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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

26
Jun19

Norma(s) de língua

Ricardo Nobre

A mim, que sou um pobre gramático, causa-me muito espanto que argumentos sobre a língua, em particular a ortografia (porque noutros campos percebo que a língua é instrumento de independência), se radiquem em questões políticas. Em primeiro lugar porque não compete ao estado impor uma ortografia; vivemos (muito bem, por sinal) sem ela até 1911, a República impôs uma regra para acabar com a arbitrariedade e instabilidade ortográficas. Mas agora é o estado a desestabilizar a ortografia, aquela mesma que resolvera fixar por lei: foi assim em 1911, em 1945, em 1973 e em 1990 (como é de 30 em 30 anos, está para breve a próxima). Em Portugal sempre gostámos muito de mudar a ortografia de mãe/pai para filho/filha.

E, tal como penso que o estado não manda na língua, também não me parece racional que um país mande na língua usada por outros países porque isso cria falantes de primeira, de segunda, de terceira e por aí fora. Mesmo a questão da norma é algo fascista porque deve haver poucos absurdos maiores do que achar que Lisboa fala melhor português do que Trás-os-Montes, o Alentejo ou o Algarve.

Não preciso recordar que os colonizadores esclavagistas do Brasil são os antepassados dos brasileiros «brancos» de hoje e que 200 anos de independência deveriam ter sido suficientes para o país crescer sozinho. A internet — esse poço de sabedoria — está cheia de brasileiros (eles são muitos, e por isso há também proporcionalmente mais ignorância) que lamentam terem sido colonizados por portugueses. Dizem que preferiam ter sido colonizados por holandeses ou ingleses porque as antigas colónias daqueles são países mais desenvolvidos e que no segundo caso não precisavam de aprender inglês. Existe mais mentalidade de colonizado do que preferir usar a língua de outro do que a consciência de que é por eles falarem português que o português tem peso no mundo?

Seja como for, no debate sobre o acordo ortográfico tenho lido, do lado dos prós como dos contras, argumentos de profunda xenofobia. O português do Brasil não é uma língua de índios, é uma variante do português, tal como o português europeu — e tal como os países africanos têm as suas variantes (nos casos de Angola e Moçambique as realidades linguísticas são muito interessantes porque grande parte da população não fala o português como língua materna, sendo aquela a língua do ensino). Isso não lhe atribuiu (tal como não atribui ao português do nosso jardim) nem qualidades inferiores nem superiores. As coisas são como são e são diferentes. Não me repugnaria ortografias diferentes, mas parece que se é para ser orto- («correcta») só deveria haver uma grafia. Se se considerar que as variantes divergiram tanto que se tornaram línguas diferentes, então a história é outra: é que países independentes usam a língua como garante da sua soberania.

N.B.: Republicação com pequenos ajustes do comentário deixado à Sarin aqui.

21
Jun19

Sem erros de leitura

Ricardo Nobre

Uma coisa mal aprendida pode ser muito prejudicial ao desenvolvimento do indivíduo. Não é raro ouvir pessoas com algum discernimento a argumentar que uma coisa é assim porque foi assim que ela aprendeu. Mal comparado, isso equivale a dizer que quem aprendeu que o Sol anda à volta da Terra não poderia querer (é este verbo que faz diferença) aprender que é a Terra que anda à volta do Sol ou que, tendo aprendido que não há cura para o cancro, não pode querer que haja investigação científica que tenha por objectivo encontrar soluções para problemas que hoje existem.

Não estou a dizer que o conhecimento blinda as pessoas: estou a dizer que o erro e coisas mal aprendidas blindam as pessoas a novos conhecimentos e a novas formas de pensar. Claro que os exemplos podem partir de casos práticos da nossa sociedade e dos avanços civilizacionais de que temos sido testemunhas nas últimas décadas (modos de vida amigos do ambiente, reciclagem, escolhas de consumidor sustentáveis), mas, em respeito da natureza deste blogue, dou realce a questões do âmbito linguístico, de que sobressaem interpretações supra-realistas e supra-concretistas da língua, de onde resultam as chamadas «hipercorrecções». Designa-se hipercorrecção a aplicação de um erro onde antes havia correcção. Exemplo de café:

— Queria um chá.

