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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

27
Set19

Apanhar as canas (e os plásticos) depois dos foguetes

ou a greve do clima

Ricardo Nobre

Em casa não fazíamos reciclagem nem tínhamos preocupações na separação do lixo. Na escola, aprendíamos o que era a reciclagem, como se fazia, e por isso era-nos ensinada a importância da separação daquilo que deitamos fora. Dentro das salas de aula e fora delas, porém, os caixotes não tinham separação entre orgânico, papel e plástico.
Devo ter aprendido o conceito de pegada ecológica num livro destinado a jovens consumidores. Falava na escolha de materiais no momento de escolher roupa, por exemplo, e na escolha de alimentos, dando atenção à proveniência e — precisamente — à pegada ecológica produzida pelos produtos que chegam à loja.
Ainda eu não tinha consciência de poupança nem pensava activamente em consumo (sem ser livros e brinquedos) e já me perguntava, qual Greta Thunberg1, mas com muito menos ódio no olhar e sem palavras ríspidas, porque é que os produtos amigos do ambiente não são mais baratos do que os de grande pegada ecológica. É estranho que o cultivo, a apanha e o transporte de morangos num sítio distante da minha casa sejam mais baratos do que os morangos cultivados ao pé da porta. Seja como for, a política consegue controlar preços de mercado na aplicação de impostos (veja-se no preço do tabaco a percentagem que é imposto), não é preciso esperar que a procura insaciável de produtos amigos do ambiente leve à produção capaz de fazer baixar os preços.
Há, no entanto, gestos que são gratuitos: hoje faço separação de lixo em casa (e fora dela) e sei que na casa dos meus familiares (incluindo naquela em que cresci) também o fazem. No entanto, há escolhas que nem todos podem fazer. Um ovo produzido por uma galinha de produção amiga do ambiente é muito mais caro do que um produzido em contexto de aviário.
Claro: também é mais saudável o primeiro (vamos chamar-lhe «ovo bom») do que o segundo (que será o «ovo mau»), que obriga o consumidor a ingerir a comida processada que a própria galinha comeu. Ainda  assim, se não houver dinheiro para o ovo bom, a escolha pode ser entre comer um ovo mau que mate a fome ou morrer de fome.
Estou seguro de que, se o Estado metesse agora a mão nisto e criasse impostos sobre os ovos, aconteceria o mesmo que ao tabaco: não há nenhum barato. Mas enquanto o preço do ovo mau aumentaria para o valor do ovo bom, o consumidor provavelmente teria de deixar de comer ovos.
Onde está «ovos» e «galinhas», coloque-se peixe de viveiro e peixe selvagem, porcos de produção em massa e porcos alimentados com bolotas, ou pense-se em vacas, cabritos, coelhos, borregos, cavalos, avestruzes e todo o tipo de animais que se come no mundo ocidental.
A solução pode ser, por isso, deixar de comer carne, peixe e produtos derivados de animais. Perder a alegria da degustação para que o planeta seja salvo da devastação.
Resta dizer que a produção de soja e de tofu também não é amiga do ambiente. Ao mesmo tempo, tenho dúvidas de que produção em massa de produtos amigos do ambiente seja negócio para alguém. Se não usar químicos, o produtor sujeita-se a perdas financeiras, pois a plantação pode sofrer um ataque de qualquer bicho. O mercado sofreria carestia, haveria fome que nenhum milho enlatado resolveria. Deverá haver químicos amigos do ambiente, mas estou certo de que serão mais caros que os outros. Parece que estamos sempre a voltar ao mesmo problema: é mais barato destruir o planeta do que salvá-lo.
Por todas as dúvidas que tenho, não aceito bem a reprimenda da menina Greta Thunberg. Talvez porque, por princípio, desconfio de todas as pessoas que falam com muita certeza. E o tom, independentemente de tudo, é muito próximo do de extremistas (como o jornalista João Miguel Tavares recordava ontem no Público).
Por tudo isto, será muito interessante saber se os participantes na greve do clima regressarão a casa nos seus carros. Talvez passem numa cadeia de restaurantes de comida rápida e bebam uma gasosa num copo de papel, com uma tampinha de plástico e uma palhinha. Se estiverem longe de casa, é possível que optem pelo comboio. O serviço de bar do Alfa Pendular da CP-Comboios de Portugal é uma opção que faz de uma fábrica do meado do século XX amiga do ambiente: não há nada que não seja de plástico, não há nada que não seja descartável.
Provavelmente, estamos condenados a destruir o planeta e a solução é mesmo investir já num apartamento em Marte. Como essa hipótese não parece para já viável, a solução imediata parece ser outra: deixar de produzir população.


Serei a única pessoa a pensar que ela não vai à escola? Se pretende ser activista de profissão, o que ela faz considera-se trabalho infantil?

27
Set19

O que prometer na campanha sobre transportes públicos

Ricardo Nobre

É pena que os nossos políticos não descansem um bocadinho, porque podem ser mesmo muito inconvenientes e chatos. Há tempos, chegaram-me, vindas do Bloco de Esquerda, as propostas para os transportes públicos.

Agora que os passes a preços reduzidos (e justos, diria eu) estão em vigor, o Bloco de Esquerda quer «+Conforto +Mobilidade». São coisas que não se pode prometer a ninguém, mas na política não é preciso cumprir, desde que se convença quem anda mais distraído. Como todos os dias uso a CP, o Metropolitano, a Companhia dos Carris de Ferro e os meus sapatos para as deslocações, penso que alguém devia informar estes políticos que os transportes não precisam de +Conforto nem de +Mobilidade. Claro que há muitas coisas que se podem fazer, mas são grandes investimentos (ligar Cascais a Sintra de comboio, estender a rede do Metro para zonas em que ele faz falta e não para áreas em que toda a gente usa carro — por isso, quando quiserem pôr o metro em Campo de Ourique, façam a estação mais próxima dos Prazeres, onde mora população mais pobre).

