would still be free to light up on public streets, as long as they remained stationary while doing so.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Caso a lei seja aprovada e implementada, os fumadores podem estar sujeitos ao pagamento de multas de 50 dólares (cerca de 40,65 euros ao câmbio actual), a mesma quantia da multa por fumar em parques, empresas e espaços públicos interiores. No entanto, os fumadores poderiam continuar a acender o cigarro na rua, desde que se mantenham parados enquanto fumam.»

4. Houve uma mexida na ordem dos parágrafos, mas a tradução mantém-se inabalável. Quando não há vergonha, até se cita a fonte do texto de onde se copia, para parecer que a informação foi toda recolhida por Filipa Almeida Mendes (também faz hiperligação porque Gabbatt incluiu uma no seu texto).

Adam Gabbatt: «“In a perfect world, every smoker would have the self-awareness to realize smoking while walking subjects everyone behind you to the fumes,” Koo told the New York Daily News. “It has happened to me many times — I’m walking behind someone who’s smoking, and I’m suffering for five or 10 minutes,” Koo said. “I see mothers with their strollers walking behind people who smoke, and they’re exposing the baby to second-hand smoke.”»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Peter Koo afirma que, “num mundo perfeito, todos os fumadores teriam consciência para perceberem que fumar enquanto caminham expõe toda a gente à sua volta ao fumo”, cita o jornal norte-americano New York Daily News. O membro do Conselho Municipal acrescentou que foram várias as vezes que sofreu “durante cinco ou dez minutos” quando caminhava atrás de algum fumador e deu ainda o exemplo das mães que passeiam os carrinhos de bebé na rua e que acabam por expor o bebé ao fumo do cigarro.»

5. Foram ouvir o «Former mayor» ou, em bom português, «ex-autarca de Nova Iorque» (podia dar-se o caso de se ter mudado o contexto e estarem a falar de um simpático ex-autarca de Freixo de Espada à Cinta).

Adam Gabbatt: «Former mayor Michael Bloomberg, a passionate anti-smoking advocate, banned smoking in public parks and beaches in 2011. The city prohibited smoking in bars and restaurants in 2003.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Michael Bloomberg, ex-autarca de Nova Iorque e grande defensor do antitabagismo, tinha já proibido, em 2011, fumar em parques públicos e nas praias, segundo o New York Times, enquanto a lei que proíbe fumar em bares e restaurantes tinha já sido aplicada anteriormente.

6. Falta saber a opinião do actual presidente da câmara (ou melhor, mayor: apesar de se poder falar de Bloomberg como «autarca», como Isaltino Morais, De Blasio não pode ser como Fernando Medina). Verifica-se aqui única atribuição de autoria, insuficiente para deixar claro que o Público traduziu todo o texto do jornal britânico.

Adam Gabbatt: «In 2017 Mayor Bill De Blasio signed a number of anti-smoking measures into law in a bid to reduce “smoking prevalence”. The measures included banning the sale of cigarettes at pharmacies and raising the minimum price for all tobacco products.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Em 2017, o actual mayor de Nova Iorque, Bill De Blasio, aprovou uma série de medidas antitabaco com o objectivo de reduzir a “prevalência do tabagismo”, cita o jornal britânico The  Guardian — nomeadamente, a proibição da venda de cigarros em farmácias e o aumento do preço mínimo para todos os produtos tabágicos.»

O texto do jornal português é mais longo, pois, a seguir a estes parágrafos, junta informações (igualmente plagiadas) sobre legislação sobre o mesmo tema noutros países, incluindo Portugal.

Talvez da próxima vez que o Público quiser debater o futuro do jornalismo possa convidar Adam Gabbatt, Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa para uma mesa-redonda em que o autor conhece os tradutores.

O Guardian também luta pela viabilidade do projecto do jornal, seguindo a política de não impor restrições de acesso à informação. Solicita-nos, porém, donativos para que continue o seu trabalho. Noutro contexto, seria algo que eu faria. No entanto, pago assinatura do Público. Espero, por isso, que parte do salário da redacção do Público seja para donativos ao Guardian.

1 O exemplo utilizado é retirado do Público porque é o jornal que leio por assinatura. Não tenho nada contra a pessoa que o fez nem a conheço (nem ao seu editor, claro). Não tenho nem quero ter a sua profissão, e a ocupação do lugar na redacção do Público não me afecta directa nem indirectamente.