— Queria? Já não quer?

O segundo falante não sabe ou não quer saber que «queria» é uma forma de imperfeito do indicativo e que esse tempo, além de pretérito, tem uma tonalidade modal que lhe permite ser usado quase como um condicional («quereria um chá se o senhor funcionário tiver a gentileza de o confeccionar e entregar à mesa»). Chama-se a isto imperfeito de cortesia porque o indicativo («quero») ou o imperativo («traz») são sentidos como demasiado impositivos de uma ordem.

Outro exemplo de café é o «copo com água», que acabou por alastrar a todo o lado em vez de «copo de água». Não sei de que são feitos a caixa de sapatos, o armário dos pratos ou a chávena de chá na casa destas pessoas. Talvez não tenham sequer paredes brancas, mas sim paredes de tijolo rebocadas com cimento e pintadas com uma tinta com pigmentação branca. «Copo de água» é como sapatos de futebol: o copo não é feito de água como os sapatos não são feitos pelo futebol, mas para o futebol. A isto se chama metonímia, já Aristóteles a conhecia, e não beneficiamos em desmerecer do Mestre.

Não estou a dizer nem a insinuar que os empregados de café são responsáveis por estes erros: todos nós somos responsáveis por eles porque, no dia em que fomos «corrigidos», não tivemos coragem, jeito ou paciência de explicar que não nos estavam a corrigir, mas a impor um erro atroz, justificando coerente e compassivamente porque é mais correcto dizer «copo de água» e errado «copo com água».

O que este texto defende de um ponto de vista linguístico poderia defender no âmbito literário. Sobretudo no período da Feira do Livro li muitas observações sobre livros. Normalmente, são pessoas bem-intencionadas que dão conselhos (e a quem se pedem conselhos) de leitura. Só que a leitura de um livro não cai bem a todos os leitores. Pensemos nos comprimidos que compramos com receita médica na farmácia: foram-nos prescritos pelo médico que nos conhece, a nós, às nossas condições físicas e resultados de análises. Quantas vezes nos acontece aconselharmos (ou oferecermos) um livro a uma pessoa por querermos que ela tenha a mesma sensação que tivemos ao lê-lo, e a recepção é muito negativa. O motivo é simples: a nossa experiência, os nossos anticorpos, a nossa estrutura genética de leitura é outra — e, tal como com os medicamentos, o que salva um doente provoca náuseas a outros.

Nem preciso de iniciar aqui o debate em torno de distinção entre literatura e formas que dominam o sector livreiro, a que se tem chamado subliteratura ou paraliteratura.

É por isso que acho graça a uns textos muito ternurentos em que alguém fala de um livro para incentivar outra pessoa a ler. São textos muito ingénuos, cheios de mistura de sensações de leitura com uma espécie de vocabulário técnico (falam em trama, protagonista e personagens), valorizando-se coisas que eu nem sabia que contribuíam para a qualidade de um livro (como a velocidade com que a acção decorre, o facto de ser baseado em acontecimentos reais ou não). Usam depois uns adjectivos muito abstractos para falar do «estilo do(a) autor(a)».

Já aqui se disse que a leitura é uma actividade solitária, porque não se pode fazer em conjunto (mesmo os clubes de leitura são assembleias em que se juntam pessoas para falar de um livro que leram previamente, sozinhas). É nessa actividade solitária que nos formamos, permeabilizamos a outros saberes e avançamos no conhecimento — mesmo que seja preciso ler uma biblioteca inteira — literalmente.

Bom Verão!

