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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

09
Ago19

Desligar os dados

Ricardo Nobre

Havia que falar da greve dos motoristas de matérias perigosas, da vergonha de ser português e das declarações sobre Portugal não ser uma democracia. Seria interessante reflectir sobre o motivo por que, em 2019, o país é refém de combustíveis fósseis. Era preciso falar do ciclo de cinema anunciado pela Cinemateca Portuguesa, que homenageia em Setembro a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen e o escritor Jorge de Sena, cujo centenário do nascimento se celebra este ano (a correspondência entre ambos merece ser lida, apesar de eu não ser grande fã da edição disponível). Chegou, no entanto, o momento de fazer o que se tem chamado de «desintoxicação tecnológica».

Estação do Oriente, Lisboa

Senhoras e senhores leitores, boas férias e até Setembro.

08
Ago19

Bibliotecas de memórias

Ricardo Nobre

Há muito tempo que este liceu não fala de bibliotecas, mas um texto da Rapariga do Autocarro fez-me lembrar que é preciso fazer lembrar que há coisas que não podemos esquecer.

Uma biblioteca (nota erudita: do grego bibliothéke, «lugar [théke, “caixa, cofre; túmulo”] para livros [bíblos, “interior do papiro, rolo de papiro; escrito, livro”], depósito de livros», é etimologicamente equivalente a «livraria» [palavra do latim], que também significa «colecção de livros dispostos ordenadamente; biblioteca», DLP, s.v. «livraria», 2) está para os livros como um dicionário para as palavras: o item está lá arrumado, à espera que vamos ter com ele.

Sei que ainda existem algumas bibliotecas itinerantes, mas o meu fascínio por bibliotecas não tem que ver com carros, mas sim com paredes e estantes. Por isso, acho que um dos maiores valores que a democracia nos trouxe foi uma rede de bibliotecas públicas que cobre todo o território: em Portugal, todas as capitais de distrito têm bibliotecas municipais, cujos acesso, utilização de espaços (incluindo o parque informático) e empréstimo (de livros ou DVD) são inteiramente gratuitos. Basta formalizar uma inscrição (é necessário um comprovativo de morada ou o papel da inscrição na escola/universidade) e já está. Além disso, existem bibliotecas universitárias cujo acesso é igualmente gratuito, bem como o manuseio dos livros (imagino que para requisitar sejam necessárias outras formalidades se não houver vínculos à instituição).

Tenho várias memórias espalhadas por várias bibliotecas — não é toda a gente que planeia percursos em cidades fazendo contas para passar nas bibliotecas nacionais e locais, tão importantes como museus —, a começar pelas más.

Não me lembro de haver bibliotecas nas escolas primárias que frequentei (apenas armários numa parede, talvez), mas recordo-me bem de ter ido à biblioteca da «Preparatória» D. Afonso III (ainda hoje há cheiros que me lembram desta escola, tal não terá sido o trauma). Era uma sala à direita de quem entra na escola (à esquerda era a secretaria) pela porta principal (que os alunos não podiam usar; apenas lamento não ter tido a consciência que tenho hoje para não respeitar a estupidez desta regra). Uma sala com estantes em três paredes (a outra era a das janelas), em armários fechados. No centro, mesas para nos sentarmos, e à frente de nós, uma terrível funcionária, velhota e mal-encarada, que tinha tanto amor por livros como por crianças. Nos dois anos em que andei na actual EB 2/3 D. Afonso III, devo ter ido à biblioteca duas vezes (se não estou a inflacionar o número em 50 %).

Mas, em 1995, fui para a Pinheiro e Rosa. A escola, inaugurada um ano antes, acabava de receber o nome. Frequentei-a do sétimo ao décimo segundo ano, por isso vi-a também passar de uma escola sem acessos (era, literalmente, no meio da lama, no Inverno; no meio do pó, no Verão) nem pavilhão gimnodesportivo ao que é actualmente. Como escola estreante, a biblioteca ocupava uma salinha e o acervo bibliográfico pouco mais era que manuais escolares não adoptados ou antigos, algumas obras de referência e não me lembro de mais nada antes de, no meu nono ano, ter passado por uma sala ainda menor enquanto decorriam obras para a instalação de uma biblioteca escolar digna, na altura já com uma sala de computadores. E assim foi: o meu ensino secundário decorreu entre aulas, biblioteca e as tardes do «laré», com incursões fúnebres pelo cemitério em dias de teste de História (era a disciplina que mais nos aterrorizava e para a qual, sem dúvida, mais estudava).

