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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

30
Abr19

Para esse peditório já dei

Ricardo Nobre

O Público publicou ontem no sítio uma notícia cujo título configura um exemplo bastante esclarecedor de como este jornal se vem tornando sensacionalista: um título sugere algo «picante», suscita cliques (fonte de receitas de publicidade), mas afinal é um acontecimento mais ou menos banal.

Público

Ao juntar dois elementos diferentes, a conjunção «e» insinua que uma coisa aconteceu por causa de outra. Na verdade, a retirada de aplicações da loja da Apple deve-se a questões de privacidade (com que o mesmo Público se vem preocupando, noticiando sobre a sua vulnerabilidade).

Como poderia ser dado um título objectivo e não sensacionalista? Veja-se o exemplo da BBC.

BBC

Parece a notícia de outra coisa, mas não é.

Entretanto, depois da mudança no acesso às notícias, continua a campanha de assinaturas do Público, baseada numa retórica em que referência e qualidade são prometidas. Só que, como na notícia de Karla Pequenino, o que acontece é que o jornal se especializa em manipulação de títulos, num caminho sensacionalista que nada o distingue de outros órgãos menos sérios (cujos jornalistas processam quem os manda tomar banho, dando o exemplo de como a liberdade de expressão é só para usufruto próprio).

29
Abr19

Portugal [não] é um país xenófobo

Ricardo Nobre

Parece que o presidente do país mais poderoso do mundo tem muito tempo livre para ler a (ou, no caso, ver os bonecos da) imprensa portuguesa: António, cartoonista do Expresso, é intimado pelo Presidente dos Estados Unidos da América a pedir desculpa pela publicação de um desenho em que Donald Trump passeia pela trela um cão com a cara de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Agora é acusado de anti-semitismo.

Quem não se lembra da polémica sobre um desenho do mesmo artista a retratar o papa, O Que Eu Ouvi na Barrica das Maçãs, a recolha de crónicas de Mário de Carvalho (originalmente vindas à publicidade no Público e no Jornal de Letras), faz o favor de lembrar, tal como nos recorda que não é só de hoje a preocupação dos artistas com a liberdade de expressão — mesmo que não seja lícito mandar um jornalista tomar banho (não se pode dizer que tal linguagem não seja colorida, mas os jornalistas não gostam de ironia porque são muito sérios — sobretudo os do Correio da Manhã). No entanto, o discurso de ódio pode ser alimentado pelo humor, que tem sido, aliás, uma das formas de eternizar ideias preconceituosas em relação a grupos historicamente perseguidos e oprimidos. O debate pode continuar: a liberdade de expressão não deve ter limites, mas não se pode criticar o seu uso em favor do ódio? É claro que o cartoon em causa não é um exemplo bom para isso, pois tem uma mensagem muito clara: Israel guia a política dos E.U.A., países alegorizados pelos homens do poder. O debate deve ser feito sem ter por base casos concretos.

Por falar em xenofobia, na universidade onde me formei, os alunos que estudam leis oferecem pedras para atirar aos estudantes brasileiros (tratados por «zucas»), com o pretexto de que estes, com notas mais altas, passarem à frente na admissão ao mestrado. É dos casos em que se pode dizer «Estudasse!». A reitoria anunciou processo disciplinar.

Foi um dia cheio de xenofobia. Um terceiro caso, testemunhado pelo autor destas linhas: chegando à estação terminal, os revisores da CP já não fiscalizam os títulos de transporte dos passageiros, ou muito raramente o fazem. Hoje, um mais atento, venerador e obrigado passava multa a uma senhora cuja cor da pele sugeria ter nascido numa das nossas ex-colónias. A mim, jovem branco, nascido em Portugal, não foi pedido qualquer título de transporte (que nem sequer estava validado porque a máquina na estação onde embarquei estava avariada). Quem nunca assistiu a cenas semelhantes com passageiros não portugueses e quem nunca assistiu a cenas em que o revisor (a classe profissional que ameaça parar os comboios dois dias do próximo mês) não pede título de transporte a portugueses sem-abrigo ou embriagados que atire a primeira pedra. Se não tiver nenhuma à mão, peça aos alunos da Faculdade de Direito.