21
Jun19

Nada é em vão

Ricardo Nobre

Nem sempre é fácil ter um conhecimento relativamente seguro sobre uma coisa e deparar com pessoas que dele falam equivocadamente. Prefiro escrever «equívoco» para garantir que não estou apenas a falar de engano propositado, mas também dos erros que são transmitidos e perpetuados involuntariamente, por muito boas que sejam as nossas intenções, como o/a jornalista (que terá tido uma formação em ciências sociais) a tratar de assuntos científicos ou económicos. O/A especialista nestas matérias ouvirá ou lerá o/a jornalista e irá pensando ou dizendo «isto não é bem assim». Mas mesmo o não ser «bem assim» pode ter uma motivação nada ignóbil: falar para um público alargado, com muitas sensibilidades e estudos diferentes obriga a uma simplificação do nível do discurso ou da exclusão de fenómenos mais complexos. Se já deu aulas ou se já teve de falar para uma plateia de estudantes mais jovens ou de pessoas de outras áreas de estudo, o/a «especialista» já cometeu os mesmos pecados do(a) jornalista: às vezes as circunstâncias obrigam a nivelar abaixo do desejável um discurso produzido sobre um tópico com alguma complexidade, de que não está ausente um «erro em nome da pedagogia».

O problema é a percepção que o público (ouvinte ou leitor) terá da questão, a forma como ele próprio a vai discutir, resumir, impor noutro círculo. No fundo, o conhecimento transmitido sofre uma erosão, fenómeno semelhante à perda de qualidade entre o que um(a) professor(a) explica e o que o/a aluno(a) escreve no exame (curiosamente, há casos em que o exame é melhor que a explicação original!).

A forma de consolidar um conhecimento é, parece, mediante um extenso trabalho de leitura. Só que as dúvidas aumentam na mesma proporção: ler o quê, de quem, onde? Talvez em livros de divulgação (que resultam em simplificações redutoras de estudos científicos de assinalável complexidade que o cidadão ou cidadã comum não compreende sem dois cursos universitários), artigos de enciclopédia (que não estão isentos de erros, em particular numa obra de reconhecido mérito e divulgação), jornais e revistas? Entremos na papelaria (o/a leitor(a) conhece uma loja assim: é o sítio onde vai comprar tabaco ou pôr o Euromilhões) e dêmos lá uma volta: há publicações dedicadas a todos os assuntos, de bordados a videojogos, de automóveis à saúde, da educação infantil à literatura, da ciência à história.

O conhecimento é mesmo infinito e vem em diversas formas, incluindo sob a forma de não-conhecimento. Por exemplo, que conhecimento se pode adquirir da literatura? Esta é uma das perguntas mais antigas da história da Humanidade, e as tentativas de resposta variam entre o «nenhum» e o «todo». O patrono deste blogue é um dos que tentaram dar-lhe resposta, que veio, entre outras, sob o conceito de «catarse». Todavia, se nada se aprende com a literatura porque é que quem lê tem, normalmente, um nível cultural superior a quem não lê? Julgo que em parte isso pode ter que ver com o desenvolvimento do raciocínio e com a fundamentação da argumentação, que se adquire na leitura e exercício que conduzem ao alargamento de vocabulário, percepção de pequenas diferenças entre fenómenos semelhantes, arranjo e arrumação de ideias e formas de as expor, para não falar em questões de gosto. Além disso, a leitura permite o encadeamento de conhecimentos e a sua própria questionação. É um treino como outro qualquer e por isso se costuma dizer que só um grande leitor pode ser um grande escritor (havendo excepções atestadas em todas as literaturas do mundo) e que ser pensador é resultado de ser leitor.

Seremos certamente melhores cidadãos se lermos mais. Desenvolvendo a massa crítica, seremos mais exigentes também com os nossos governantes, criticaremos as suas visões do mundo, a sua forma de reflectir sobre o Estado e a sua presença na vida das pessoas e, nas próximas eleições, talvez consigamos fazer escolhas mais acertadas.

 

P.S.: Às vezes sento-me para escrever um texto neste blogue sobre um assunto e acabo com um post sobre outra questão. Este texto devia ter outro tópico, deveria abordar um tema de forma concreta, mas partiria de exemplos empíricos e o meu desejo é generalizar, teorizando. Por isso, desta vez, terei de assumir que o texto continua.