Ainda que as actuais instalações não sejam do «meu tempo», lembro-me bem de ter passado parte de um mês de Agosto (no termo do qual já conhecia os leitores residentes e funcionários) na biblioteca municipal de Faro a preparar um projecto. Na verdade, a Biblioteca António Ramos Rosa abriu nas actuais instalações no momento em que eu me estava a mudar para Lisboa. De um espaço tenebroso de um convento do século XVI, não muito diferente da biblioteca da Afonso III, em que os leitores não acediam directamente aos livros, a biblioteca mudou-se para o antigo matadouro, confinando com o jardim da Alameda (a entrada principal faz-se pela Rua Carlos Porfírio, mas chegar pelo jardim é mais impactante, como se diz agora). O espaço é alegre, luminoso, amplo e com os livros em acesso livre.

Mas isso foi em 2014; mais de dez anos antes, passei de uma biblioteca que considerava boa, na Pinheiro e Rosa, para uma que iria mudar a minha vida para sempre — onde, juntando todas as horas lá passadas, faria meses ininterruptos, talvez doze, porventura mais. Em 2001 entrei pela primeira vez na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A biblioteca começara a funcionar naquele edifício (o actual) um ou dois anos antes: as bibliotecas dos departamentos, institutos e centros deixaram de estar espalhadas nas instalações da faculdade e juntavam-se à «biblioteca central» num edifício em que não se distingue sala de leitura de local onde estão os livros (embora exista, obviamente, um depósito). Ali trabalhava e estudava em mesas ao lado das estantes aonde se podia ir buscar o livro sem pedir a ninguém. Os livros acumulavam-se em cima da mesa e no fim colocavam-se nos carrinhos de apoio. E podiam ser requisitados para casa.

A minha existência naquela biblioteca tornou desnecessária a utilização de outras. Aliás, aquilo que estudava na altura não exigia outras: nas suas áreas do conhecimento, a biblioteca da Faculdade de Letras não tinha (e não tem) tudo, mas tem muita coisa, quase tudo.

Na minha vida, porém, surgiriam outras necessidades. Ainda hoje me lembro da primeira vez que entrei, leitor caloiro com o cartão acabado de fazer na mão, na sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Lisboa. Era a primeira de tantas horas sentado nas cadeiras do Daciano Costa. Aguentei as obras da construção da ampliação da torre dos depósitos e a péssima iluminação da sala depois de escurecer às cinco da tarde nos meses de Inverno. Além desta, ainda me lembro dos fins-de-semana e férias de Verão itinerantes pelas bibliotecas do Palácio Galveias (antes de fechar), de Belém e, sobretudo, Orlando Ribeiro, em Telheiras (a que tem secção de música e filmes). Infelizmente, apesar de o acesso não ser difícil para mim, ainda não fui à de Marvila e, desde que este liceu abriu as portas, aguardo a reabertura da biblioteca de Alcântara (da antiga, já nada existe: agora, está lá o excessivamente grande novo hospital da C.U.F., na Avenida 24 de Julho).

As bibliotecas de Lisboa (existem outras que não foram aqui mencionadas) permitem o acesso gratuito a livros (que podem ser requisitados e devolvidos em qualquer biblioteca, mesmo que venham de outros espaços), ou seja, em Portugal não há carência de pontos de acesso ao conhecimento ou à imaginação de escritores e escritoras de todo o mundo. Talvez falte interesse do conhecimento e em atribuir valor à imaginação como forma de sensibilidade. Nem o dinheiro vale tanto.