20
Mar18

Facebook

Ricardo Nobre

Como não tenho Facebook, muitos amigos tratam-me como uma espécie do século passado (na verdade, o mundo mudou muito depressa para a atenção que lhe dava). Com condescendência colectiva, vou recebendo algumas coisas que por lá se passam. Quase invariavelmente, com a explicação «como não tens Facebook…». Está agora na altura de responder: como vocês têm Facebook…

15
Mar18

Plágio é roubo

Ricardo Nobre

No dicionário da Porto Editora, a definição é muito clara: «apresentação que alguém faz de obra ou de trecho de obra (literária, científica, musical, artística, etc.) da autoria de outrem como sendo de sua própria autoria». Também a etimologia é muito significativa: em latim, plagium significa «roubo». Foram recentemente notícia a possibilidade de cantores de música ligeira portuguesa terem plagiado canções de outros artistas (sobretudo Tony Carreira, já que a música que Diogo Piçarra levou ao Festival da Canção era apenas, provavelmente, uma antologia de lugares-comuns1).

Entra ainda na categoria do «plágio» a utilização de uma obra ou parte dela numa outra, mesmo que seja do próprio autor: é o autoplágio. Ficou famosa a investigação de João Pedro George que deixou provado que a escritora Margarida Rebelo Pinto se copia a si própria. No entanto, há casos muito mais graves, também relacionados com (uma vez mais) graus académicos ou currículos universitários. É disso que trata o texto de Patrícia Araújo no Público de ontem.

A autora conta a sua experiência de se ver plagiada, enquadrando a prática em notícias que têm sido divulgadas pelos meios de comunicação. O texto é uma chamada de atenção sobre um tema tão sensível quanto frequente: não deve haver professor de qualquer nível de ensino que não encontrou trabalhos plagiados ou copiados da internet, o que me leva a pensar que é quase uma questão cultural (há alunos para quem fazer copy-paste é o «trabalho»; alguns, mais sofisticados, ainda usam as ferramentas do Word para substituir algumas palavras por sinónimos). Por isso, compreenda-se que o plagiador nem sempre age de má-fé. É apenas ingénuo, mas só é até ao momento da entrega da tese. Na universidade onde me formei, os candidatos a mestres e doutores (com doutoramento) entregam nos serviços académicos uma declaração, sob compromisso de honra, a dizer que o trabalho é original.

Patrícia Araújo mostra (com razão) a sua frustração, mas não fala em casos de graus académicos cancelados. Conheço, porém, exemplos de mestres que voltaram a ser licenciados porque a universidade deu como provada a prática de plágio. Aliás, a disponibilização (obrigatória) das teses em repositórios facilita o plágio, mas também torna muito mais fácil a sua detecção.

Uma tese de doutoramento em que se encontre a prática de plágio é recusada por uma universidade e o candidato não pode voltar a submetê-la à mesma instituição. Por isso, também conheço pessoas a quem isso aconteceu: foi entregar a tese noutra universidade e já tem o grau.

Há ainda autoplágios académicos. Se ninguém leva a mal a reutilização de uma parte de um artigo num outro (aquilo a que na gíria se chama «refrito», que é uma lamentável forma de aumentar o currículo com imensa produção científica que é apenas repetição do mesmo), também já encontrei uma tese de mestrado apresentada numa universidade que foi reutilizada como tese de doutoramento (tinha apenas um capítulo a mais) noutra universidade: até as palavras de agradecimento ao orientador eram as mesmas, apesar de serem pessoas muito (mas mesmo muito) diferentes.

Que fazer para que as práticas de plágio não permaneçam impunes? Talvez seja preciso criar um movimento de denúncia como tem acontecido com o assédio sexual. Ambos configuram a prática de meter a mão naquilo que não lhes pertence.

1 Se houver paciência para isso, veja-se este videozinho.

14
Mar18

A expansão do Metro e o estado da rede ferroviária

Ricardo Nobre

defendi neste espaço que, para tomar decisões respeitantes aos transportes, seria importante ouvir a parte mais interessada, os passageiros. Quando se lêem os planos de «expansão» do Metropolitano de Lisboa, não se pode deixar de pensar como é possível que os gestores de uma empresa — que não consegue ter as escadas rolantes da estação do Rato a funcionar (ver imagem e lembrar que está assim há anos) ou cujas estações que servem os dois principais hospitais de Lisboa (Santa Maria e São José são servidos pelas estações da Cidade Universitária, amarela, e Martim Moniz, verde) não tem acesso a pessoas de mobilidade reduzida —, com o apoio dos políticos (que não se podem deixar representar por Renaults Clios), decidam gastar o dinheiro dos contribuintes não a fazer uma expansão, mas a criar a ilusão de que o metro funcionaria melhor se fosse uma linha contínua e circular. Se for circular, não é preciso esperar dez minutos pelo próximo comboio, mas sobram dúvidas: sem ser os turistas, quem vai precisar de uma linha circular? Quem vem de fora da cidade. Quem vem de fora? Quem precisa de fazer dois ou três transbordos. Qual a dificuldade de fazer circular comboios com destinos alternados? Entre o Cais do Sodré e Odivelas, ou entre o Rato e Telheiras? Na CP, acontece a mesma coisa. Porque não haverá comboios do Rossio para Sintra e para a Azambuja em vez de irem apenas para Mira-Sintra? Porque não há comboios entre a Azambuja e Sintra? Ou Alcântara-Terra e Sintra? Alternadamente, de acordo com horários que não sejam apenas adequados aos trabalhadores da CP e da Infra-estruturas de Portugal, mas a todos os que pagam uma assinatura mensal para usar transportes sujos, barulhentos e atrasados?