18
Jun19

Dicionários

Ricardo Nobre

Os textos da colecção Philologia têm-se dedicado a quem se quer iniciar no estudo das línguas clássicas europeias. Por isso, ainda não houve qualquer menção de dicionário, visto que, no início da aprendizagem de uma língua, não deverá haver necessidade de consultar nenhum. Aconselho a sua utilização apenas depois de chegar ao fim de um método (o Reading Latin ou o Athenaze, por exemplo), no momento de fazer a transição para uma fase mais complexa do estudo.

Também na produção de dicionários de latim e grego Portugal está muitos anos atrasado em relação ao mundo ocidental.

Na colecção de dicionários da Porto Editora, há apenas dicionários de latim-português e português-latim (os volumes de grego-português e português-grego respeitam ao grego moderno e são desadequados para o clássico). São dicionários escolares e nem sempre conseguem dar resposta rigorosa às dúvidas que a leitura dos textos suscita. O mesmo se diga do famoso Torrinha (Dicionário Latino-Português, de Francisco Torrinha, obra de 1937, reeditada até 1945), que se encontra fora de mercado, sendo, ainda assim, relativamente fácil de encontrar em alfarrabistas ou em feiras de livros usados.

O Dicionário Grego-Português e Português-Grego, de Isidro Pereira, está esgotado (1.ª ed. 1951; última edição 1998). Era um dicionário com falhas, mas com menos problemas do que a que os helenistas portugueses gostavam de lhe apontar (apelidando-o de «O Crime do Padre Isidro»). É que a maior virtude do dicionário era existir, enquanto o principal defeito dos críticos é não terem produzido nada semelhante.

Assim sendo, latinistas ou helenistas portugueses recorrem a obras estrangeiras. Os franceses têm o Gaffiot (disponível gratuitamente aqui) e o Bailly, para latim e grego, respectivamente (ambas as obras têm versões escolares, simplificadas e mais baratas); no mundo anglófono as obras de referência são o Lewis & Short e o Liddel & Scott. Estes dicionários, publicados pela Oxford University Press, estão sob domínio público (são obras do século xix) e encontram-se disponíveis na internet (por exemplo no portal Perseus). Dicionários mais elementares são os editados por James Morwood, mas facilmente se tornam demasiado simples quando se avança no estudo.

Reforço a ideia do início: quem está a começar a aprender línguas clássicas não tem necessidade nenhuma de usar dicionário. A melhor estratégia é adquirir vocabulário a partir do método de latim ou de grego que escolheu. Lendo, relendo, repetindo a leitura dos textos adquire-se mais vocabulário do que fazendo listas e decorando significados.

14
Jun19

Os livros não se medem aos palmos nem aos quilos

Ricardo Nobre

Para não correr o risco de monopolizar o blogue com o tema do preço dos livros (Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, saiu na Relógio D’Água a 18,50 € ou, com promoção, 16,65 € — a edição da Folio custa 7,40 € na Amazon espanhola), posso chamar a atenção para o peso e o formato dos livros publicados em Portugal. Eu sei que o portuguesinho gosta de andar com um livro debaixo do braço e que no Metropolitano faz vista estar a ler um livro enorme, mas há os leitores desgraçados que encontram a sua felicidade e instrução em leitura mais discreta. Tudo o que querem é um livro com uma mancha gráfica boa (já aqui se falou da Folio, mas podia falar da Livre de Poche, da Penguin, da Oxford World’s Classics, entre diversas outras), cuja tipografia e disposição de página não ofenda a vista, e em formato de bolso para transporte e mais fácil arrumação em casa.

Seja como for, o meu projecto de ler literatura francesa em francês continua, por isso, a dar resultado.

13
Jun19

O interruptor

Ricardo Nobre

Até à última crónica de opinião (mencionada neste blogue), os textos de Fernanda Câncio no sítio da TSF eram acompanhados da mensagem «a autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990» (itálico original). O texto com data de ontem já não tem essa informação e segue a norma ortográfica do Acordo Ortográfico de há quase trinta anos.