05
Ago19

Juntos por Salazar

Ricardo Nobre

Pode honrar-se um morto que se admire organizando uma manifestação de defesa da sua memória que toda a gente sabe desgostaria o falecido? 

Parece que os admiradores da figura que os Portugueses elegeram como o Grande Português na televisão pública o honrariam melhor se lhe copiassem o exemplo, não se juntando a mais de duas pessoas ao mesmo tempo.

«Está tudo bem assim, e não podia ser de outra forma», dizia o estadista à Nação, defendendo que temos de merecer os mortos e ser orgulhosos dos vivos. E agora vamos escolher que mortos honrar.

05
Ago19

O preto e o negro

Ricardo Nobre

Para «preto», palavra da língua portuguesa, existem definições no dicionário no âmbito da física. Por exemplo, como adjectivo, «diz-se da ausência total de cor, pela absorção de todas as radiações luminosas». Sabemos, todavia, de outros usos do mesmo adjectivo. Com sentido pejorativo, regista o dicionário da Porto Editora, «diz-se de pessoa que tem a pele de cor escura; negro». Numa edição de 1998 que há cá em casa, ainda não havia uma menção, como nome comum pejorativo, que se pode ler actualmente na Infopédia: «designação preconceituosa, discriminatória ou ignorante de pessoa que tem a pele de cor escura, por elevada pigmentação».

preto

É este tipo de correcção política feita por dicionários que não se pode aceitar porque respeita apenas ao que hoje se considera o uso do termo, sem pesar que o valor da palavra já foi neutro, como hoje o de «negro». Recolho exemplos anteriores ao século XX1:

  • Gil Vicente, no Auto da Barca do Purgatório e na Inês Pereira, respectivamente: «Nem um preto por pagar» e «Homem que não tem nem preto, / Casa muito na má hora».
  • Fernão Mendes Pinto fala de umas «chinelas de preto» na Peregrinação.
  • Almeida Garrett, que, n’O Arco de Santana, usa o termo para designar o Bispo D. Soleima, do tempo do nosso D. Afonso Henriques, escreveria em Helena: «O ar do preto era importante, precioso e cheio de sua autoridade; mas não austero, antes plácido e risonho como o de uma ambição satisfeita».
  • Camilo Castelo Branco, n’A Caveira da Mártir, emprega a palavra ao lado de «negros»: «Desceu ao pátio onde dois negros davam ferro à pelagem dos cavalos empastada de suor, e disse-lhes que os cavalgassem e passeassem a passo, porque pareciam resfriados; depois, mandou o preto cozinheiro à praça da Ribeira comprar uma ave que seu amo apetecera».
  • O mesmo autor, em A Filha do Doutor Negro (título que já diz tudo), escreve: «Apelidava-se assim o bacharel Francisco Simões de Alpedrinha, porque era mulato, nascido no Brasil, lá muito do interior do império, filho de um preto, magistrado do Rio de Janeiro, famoso por muitas letras e rectidão».
  • Eça de Queirós, Os Maias, no famoso momento em que Carlos vê Maria Eduarda: «Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola».
  • Guerra Junqueiro, em Viagem à Roda da Parvónia, põe na boca de uma personagem, «abraçando o preto»: «Muito bem, meu amigo, muito bem! Afianço-lhe que não morro ainda sem ser preto».
  • Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas: «O preto, num meio ubérrimo, não foi condenado».

Não estou a dizer que não há racismo latente ou exuberante em frases como «O soro das glândulas lacrimais do preto não é pranto de homem» (Camilo Castelo Branco, A Vingança), «O preto tem catinga» (Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português) ou «E preto velho não aprende língua» (Correia Garção, A Assembleia), mas as definições do dicionário têm de ser latas o suficiente para todos os contextos, ou então distinguir os usos sem preconceito, discriminação ou ignorância (entradas para «padre», «burguês» ou «fidalgo» precisariam do mesmo aviso, embora não seja um alerta de raça).