27
Abr19

A casa dos bárbaros

Ricardo Nobre

«Neste grande aldeão que chamam Porto»1, ardeu a casa onde a 1 de Fevereiro de 1799 nasceu o seu filho mais importante nas letras. Anos depois de em Lisboa se ter demolido a casa onde morreu Almeida Garrett, no País continuamos a anunciar «ao estrangeiro que chega: “aqui moram bárbaros!”»2.

A casa onde nasceu Almeida Garrett, na rua Barbosa de Castro, fotografada em Setembro de 2011.

1 Almeida Garrett, «As Férias», v. 2 (Lírica de João Mínimo).

2 Almeida Garrett, Camões, nota L do primeiro canto.

26
Abr19

No interior dos livros

Ricardo Nobre

A inaugurar uma nova colecção neste blogue, «No interior dos livros», dedicada à divulgação de elementos estranhos escritos ou deixados dentro de livros de bibliotecas, um horário manuscrito de autocarros da «Central Tejo» (Rodoviária do Tejo) para Torres Vedras e para as Caldas da Rainha, com partida de Leiria.

horário dos autocarros

O livro é o primeiro volume dos Annales de Tácito, edição Les Belles Lettres. A anotação está na folha de guarda.

26
Abr19

Medindo água em toneladas

Ricardo Nobre

… é assim o jornalismo de referência em Portugal.

Nota para as redacções: tonelada é uma unidade de medida de massa ou de energia. É certo que no registo informal ou figurado pode significar «grande quantidade», mas o jornalismo de qualidade usa registo informal ou linguagem figurada? Enfim, a unidade de medida de capacidade ou de volume (aplicada a líquidos) é o litro. Como uma tonelada são mil quilos (abreviatura de quilogramas), mil litros são um quilolitro.

Isto aprendia-se na escola primária.

23
Abr19

Todos os dias são dias do livro, mas nem todos os livros são do dia

Ricardo Nobre

Antecipando o dia do livro*, o Expresso de sexta-feira passada lembrava, em texto de José Mário Silva (p. 23), que se tem verificado, de ano para ano, a diminuição da venda de livros em Portugal. Os agentes do livro citados listam alguns (bons) motivos para o fenómeno (a mais interessante é a concorrência com outras formas de passar o tempo), mas ninguém comenta o que para mim é mais óbvio, e o que mais me afecta: o preço do livro.

Vejamos alguns exemplos (por ordem alfabética, de várias nacionalidades):

O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água (2 vols.): 18 + 18 = 36
  • edição francesa de bolso, Folio (2 vols.): 8,40 + 8,40 = 16,8
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 10,97

 

A Divina Comédia, de Dante

  • tradução portuguesa, Quetzal (bilíngue): 24,40
  • tradução francesa de bolso, Gallimard: 10,20
  • tradução francesa (obra completa de Dante), Le Livre de Poche: 23
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 12,68

 

Elegias, de Tibulo

  • tradução portuguesa, Cotovia: 25
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics (bilíngue): 12,17
  • tradução francesa, Les Belles Lettres (bilíngue): 29,50

 

Fausto, de Goethe

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 27
  • tradução francesa de bolso, Gallimard: 9
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics (2 vols.): 9,75 + 12,20 = 21,95

 

Os Irmãos Karamázov, de Dostoievski

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 36,50
  • tradução portuguesa, Presença (2 vols.): 17,90 + 22,80 = 40,70
  • tradução francesa de bolso, Folio: 9
  • tradução francesa de bolso, Le Livre de Poche: 8,70
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 9,07

 

Kalevala

  • tradução portuguesa, Dom Quixote: 30
  • tradução francesa, Gallimard: 25,30
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 11,63

 

Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa

  • versão portuguesa, Assírio e Alvim: 24,90
  • versão portuguesa, Tinta da China: 24,99 (capa mole: 18)
  • versão portuguesa, Relógio D’Água: 30
  • versão portuguesa de bolso, Assírio e Alvim: 16,60
  • tradução francesa: 27
  • tradução inglesa de bolso, Penguin: 18,72

 

Middlemarch, de George Eliot

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 30
  • tradução francesa de bolso, Folio: 13,80
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 13,10
  • tradução inglesa de bolso, Penguin: 8,26

 

Moby Dick, de Herman Melville

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 24,23
  • tradução portuguesa, Guerra e Paz: 30
  • tradução francesa de bolso, Folio: 10,20
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 9,75

 

A Morte do Pai(vol. 1), Karl Ove Knausgård

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 22
  • tradução francesa de bolso, Folio: 9,50
  • tradução inglesa de bolso, Vintage: 10,97

 

Odisseia, de Homero

  • tradução portuguesa, capa dura, Quetzal: 24,40
  • tradução portuguesa, capa dura, Cotovia (esgotado): 35
  • tradução portuguesa, de bolso, da Cotovia (esgotado): 16
  • tradução francesa, capa dura, Les Belles Lettres (bilíngue, 3 vols.): 45 + 36,60 + 43 = 124,6
  • tradução francesa, capa mole, Les Belles Lettres (bilíngue, 3 vols.): 33
  • tradução francesa, de bolso, Folio: 5,60
  • tradução francesa, de bolso, Gallimard: 4,40
  • tradução inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 9,75
  • tradução inglesa, capa dura, Loeb Classical Library (bilíngue, 2 vols.): 24,29 + 19,66 = 43,95
  • tradução inglesa, de bolso, Penguin: 9,76

 

Ulisses, James Joyce

  • tradução portuguesa, Relógio D’Água: 24
  • tradução francesa de bolso, Folio: 13,30
  • edição inglesa de bolso, Oxford World’s Classics: 10,32

 

Todos os valores estão em Euros. A negrito, os mais caros e os mais baratos.

Os títulos foram escolhidos ao acaso (antes de verificar os preços) olhando para as minhas estantes, o que ajuda a justificar a repetição de algumas editoras. Deve ainda notar-se que a amostra foi feita apenas com obras literárias, e não com livros técnicos, académicos ou dicionários (obras que, publicadas por editoras do Reino Unido, podem ter preços mesmo muito elevados). Normalmente, há várias edições ou traduções noutras línguas, cujos preços podem variar, mas o que mais importa é precisamente o preço a que o leitor pode aceder ao livro. Por exemplo, em Portugal, só se pode ler Tibulo numa luxuosa edição da Cotovia, de capa dura e com fita. Mas a versão de Les Belles Lettres, menos luxuosa, além de tradução, tem edição crítica.

Os preços indicados nos livros portugueses são os preços da Wook sem os famosos dez por centro de desconto (que as livrarias independentes não têm). Os preços dos livros estrangeiros são o valor de referência da Amazon espanhola ou francesa (normalmente há alternativas mais baratas para livros usados, mas depois acresce o porte de envio). Não tive em consideração portes de envio porque a Amazon espanhola não cobra portes para Portugal.

O que esta comparação sugere é que aprender línguas estrangeiras é a melhor forma de poupar na compra de livros (escolhi inglês e francês, mas os resultados com espanhol e italiano seriam semelhantes). Além disso, optar por livros de bolso permite arrumá-los melhor nas estantes. Os livros de bolso em causa são de boa qualidade (e não se comparam aos famigerados livros de bolso da Europa-América). Como o nome indica, são também muito mais portáteis (quando um livro sai de casa é lido mais depressa, além de tornar as viagens mais agradáveis).