Cada falante é livre de falar e escrever como quiser. Por comodidade, convém que faça uso de um sistema reconhecido pela restante comunidade; por boa-educação, é aconselhável que escreva sem erros ortográficos. Fora isso, apenas requeiro que em meios de comunicação social de referência a língua seja usada com correcção e com a dignidade que merece. Por isso, sendo eu profundamente contra as regras ortográficas do tal Acordo Ortográfico (porque entendo a ortografia de uma forma muito diferente de quem é a favor ou contra as «novas» regras), também não me ofendo que pessoas inteligentes o adoptem na sua escrita. A reflexão que a grafia do último texto de Fernanda Câncio me suscita é: qual é o ponto em que uma pessoa decide que chegou o momento de abandonar uma ortografia que, embora com alguns problemas, é muito mais segura do que a que se encontra mais difundida pelos jornais?

Já tenho ouvido vários motivos por que o fazem. Aqueles que me dão mais alegria dizem respeito à interacção com os filhos porque leio há muitos anos literatura em português dos séculos xv, xvi, xvii, xviii, xix e xx e nunca tive dificuldades em compreender o que lá estava escrito por causa da ortografia — e não quero acreditar que um falante de português que está a terminar o primeiro ciclo do ensino básico não consiga perceber o que o pai ou a mãe lhe querem dizer quando escrevem «óptimo» ou «acção».

12
Jun19

Poupa-se na viagem, mas não na propaganda

Ricardo Nobre

Gosto muito de política e de propaganda por causa do uso que nessas actividades se faz do discurso. É um uso criativo em que, como já aqui foi dito noutras ocasiões, a verdade acaba por ser tão dobrada pela representação da língua que mal a reconhecemos, mesmo quando estamos diante dela.

O exemplo de hoje é um belo cartaz da nossa única e inimitável CP. Nas viagens de longo curso, a compra antecipada de bilhetes pode significar a redução de 65 % dos bilhetes, o que é uma excelente estratégia para garantir que os comboios circulam com muita lotação e para os clientes que precisam frequentemente de fazer deslocações pelo país.

Compra antecipada CP

O essencial está dito: há desconto de 65 %, mas a nossa CP dá o exemplo de uma viagem de Lisboa para o Porto por 9,50 € (note-se que é uma viagem que normalmente custa 25 €). A ficção da propaganda desta vez não é no discurso (a viagem é mesmo àquele preço), é do ponto de vista da ilustração. Um jovem adulto está a brincar com o telefone de bolso sentado na primeira classe de um Alfa Pendular renovado (há dois ou três comboios desses), mas o preço do exemplo é para a segunda classe do intercidades.

Assim, mesmo que o jovem da fotografia tenha beneficiado da redução promocional do preço, entre Santa Apolónia e Campanhã pagou 26,50 € (ou seja, com desconto, a primeira classe do Alfa continua a ser mais cara que a segunda sem desconto do intercidades). Sem desconto, teria pagado 43,60 € (a primeira classe no intercidades é, para o mesmo percurso, 37 €).

10
Jun19

Camões

Ricardo Nobre

Vítor Bastos, Monumento a Camões, 1867

O feriado nacional português é hoje, 10 de Junho, o (suposto) dia da morte de Camões, em 1580.

Não se sabe onde nem quando nasceu (naquela época não havia registo civil) Luís de Camões, e na verdade pouco se sabe de concreto sobre a sua vida, que, como em muitos outros casos, sofreu a diegese fabulística e mitográfica de vários biógrafos. Mesmo o que escreveu continua um mistério. A primeira edição das Rimas é póstuma (1595) e atribui-lhe poemas que já tinham sido publicados pelo Cancioneiro Geral, compilado por Garcia de Resende em 1516 (fazendo contas, Camões pode ter nascido quanto muito em 1524). O cânone da lírica continua, aliás, um dos temas mais interessantes (e sem solução) da literatura portuguesa, e nós, leitores, aguardamos uma edição crítica e completa de todos os poemas que são atribuídos a Camões pelas diversas edições da obra, mas também pelos cancioneiros manuscritos (que eram muito usados porque em Portugal o estado sempre gostou bastante de censura).

