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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

10
Fev19

Ler para não errar

Ricardo Nobre

Façamos um exercício com uma notícia do Público de hoje (edição do Porto, p. 17), escrita pelo jornalista André Vieira:

  1. «chama à atenção para problemas nos edifícios de outra escola do concelho»: “chamar à atenção” significa “repreender”; o autor quer dizer “alertar”, por isso deve escrever “chama a atenção”.
  2. «O rol de anomalias que a EB de Matosinhos colecciona é extensa»: “rol” é um nome masculino, por isso o adjectivo “extenso” tem de estar no mesmo género.
  3. «Admite existir “alguns problemas” de exposição solar, causa para que a temperatura seja elevada nos espaços de aulas “durante todo o ano”, em particular na Primavera e no Verão, mas também no Inverno, circunstância que afirma verificar-se desde o início da sua construção»: seria tão melhor se no fim deste excerto escrevesse “desde o início da construção”, porque “sua”, pela sintaxe da frase, refere-se ao autarca citado.
  4. «esta situação em particular, uma das que mais afecta os alunos»: embora haja quem permita aqui um singular, deve escrever-se “uma das que mais afectam” (no plural porque o verbo concorda com o sujeito, “das [situações] que”).
  5. «instalação de telas protectoras nos vãos da muitas das salas»: falta de revisão, eliminar “da muitas”.
  6. «À posteriori»: faltou às aulas de latim; escreve-se “a posteriori”, porque a preposição “a” não se acentua graficamente (como nenhuma palavra latina).
  7. «Nesta operação terá sido gasto cerca de 200 mil euros»: falta de concordância; quando se refere mais do que um elemento (como são certamente 200 mil euros), o verbo vai para o plural, porque o sujeito controla a concordância verbal (“terão sido gastos”).
  8. «Nos últimos dias, garante estarem a ser realizadas obras, no sentido de colocar em todos os vidros do edifício películas protectoras para “reduzir significativamente”»: a citação perdeu o complemento directo; como o verbo “reduzir” é transitivo directo, a frase é agramatical.
  9. «Para resolver as outras situações foram contratados os “serviços necessários” à sua resolução»: frase prolixa porque dois complementos dizem a mesma coisa, o de fim “para resolver” e o indirecto “à sua resolução”. De novo problemas com o uso do possessivo “sua” (gramaticalmente, refere-se a “serviços”).
  10. «As obras, estão a ser operadas»: a vírgula não se usa entre o sujeito e o verbo; o enunciado (que na voz activa seria “[ele/alguém] opera obras”) levanta outras dúvidas, sobretudo pelo significado do verbo. As obras “fazem-se”.
  11. «Relativamente às fissuras nas paredes ou a problemas relacionados com as tomadas ou com o pavilhão, o autarca diz não estar a ser resolvido»: falta sujeito na oração infinitiva (“não estar a ser resolvido”: quem não está a ser resolvido? se se deduzir pelo contexto, é o “pavilhão” que não está a ser resolvido).
  12. «lista à que tivemos acesso»: o pronome relativo no complemento indirecto usa preposição “a”, mas não um artigo, por isso não há motivo para a contracção. Retirando o acento, regressa a preposição sozinha e a correcção gramatical: «lista a que tivemos acesso».

Para evitar este tipo de erros (doze erros gramaticais), é preciso ler muito. Mas para que os nossos alunos leiam é preciso que as escolas tenham condições.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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