É normal que toda a gente com o mínimo de intelecto se preocupe com a iliteracia. No entanto, o fenómeno não é incompreensível, como sugerem as notícias como a mencionada no início deste texto. O estado português mantém jovens na escola dos seis aos dezoito anos. São doze anos para formar consciências e adultos informados e esclarecidos, que sabem ler e escrever, fazer contas e pensar, que compreendem os fenómenos da natureza e até conhecem a história do seu país e do mundo. No entanto, o estado pouco faz para lá desse limite na formação do indivíduo. Com efeito, o Ministério da Cultura é politicamente irrelevante porque aparentemente a economia cultural é irrelevante. Mas não é: não temos só sol e praia para mostrar aos turistas. Temos monumentos, museus, teatros, cinema, ópera e concertos. E livros. Falta, ainda assim, uma verdadeira promoção do livro no ponto que mais o afasta das pessoas: o preço. Não serve de nada ensinar as pessoas a ler e a escrever se não houver livros a preços comportáveis: 20 € é um preço muito alto para quem ganha 650 € por mês. Os editores que pensem nisto quando o próximo jornalista lhes pedir comentários sobre quedas de 21,5 % de vendas em dez anos.

 

* Hoje, data em que se assinala a morte de Cervantes (e de Garcilaso) e de Shakespeare (e de Wordsworth), é o dia Internacional do Livro.

22
Abr19

«não plagiou, mas usou uma técnica menos apurada»

Ricardo Nobre

A Universidade de Lisboa anulou, por prática de plágio, o grau de Doutor atribuído a um político, segundo notícia da agência Lusa (continuamente plagiada pelos meios de comunicação social).

É muito engraçado ver como os advogados e os profissionais da justiça no geral conseguem dobrar a nossa língua para a obrigar a exprimir uma coisa diferente sem deixar de ser a mesma. O eufemismo que dá título a este texto é um exemplo dessa força retórica: o novo enunciado sugere que não houve crime — apenas não houve trabalho científico academicamente válido e, por conseguinte, não falta o motivo para a anulação do grau.

N.B.: O plágio tem sido tema deste blogue: a propósito de músicas, livros e textos académicos, a respeito de jornalistas que copiam sem citar, e a propósito do uso de excertos de um livro que reescreve outro e que foi usado na adaptação para cinema do primeiro (este foi o texto que me valeu insultos da autora Deana Barroqueiro e de seus amigos numa rede social; insultos pouco originais que fizeram nascer o Compêndio de insultos online, para ofensores e ofendidos).

19
Abr19

Ninguém ficou paralisado. Só o discernimento

Ricardo Nobre

Agora que deixei de ser assinante do Público, deixei de saber o que se passa nas redes sociais, excepto quando algum amigo mais temerário faz questão de me incluir num mundo de que eu conscientemente não quero participar. Estou ainda informado quanto a notícias portuguesas verdadeiramente importantes: tal como em respeito ao incêndio em Notre-Dame, recebi no telefone de bolso notificação de órgãos de informação estrangeiros sobre o acidente na Madeira. Não preciso saber ao minuto qual é o próximo familiar de ministro que entra no governo.

Enfim: não sabia que havia greve de gasolineiros, por isso afirmaria que quem anda na rua (mesmo nos principais eixos viários de Lisboa, a pé, de metro, de autocarro ou de comboio) não deu por nada; quem está sempre com o dedinho no mostrador das redes sociais achou que a gasolina ia acabar (talvez por ter tido a intuição de que o negócio dos combustíveis é pouco rentável). Os jornalistas portugueses, assumindo, é claro!, o seu papel de profetas esclarecidos no comando do povo, anunciaram na quarta-feira passada menos trânsito em Lisboa por causa da carência de combustível. Ninguém ligou ao facto de ter sido o primeiro dia de férias nas universidades (a Pordata indica que em Lisboa havia, em 2018, cento e dezasseis mil seiscentos e setenta e três estudantes matriculados no ensino superior). Quando as aulas recomeçarem na próxima semana, talvez informem quem acredita no que eles se arrogam dizer que os efeitos da greve passaram porque voltou a haver trânsito.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.