Conhecedor da literatura italiana do Umanesimo, da tradição literária e historiográfica e literária portuguesa e da Antiguidade Clássica, Camões foi, por isso, um poeta culto: escreveu Os Lusíadas, que veio a publicar em 1572. É a obra maior da língua portuguesa, responsável por várias «respostas» (de que Mensagem, de Fernando Pessoa, 1934, será a mais conhecida, embora com contornos muito mais nacionalistas) ao longo dos séculos, e a configuração da identidade de Portugal (ao pé dele todos os outros poetas parecem menores e só Pessoa se pode aproximar da sua grandeza).

Fora a questão estética e a utilização da língua, que daquele modo se formou enquanto literatura superior, Os Lusíadas contam bem mais do que a «história de Portugal em verso»: são a expressão máxima de um povo que, tendo poder para conquistar o mundo, também o faz selvaticamente, sendo, ainda, capaz de se fechar na maior ignorância:

O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũa austera, apagada e vil tristeza. (Os Lusíadas, 10.145)

Camões é, por isto e por muito mais, o Poeta que identifica Portugal. Bom feriado.

09
Jun19

Graça

Ricardo Nobre

Se a memória não me falha, foi por ocasião da Feira do Livro de Guadalajara, no México, que Graça Fonseca, a terceira ministra da Cultura do vigésimo primeiro governo constitucional português, produziu a afirmação de que era «óptimo», durante quatro dias, não ler jornais portugueses (os jornalistas, sem muito que comentar sobre livros, queriam tourada sobre o que muitos já sabem que é falta de civilização, as corridas de touros). Não houve ninguém que não criticasse a afirmação, justificando-se pelo facto de esta ser a ministra responsável pela tutela da comunicação social (muitos críticos são os mesmos que reclamam por o Estado se imiscuir nas redacções).

Sem a conhecer pessoalmente, posso aqui dizer que simpatizo muito com Graça Fonseca. Não sei explicar porquê, mas talvez por, de cada vez que fala em público, ter alguma coisa para dizer e fazê-lo de modo inteligente (ainda falta uma política para a promoção da leitura, mas sem orçamento os livros continuam acessíveis a alguns excêntricos). Isto para confessar que não ler jornais portugueses nem ver ou ouvir notícias portuguesas é uma das melhores coisas que tenho feito desde que morreu Agustina Bessa-Luís, ocasião em que o espaço público se encheu de testemunhos sobre a obra da escritora, que certamente reprovaria, cheia de humor, tantos disparates, a começar por quem é «especialista».

06
Jun19

Todos os Nomes

Ricardo Nobre

O romance de José Saramago foi traduzido para a vida de Fernanda Câncio, jornalista que, como neste momento milhares de portugueses e portuguesas, tem o cartão de cidadão caducado e que, por isso, não pode receber, mesmo em casa, uma carta registada.

É muito engraçado que, como a jornalista menciona, se possa viajar de avião ou votar sem cartão de cidadão, mas não seja possível receber na nossa morada uma carta que nos é dirigida. Parece que esse impedimento só acontece em casos como os CTT… ou a CP. Já assisti, no Alfa Pendular, esse serviço inqualificável dos comboios portugueses, o revisor a exigir que um passageiro (que tinha uma cópia do CC, mas que viajava sem o documento, de que se esquecera numa máquina de venda de tabaco) a compra de um novo bilhete, sob pena de ser multado e «chamadas as autoridades». Claro que é este é um diligente revisor que, a partir desse dia, deixou de receber nas suas mãos o meu cartão de cidadão. Em rigor, trata-se de um documento pessoal e intransmissível e, se o quiser ver, vê-o nas minhas mãos. O revisor pode ter recebido o poder da CP de ser autoridade dentro do comboio, mas ainda não é quem manda em mim. E, que raio, que interessa se, a menos em casos em que é preciso provar a idade, o nome que consta no bilhete é daquele passageiro ou da vizinha?

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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