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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

30
Jul19

A nova imprensa

Ricardo Nobre

No nosso século XIX, a literatura imputava muitos comportamentos desviantes (chamemos-lhes assim para sermos simpáticos) à imprensa. Todos os problemas tinham origem na imprensa (sobretudo por motivos políticos; desvios morais eram culpa da literatura, claro).

No nosso século XXI, a imprensa é a salvífica (retoricamente falando, como se tem visto sobre o discurso produzido no Público) e todos os problemas actuais têm origem nas redes sociais.

Só que, em oitocentos como neste início de século, o problema não é dos jornais nem das redes sociais. O problema somos nós, os europeus brancos, do sexo masculino alguns, heterossexuais, com curso superior de comunicação (que outro curso lhes daria preparação cultural?), que têm uma cultura superior à zulu e por isso criaram Romeu e Julieta (que nem sequer é uma obra-prima; já que é para competir, fale-se antes de Hamlet), que deixam matar milhares de inferiores à porta da Europa.

25
Jul19

Irresponsabilidade jornalística

Ricardo Nobre

O texto de Clara Viana, publicado no Público de ontem, sobre um excerto d'Os Lusíadas que saiu no Exame Nacional de Português é a prova de que os jornalistas se comportam como provocadores profissionais, amplificando o ruído que não tem razão de ser.

Recordo que o Exame Nacional de Português em lado nenhum tem de incluir apenas excertos de obras estudadas em aula. Aliás, esta prova começa com um texto de Manuel Alegre. Se os estudantes estiveram doze anos na escola, deveriam estar aptos a ler qualquer texto escrito em língua portuguesa.

Eu, que nem sou professor de português e que há muito tempo não leio Os Lusíadas, comecei a ler as estrofes em causa e soube identificar que se tratava de um trecho do concílio dos deuses no mar. Consultado o exame, essa informação estava lá, bem como um extenso vocabulário (eventualmente destinado aos alunos que nunca foram às aulas). Não estou a dizer que sou melhor que os outros (e muito menos que a minha memória é boa): é apenas um texto escrito em português, acerca do qual se faziam perguntas no âmbito de processos retóricos e da argumentação que fazem parte do programa (saber a estrutura d'Os Lusíadas também), e não é por isso que é preciso ler Aristóteles.

Clara Viana e professora de português que expôs a «situação», aprendei a ler. Começai pelos clássicos. Talvez Os Lusíadas. Integralmente. Muito melhor que o Público.

24
Jul19

E por vezes

Ricardo Nobre

Tenho orgulho em que este não seja um blogue confessional nem diarístico, mas o sossego que nele se vive só pode ser interrompido para admitir que, empenhado na imaginação de outros, construo a ficção dos meus dias onde imponho uma rotina para poder produzir algo que permanecerá silenciosamente depois de mim. O problema é que, depois do toque, fico eu sentado numa porta que ninguém abriu ante a dor que todos os dias se agiganta. O tempo não cura tudo. O tempo não cura nada porque o tempo ilude a vida com o fim contado pelo número de cabelos brancos nas têmperas (que daquele recebe o nome). Na escuridão, nem um fósforo de esperança — apenas escuridão, e nada mais.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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