Etimologicamente (ou seja, do ponto de vista da origem da palavra e do seu significado original), «preto» relaciona-se com o particípio do verbo que em latim significa «pressionar», «imprimir», ou seja, o nome da cor mais ao fundo do espectro de luz não seguiu um percurso ininterrupto de uso linguístico da Antiguidade até «preto» ter aparecido na língua portuguesa (o que aconteceu, de acordo com o Dicionário Houaiss, logo no século XIII).

Os Romanos diziam «niger», de onde vem «negro» (as palavras latinas passam regularmente para o português pelo acusativo: «nigrum» e «nigram» no singular, caindo o -m; «nigros» e «nigras» no plural), que, do português e do espanhol, passa para o inglês como «nigger» ou «nigga», actualmente um dos maiores insultos da língua inglesa (tão tabu que, no meio de todo o tipo de calão, os filmes e séries designam a palavra como «the N word»), embora, tal como «preto» em português, «nigger» ou «nigga» sejam termos utilizados no interior das comunidades (que assim são igualmente comunidades linguísticas) a que originalmente se referiam (um pouco como aconteceu com o outrora ofensivo «queer» para designar comunidades homossexuais, hoje elevado a disciplina universitária, os Queer Studies).

Em português contemporâneo, por seu lado, «negro» parece ser o termo mais adequado para referir os indivíduos que cientificamente são designados «negróides» (que se distinguem ou distinguiriam, por exemplo, dos «caucasóides»). Em inglês, o termo socialmente aceite é «black», que tem origem lá no Saxão antigo, que é um ramo da família das línguas germânicas, a que o Norueguês antigo ainda se liga.

Assim sendo, é interessante notar como da mesma palavra se origina um insulto numa língua e um termo aceite noutra — coincidência que se baseia exclusivamente na etimologia, porque a língua é muito mais do que língua: é também história e, nesse sentido, carrega tanto a fortuna como os equívocos do passado, como o crime da escravatura. As palavras também têm a sua biografia.

(1) As citações das obras literárias foram geradas pelo corpus da Linguateca. O leitor ou a leitora pode solicitar correcção de erros de contexto (não fui verificar todas as citações).

03
Ago19

Dicionário politicamente correcto

Ricardo Nobre

Há uns anos (já foi em 2012), o Ministério Público Federal fez uso dos recursos públicos brasileiros para obrigar à retirada do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (DH) de circulação. A acusação era simples: a forma como a palavra «cigano» está definida é pejorativa e discriminatória. E, com efeito, na quinta acepção, «cigano» é, no registo pejorativo, «que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador». Tal significado regista-se (segundo a mesma fonte) desde pelo menos 1899.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, s.v. «cigano»

Existem outros exemplos, noutros verbetes deste e de outros dicionários, de discriminação e intolerância, perpetuação de estereótipos e do discurso de ódio (como «judeu», que no DH 9 surge como «pessoa usurária, avarenta»). Quando alguém se lembrou de que a definição de «mãe» ou «mulher» devia ser votada e decidida por utentes de um famoso dicionário em rede, estava a promover uma campanha política válida em defesa dos direitos da mulher ou das mães, mas a cometer uma fraude linguística. O mesmo aconteceu quando um (ou uma) activista mais entusiasmado ou entusiasmada e menos reflectido ou reflectida descobriu que «casal» no dicionário da Porto Editora não poderia implicar um casal de pessoas do mesmo sexo. Ninguém lhe disse e ele ou ela não se lembrou que o significado de uma palavra é o que os e as falantes lhes dão a cada uso e que o dicionário não inventa sentidos derivados para acomodar todas as sensibilidades.

Ainda falta mencionar o desrespeito pelos «direitos» dos animais, que vêem a sua honra ferida nos verbetes «vaca» (DH 7: «mulher de vida devassa») ou «porco» (DH 9: «que ofende os valores morais predominantes, grosseiro, imoral, obsceno»). E, conjugando animais com mulheres, percebemos que todos os nomes de animais no feminino servem de insulto ao sexo feminino: galinha, cabra, cadela, bezerra.