Rato.jpg

Não me quero lembrar da frequência com que as linhas do metro estão com «perturbações» para não dizer que toda a estrutura circular irá colapsar quando um comboio se avarie, haja algum «incidente com passageiros» ou problemas na sinalização. Se houvesse um responsável pelo controlo de tráfego em todas as estações, quando a sinalização automática deixa de funcionar, haveria o telefone a controlar as saídas (o mesmo para os comboios, até porque em Lisboa há estações em que continua a ir o responsável dar o sinal de partida por não haver semáforos). Não há pessoal, e o que há está a ver utilizadores informais a saltar as cancelas (o metro funciona melhor com as cancelas? quanto custa a sua manutenção e porque não se volta ao sistema antigo, em vigor, aliás, no Porto?).

A definição de prioridades na gestão dos transportes deixa-me sempre surpreendido: a Infra-estruturas de Portugal fez um elevador num pilar da Ponte 25 de Abril, e há dias soube-se que a ponte propriamente dita apresenta fissuras que é urgente reparar. A rede ferroviária, diz o Público, está degradada e obsoleta (incluindo carris, sinalização e catenárias, onde existem). A linha de Cascais é uma vergonha nacional. Ainda assim, os trabalhadores das Infra-estruturas de Portugal decidiram que têm motivos para fazer greve. É um dos curiosos casos em que quem devia fazer greve para eles desaparecerem éramos nós, utentes das auto-estradas ou da rede ferroviária (é tão bonito o edifício de Braço de Prata, mas não sei se não preferiria que o dinheiro fosse gasto numa solução para a estação de Alcântara-Mar, onde funciona uma cloaca).

Porque é que as prioridades na gestão da rede do metro não implica que ele chegue a Campolide e Campo de Ourique, onde há aglomerados populacionais com um péssimo serviço de transportes públicos? (A estação da CP de Campolide é no meio do nada.) Não sou favorável a que haja metro em Alcântara porque a prioridade em Alcântara deveria ser a ligação (ferroviária) entre a linha de Cascais e a de Cintura (ligações com Azambuja, Sintra e Setúbal, passando nas estações de Sete Rios [ligação com a Rede Expressos e linha azul do metro], Entrecampos [com a linha amarela], Roma-Areeiro [linha verde], Oriente [linha vermelha]). Depois é preciso garantir que a modernização da linha de Cascais inclua a possibilidade de haver comboios para Alcântara-Terra (ou para o Oriente). A linha está lá, mas atravessa ruas e avenidas (actualmente é apenas usada por mercadorias para e do Porto de Lisboa). Que solução têm os «engenheiros» para isso? Falou-se em fazer uma estação subterrânea em Alcântara-Terra, mas será necessário gastar todo esse dinheiro quando a actual está subaproveitada e tem espaço mais do que suficiente para linhas e plataformas para mais comboios e mais passageiros (a ligação com a Carris e os TST também existe)?

