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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

20
Jun18

Não há direitos dos animais

Ricardo Nobre

Nem sei bem porquê, têm sido publicadas muitas notícias sobre o que no discurso público se convencionou chamar «direitos dos animais». Por exemplo:

1. A senhora que diz que os pombos não fazem mal nenhum e que por isso o dinheiro público deve ser gasto a criar sistemas para impedir a degradação de monumentos (que não precisam de pombos para ser destruídos, como evidenciam os casos da destruição da estátua de D. Sebastião na estação de caminho-de-ferro do Rossio, a danificação da estátua de D. Afonso Henriques, em Guimarães, o arrancar da estátua do cauteleiro na Praça dos Aliados ou a danificação da estátua de D. José, no Terreiro do Paço), e não no abate dessas aves. Talvez uma visita à estação de caminho-de-ferro de Entrecampos ajude a perceber quando é que a acumulação de excrementos de pombos transforma uma estrutura pública numa coisa semelhante a uma pocilga ou a um estábulo antes de entrar Hércules.

2. A declaração de «concelho antitourada» na Póvoa de Varzim.

3. A sondagem que mostra que os lisboetas não querem touradas na Praça de Touros do Campo Pequeno (encimado com um cartaz do P.A.N. na Praça do Marquês de Pombal, também em Lisboa, onde se lê que «Tortura não é cultura»).

No entanto, também se publicam notícias sobre decisões de tribunais acerca do barulho provocado por cães que exigem responsabilidade aos donos pelo ruído causado aos vizinhos, além de se prever, na lei portuguesa, a aplicação de coimas a quem não apanha os excrementos dos seus animais na via pública ou na praia (Miguel Esteves Cardoso deu um exemplo desta falta de civismo). Não há memória, ainda assim, que alguém tenha sido obrigado a pagar 750 € por não ter apanhado o dejecto do canídeo (e não consta que a cavalaria da G.N.R. algum dia tenha apanhado os excrementos que os cavalos iam deixando na Cidade Universitária, em Lisboa).

Estou a falar, portanto, de questões muito diversas: maus-tratos (ou, no discurso P.A.N., «tortura»), questões de higiene pública e de boa vizinhança. Tudo isto dentro dos «direitos dos animais», que não existem: os animais não têm direitos porque não têm deveres, e a cidade (do ponto de vista urbano e político) não os pode castigar ou premiar. Parece-me que tudo isto tem de ser analisado do ponto de vista da civilidade e da urbanidade, pois um cão não existe sem o seu dono (mesmo que o dono o tenha abandonado: mais uma questão).

Assim, têm razão as pessoas que dizem que a culpa não é do cão, mas do dono; têm razão as pessoas que dizem que as touradas são um crime (violência pública contra uma paragem de autocarro é crime… porque não há-de ser contra um ser vivo sensível?), sobretudo porque não está em causa a nobre filosofia do «matar para comer», mas do «maltratar para desfrutar».

Se os animais tivessem direitos, não sei como seria. Eu, ser humano sensível e (quero acreditar) civilizado, tenho o direito de exigir que o passeio por onde circulo não esteja cheio de porcaria, o jardim não esconda excrementos na erva e que a violência não seja um festival público. Tanta civilização tem de fazer alguma coisa por nós. É como a pena de morte: não é que os piores criminosos não mereçam a morte; eu é que sou civilizado o suficiente para não o matar.

05
Jun18

Didacticamente correcto

Ricardo Nobre

Uma das prioridades dos homens que promoveram a Revolução de 1820 (entre a necessidade imperiosa de uma Constituição e do regresso de El-Rei D. João VI do Brasil) era uma reforma do ensino (que, a concretizar-se, teria tido muito maior alcance do que as políticas pombalinas no mesmo sector): como era preciso modernizar o país, era preciso espalhar pela economia pessoas capazes e eficientes que a potenciassem. Além disso, era a primeira vez que a política se submeteria a escrutínio alargado, por meio de eleições de deputados, representantes de um eleitorado que, nesse tempo e apesar de tudo, era reduzido (era o voto censitário, reservado a indivíduos do sexo masculino que soubessem ler e escrever, por exemplo). A «formação de eleitores» surge como um dos aspectos mais interessantes da política educativa e cultural do nosso Liberalismo.