A culpa não é do dicionário, é claro: o que está agora nos dicionários é ofensivo e sem respeito pelas minorias e desrespeitoso para as mulheres, mas um dicionário não é uma lei actual, é um registo histórico, não é a previsão do futuro, é a documentação de significados passados (e por vezes conselheiro de melhores usos, embora o seja apenas em questões linguísticas e não sociopolíticas). Portanto, arremeter judicialmente ou perorar nas redes sociais contra os dicionários terem registado o valor das palavras é um método que só pode ser usado por quem for muito ignorante. Se queremos uma língua imaculada de representatividade, empenhemo-nos na sua renovação (boa sorte com isso). Veremos que na próxima edição já o dicionário trará um significado novo. Se a edição seguinte apagar os insultuosos porque caíram em desuso teremos feito um bom trabalho.

Solucionar o problema com a retirada de dicionários do mercado chama-se censura, PIDE ou Inquisição (havendo quem goste, já tentámos, não gostámos, mudámos). Pensar que a culpa da nossa ignorância ou insensibilidade é do dicionário é não saber nada sobre dicionários — e é não saber nada sobre nós.

01
Ago19

O Amor da Palavra

Ricardo Nobre

Quando o amor à língua exige o conhecimento dos seus segredos, da história das suas andanças e pegadas pelo mundo, não se escreve um poema, escreve-se um dicionário. Com todas as palavras da língua, mesmo quando são quatrocentas e catorze mil oitocentas e vinte e cinco.

Quando se junta Mel Gibson a Sean Penn, faz-se um filme sobre a intrigante história de amor pela palavra que foi a concretização do Oxford English Dictionary, o dicionário que reinventou a lexicografia moderna — «The greater effort since the invention of printing» — a partir da publicação do primeiro fascículo em 1884 (entre nós, ainda não tinham sido publicados Os Maias; Fernando Pessoa ainda não tinha nascido; reinava El-Rei D. Luís). A primeira edição sairia apenas em 1927: «Twelve mighty volumes; 414,825 words defined; 1,827,306 illustrative quotations used», «The total length of type […] is 178 miles, the distance between London and the outskirts of Manchester. Discounting every punctuation mark and every space […] there are no fewer than 227,779,589 letters and numbers». A segunda edição, de 1989, tem vinte volumes; a terceira está em preparação e poderá estar pronta em 2037 (está disponível uma versão em linha, claro).

O filme é baseado no livro de Simon Winchester, que escreveria anos depois a história do dicionário fora do universo da ficção (The Meaning of Everything, 2003). O título original do romance histórico de 1998 é The Surgeon of Crowthorne: A Tale of Murder, Madness and the Love of Words, mas nos E.U.A. foi publicado com o título que dá nome ao filme: The Professor and the Madman: A Tale of Murder, Insanity, and the Making of the Oxford English Dictionary (tenho a 1.ª edição da Harper Collins, de onde citei excertos da pág. 220).

The Professor and the Madman e The Meaning of Everything, de Simon Winchester

«One word — and only one word — was ever actually lost: bondmaid, which appears in Johnson's dictionary [publicado em 1755], was actually mislaid by Murray and was found […] long after the fascicle Battentlie-Bozzom has been published». A ausência da palavra é mencionada no filme e usada contra James Murray (Mel Gibson), que é hostilizado desde o início pelos responsáveis da editora de Oxford (apesar das suas capacidades intelectuais, Murray não tinha um grau académico, vindo a recebê-lo durante a elaboração do dicionário, honoris causa).

Em Portugal, é claro, não há nenhum dicionário com esta grandeza, escopo e precisão. Se estamos a ler um livro um bocadinho mais antigo, já os dicionários não nos dão os significados das palavras que caíram em desuso porque no nosso país os dicionários são sempre feitos para a língua contemporânea, o que faz com que de edição para edição sejam retiradas palavras cultas e necessárias para a boa compreensão de textos, a fim de introduzir neologismos que duram menos que o vigésimo governo da república portuguesa. E o leitor precisa de voltar a Bluteau, a Morais, a Cândido de Figueiredo… deixando os dois volumes do dicionário da Academia das Ciências a apanhar pó a um canto. Vanham-nos, ainda, Aurélio e Houaiss!

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.