06
Mar18

Pensar no presente é pensar no futuro

Ricardo Nobre

Todos temos o impulso de tentar prever o futuro: o mundo que não acabou no ano 2000 também não cedeu lugar à vida dos humanos em Marte, os nossos veículos continuam sem voar e o teletransporte ou a viagem no tempo continuam sem startups (acho eu, que ainda estou à espera de um telefone de bolso que carregue a bateria por elergia solar). Eu próprio elenquei uma lista de significativas livrarias que, mais ou menos, nos últimos dez anos têm fechado (não falei nas que abriram nem no comércio livreiro online, por exemplo), mas a verdade é que o futuro não aconteceu e ninguém pode impedir que aconteça. Saber como vai ser é impossível. É por isso que se fazem previsões que muitas vezes falham.
Isto porque no domingo o Público trazia um texto de Alexandra Prado Coelho sobre o futuro dos jornais impressos e números de vendas a cair. Não se trata da substituição do jornal em folha por nada: nunca houve tanta gente a saber ler em Portugal (embora haja quem tenha saudades do tempo em que o poder da literacia era monopolizado por alguns «doutores»), e toda a gente reconhece que os portugueses adoram consumir informação: além do acesso electrónico pelos sites ou redes sociais, há uma rádio de notícias (TSF) e mais duas (Antena 1 e Renascença) que passam informação de hora a hora (não falo de rádios locais); há quatro canais de notícias a transmitir vinte e quatro horas por dia (a ver se os sei de cor: RTP3, SIC Notícias, TVI24 e CMTV) e, em três generalistas, o principal bloco noticioso do dia dura mais de hora e meia (por vezes duas). Todos os dias.
A questão do debate centra-se no suporte, mas, a meu ver, encontra-se no imediato: quem lê o jornal em papel tem de esperar até ao dia seguinte para saber as notícias; quem lê notificações no telefone de bolso sabe que um intercidades descarrilou entre Santa Comba Dão e Mortágua minutos depois do sucedido. Por isso, no texto de Prado Coelho, muitos testemunhos reclamam uma diferenciação entre o digital e o analógico.
Não faltam também justificações para que os gráficos na venda dos jornais apontem sempre no sentido descendente (curiosamente, o Público, considerado jornal de referência, mantém resultados positivos). Mas é impossível não perceber que, tal como aconteceu com a TSF durante muitos anos, um jornal vale mais quanto maiores são a sua originalidade, o rigor e até a imaginação; em suma, a qualidade. Acabei de escrever que temos quatro canais de informação todo o dia: falta dizer que estão todos a dizer a mesma coisa, às mesmas horas. A repetição de conteúdos (nacionais e estrangeiros) deixa-me deslumbrado: então só um chegava porque nem pluralidade nos comentadores existe. O mesmo para o jornal (e a sua excessiva dependência das versões da Agência Lusa). Julgo que o Expresso mostra bem esse critério da originalidade e capacidade de dar notícias que não vêm nos outros meios de comunicação: durante o fim-de-semana, as notícias repetem o que vem neste jornal. Por outro lado, exemplos como o Expresso Diário, online e pago (mas disponível para quem compra o semanário), e o Observador, online e gratuito, mostram que a questão também não é só o acesso livre.

Este assunto interessa-me ainda por outro motivo: porque a leitura que se faz dos números dos jornais não é diferente do que acontece com a edição de livros. Excluindo os sites de partilha gratuita e ilegal de livros, existem livros convertidos em formatos electrónicos. Se na Wook a diferença entre um livro de duzentas páginas e um ficheiro que se descarrega para um aparelho é um ou dois euros (esgotando o argumentário de editores sobre o custo de produção do livro, que se fica apenas pelo design), na Amazon a diferença é muito significativa. O problema é que, olhando a classificação dos leitores compradores, há milhares de livros com uma classificação mais baixa porque as versões Kindle são, no geral, más (por vezes, enganadoras). Vale recordar que uma versão electrónica de um livro não é uma digitalização em pdf.
Pessoalmente, considero que a grande vantagem dos e-books (e da leitura online, no geral) é o facto de uma maquininha iPad, Kindle ou aparentada poder conter milhares de livros, que não ocupam espaço físico dentro de casa. Mas a tecnologia de Gutenberg e o engenhoso formato adequado às mãos de uma pessoa adulta, que folheia um papel amigo do ambiente, permanecem inultrapassados. Poderia dizer, com Umberto Eco, que ao livro nunca falta a bateria, mas poderia obter como resposta que para ler no iPad não é preciso ter a luz acesa…

04
Mar18

Transformar o A em Λ

Ricardo Nobre

Não é possível deixar de reparar que a letra latina A foi sendo transformada na letra grega Λ (lambda) pelos engenhos da propaganda…

… começando na Câmara Municipal de Medina…

2017-06-09 09.42.31.jpg

 … continuando na Feira do Livro…

2017-06-05 18.54.50.jpg

 … mesmo na comparação entre o atentado à saúde pública da antiga Feira Popular com Paris…

2018-02-26 09.42.07.jpg

… claro que o Festival da Canção, já assombrado pelo plágio, o pratica no letreiro principal…

Captura de ecrã 2018-03-04, às 10.58.11.png

… os melhores advogados modernos também gostam dos lambdas (será aquele P um ró?)…

2017-06-05 19.03.17.jpg

 … até nos escritos murais…

2017-06-09 09.44.41.jpg

 … saindo da moda, estes transformam o A em delta (Δ):

2017-06-08 20.41.24.jpg

 A tendência A>Λ não é assim tão recente, se repararmos que, na Faculdade de Letras (1958), o letreiro das musas, além do Λ a fazer de A, tem o s (é o valor do Σ, sigma) a fingir de E…

FLUL.jpg

Pág. 1/2

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

classificados

Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.