Não se justifica agora desenvolver a questão, que se encontra em qualquer livrinho de história de Portugal no capítulo sobre o Liberalismo, mas fiz-lhe menção porque a educação no nosso país nunca cumpriu aquele objectivo, eloquentemente expresso por Almeida Garrett ou Alexandre Herculano (talvez essa filosofia se tivesse perdido algures num recanto da história ou numa gaveta do Ministério do Reino). Se, no século XIX, houve muitas dificuldades e resistências na generalização do ensino, no seguinte o estado autoritário serviu-se dele como elemento normalizador de comportamentos (que deveriam tolerar e agradecer um regime inimigo da liberdade), controlador do pensamento e da palavra.

Depois da democracia, não sei bem o que se passou, mas tornámo-nos avaros a inculcar valores, ao mesmo tempo que a história, usada e abusada para fins propagandísticos, foi sendo esvaziada até ao momento actual. Saber história, reconhecer a qualidade de um texto ou a estética de uma obra de arte é ser elitista e saber escrever é um anátema.

E assim chegámos entretanto ao politicamente correcto. A liberdade de expressão não é universal porque é controlada por algumas figuras: agora há normas que devemos seguir, coisas que não se podem fazer, há coisas que não se podem dizer («Descobrimentos») e há coisas que é preciso dizer («as senhoras e os senhores»). No fundo, o politicamente correcto manifesta-se publicamente por meio de gente cheia de certezas que se projecta muito negativamente no conjunto infindável das minhas incertezas. (Um pouco como no debate da eutanásia.)

Um exemplo apenas. Há umas semanas, um historiador (certamente muito importante no seu departamento) escrevia no Público sobre o nome do Museu dos Descobrimentos de Lisboa. Entre as piadas que contava sobre a sua vida de estudante, chamava a todos os não-historiadores de ignorantes e arrogava que as ciências sociais e humanas devem ser respeitadas. O problema das ciências sociais e humanas é, aliás, esse mesmo: quando reclamam a sua própria importância, não explicam para que servem e apenas destilam arrogância e prepotência para os não-iniciados. Não houve um único argumento sobre a desadequação prática de chamar Museu dos Descobrimentos ao museu que pretende retratar os Descobrimentos. Por muito bem que Rui Tavares escreva, ele não pode estar sozinho a defender a classe: outros historiadores que queiram participar no debate, como o engraçadinho das anedotas de estudante, devem fazê-lo com argumentos, mas sobretudo com exemplos claros e num tom didáctico, e deixar a arrogância lá nas suas salas de aula ou nas páginas dos artiguinhos que escrevem. Porque o que começa a ser assustador é perceber que, nos regimes autoritários, o discurso público é muito mais didáctico e pedagógico do que o discurso (ou o que fica dele) dos regimes democráticos.

02
Jun18

O peão é para a via pública!

Ricardo Nobre

O senhor leitor já está a pensar que o autor deste blogue se retirou depois de um acidente de viação com uma bicicleta enquanto caminhava em Lisboa. Ainda não aconteceu, mas deve faltar pouco.

A extravagância ciclista da edilidade (digo assim para parecer o Conselheiro Acácio), que sarjou a cidade (digo assim para parecer o Oliveira Martins a falar de Fontes Pereira de Melo) de pistas verdes, acompanhou o período mais terrível para os transportes públicos de Lisboa. Não só pela gradual quebra na oferta da Carris, que a propaganda Medina iludiu com umas carreiras de bairro — que eram (são?) o redesenhar de carreiras já existentes (ninguém reparou?) — e com cinco ou seis anúncios (é o mesmo anúncio, mas repetido para parecer que as coisas paradas são dinâmicas) de novos autocarros (ubi sunt?, perguntaria Baruque), mas também porque as alterações viárias realizadas no último ano e meio em Lisboa prejudicou o acesso às paragens dos autocarros*. A Carris aceitou a movimentação de paragens para o meio da estrada, a que se acede depois de atravessar outras vias. Por exemplo: do Campo Grande ao Marquês de Pombal, não se sai do autocarro para entrar no metro ou na estação de caminho-de-ferro sem precisar de atravessar estradas e ciclovias (o que cria enormes perigos porque não é raro as pessoas saírem a correr de um transporte para apanhar outro). Já foi pior: como os engenheiros da Câmara nunca perceberam que nesse eixo há autocarros articulados a funcionar (o 83 e o 36) ou que, simplesmente, pode acontecer dois autocarros chegarem em simultâneo à mesma paragem, inicialmente havia canteirinhos de jardim para quem saía do autocarro pela porta de trás ter lama ou pó (que é no que esses jardins estão transformados) para pôr os pés. Como na imagem se vê, isso continua a acontecer porque agora há espaço para um mas não para a paragem de dois autocarros articulados.

2017-11-24 16.43.59.jpg

 

Depois, existe ainda a singularidade de, em Entrecampos, ser normal ser preciso parar para não levar com uma bicicleta (elas apitam porque pensam que atrás das paragens passa a Volta a Portugal); no Campo Pequeno, se sair do autocarro a poente para atravessar a rua para nascente, o peão precisa de atravessar duas passadeiras no sentido oposto para chegar ao semáforo em frente à Praça de Touros. A alternativa é circular pela ciclovia, ouvir protestos e apitos. No Saldanha, numa praça com dimensões consideráveis, as paragens (afastadas do passeio por duas vias e uma ciclovia) não têm acesso senão por um lado. Na Avenida Fontes Pereira de Melo, é preciso atravessar a ciclovia (até têm uma passadeirazinha de bebé pintada!) para entrar ou sair do autocarro.

Resta ao munícipe, habitante e trabalhador, concluir que a Câmara surge, portanto, como agente impulsionador da mobilidade citadina por meio de bicicletas porque não há outros transportes. O impulso foi dado primeiramente pela criação de ciclovias e mais recentemente pela disponibilização cogumelar de parques de bicicletas de aluguer, da responsabilidade da EMEL (a empresa pública mais odiada da cidade agora estaciona as carrinhas nos passeios enquanto faz o que tem a fazer lá com as Giras deles). Falta, porém, formar os ciclistas: em cima da bicicleta, são um veículo e, nessa condição, circulam pela ciclovia ou pela estrada; param no semáforo; sempre que precisam de atravessar a passadeira de peões ou circular pelo passeio, têm de se apear e andar com ela pela mão. Se nada disto acontece, porque não pode o peão andar na ciclovia sem ouvir o apito da bicicleta? Pode ser que Medina crie uma empresa pública (há sempre gestores públicos a precisar de colocação) de formação de ciclistas ou (a minha opinião favorita) que disponibilize apitos para peões afastarem ciclistas (até na Feira do Livro é preciso usar). Não que os peões tenham de circular sempre na ciclovia — mais porque as bicicletas usam com mais insistência os passeios do que a estradinha verde que os nossos impostos lhes fizeram.

 

*Não repetirei agora as críticas à excentricidade governamental na maior e pior mudança da história do Metropolitano de Lisboa, ao criar uma linha circular que, aparentemente, não beneficia ninguém (os beneficiados da linha de Cascais seriam mais bem servidos com uma estação da CP a funcionar em Alcântara-Terra, que retiraria a movimentação de massas do Cais do Sodré e os distribuiria por Sete Rios, Entrecampos, Alvalade, Oriente, etc.).

 

P.S.: Este texto homenageia, assim, um senhor meio ébrio que eu costumava encontrar quando andava de 27, que um dia, precisamente no Campo Pequeno, se envolveu numa discussão com um ciclista. Foi causa suficiente para ir a altercar sozinho no autocarro sobre o lugar dos peões, na via pública, enquanto as bicicletas circulam sem regras no espaço de peões e automóveis. Ao chegar ao Saldanha já dormia o sono dos justos.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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