Depois há promessas como «+Investimento». Como o Bloco de Esquerda propugna a saída de Portugal da União Europeia e do Euro, deveria aproveitar para esclarecer quais são os apoios que a Rússia, a China ou a Coreia do Norte dariam ao nosso país para o tal investimento.

Bom, talvez fosse de admitir que aquilo de que realmente precisamos nos transportes públicos é de manutenção.

 

P.S. O sinal matemático é da exclusiva responsabilidade do Bloco de Esquerda. No liceu escreveríamos «mais».

27
Set19

Tancos na campanha

Ricardo Nobre

Ainda não percebi se alguém mais ingénuo se importa com o que é dito e prometido nas campanhas eleitorais.

Ao mesmo tempo, era preciso não viver em Portugal para saber que o caso de Tancos não vai resultar em nada. Diríamos que é mais uma Maddie perdida.

Juntando uma a outra, qual é a implicação que o caso de Tancos pode ter na campanha em curso? Dificilmente algum. Porque ninguém vai mudar o sentido de voto por causa de um acontecimento que ninguém conhece, que não teve importância nenhuma, e que só a comunicação social parece ter interesse em ressuscitar (a TVI até fez uma dramatização, que é uma forma de inserir a novela no jornal nacional).

16
Set19

«praga que limpe esta merda de gente»

Ricardo Nobre

Perdão pelo vernáculo, mas é citação de um texto que Georgina Figueiredo Guarani-Kaiowá publicou numa rede social. As palavras (a que chama «pensamento») desta antiga integrante do partido Pessoas Animais Natureza (PAN) foram estas: «Pensamento do dia: há gente a mais neste planeta. A maior parte desta não vale os recursos que consome. Cada vez mais tenho nojo destes semelhantes em espécie com que me vou cruzando e sou obrigada a partilhar o ar que respiro. Que venha uma praga que limpe esta merda de gente. Dixit.»

Como toda a gente tem direito à sua opinião e como cada indivíduo pode exprimir-se da maneira que entender (e que a sua sensibilidade consentir), não tenho nada a censurar na frustração revelada por Georgina. O que me deixa mesmo espantado é aquela terceira pessoa do singular do perfeito do indicativo activo com que termina o texto. Também é possível que a autora quisesse referir-se a si própria na terceira pessoa (muitas celebridades o fazem), mas, até prova em contrário, temos de ser tolerantes com «semelhantes em espécie com que me vou cruzando e s[omos] obrigad[os] a partilhar o ar que respir[amos]», incluindo quando não sabem conjugar o verbo dicere. Dixi.

15
Set19

Para a escola, rapidamente e em força

Ricardo Nobre

Um motivo para sermos exigentes (connosco próprios ou com outros) é a vontade de melhorar ou fazer melhorar. Nessa linha de pensamento, incluo o jornalismo tradicional, a cuja degradação temos assistido. O YouTube substituiu-se às televisões, e há mesmo «noticiários» cheios de opinião, reclamando estarem a revelar factos e provas — a verdade, em suma. Sabemos que sempre houve notícias falsas, rumores (muitos deles espalhados pela comunicação social — e não estou a referir-me apenas à TVI ou ao Correio da Manhã) e mentira no espaço público, mas agora parece que as forças se desequilibraram porque não é preciso verificar factos para acreditar neles e ajudar a divulgação de conspirações e mentiras nas redes sociais.

Por onde anda o jornalismo? O de Cecília Malheiro, da Agência Lusa, publicado no Público, parece andar num livro de história com gralhas (ou completa falta de noção), ao datar a guerra colonial de 1975.

guerra colonial em 1975

Todos os dias parece que o problema do jornalismo é de escolaridade básica.

05
Set19

Um sorriso

Ricardo Nobre

Quem lê isto no Público:

centro de Lisboa no centro de Lisboa

não pode deixar de pensar nisto:

Salvação do mundo

Sem falar no facto de não ser um incêncio no centro da cidade, que eu localizaria na Baixa, no Marquês de Pombal, ou até no Saldanha. É um incêndio no interior da cidade, quando muito.

Enfim, este é um jornal que não adoptou o denominado Acordo Ortográfico de 1990 em defesa da língua portuguesa.

05
Set19

Temporada de leitura

Ricardo Nobre

Costuma ler-se que Verão (e férias) é tempo de «pôr a leitura em dia» (para ilustração das gentes: a leitura nunca está em dia) e, criando uma necessidade que não existe, as livrarias dos coletes verdes e as dos coletes laranja, os meios de comunicação social e as redes sociais desdobram-se em sugestões de leitura. Empiricamente parece fazer algum sentido que, havendo mais tempo livre, haja também mais disponibilidade para ler, visto que esta é uma actividade geralmente considerada no âmbito do lazer e do ócio. Apesar de todas as campanhas de promoção de leitura, jornais e revistas jornalisticamente responsáveis e blogues cujos autores estão cheios de boas intenções perpetuam o estigma da leitura como o que se deve fazer quando não há mais nada para ocupar o tempo. Têm-no conseguido, e com bastante mérito.

Outra tendência frequente é associar o Verão e as férias a leituras menos «pesadas» e, por conseguinte, livros que não são suficientemente sérios para serem lidos de Setembro a Junho. É então que deparamos com listas constituídas apenas por obras literárias — o resto do ano é, supostamente, dedicado a «leituras de gestor», como diz o nosso Mário de Carvalho em «O Binóculo Russo». Recorde-se o trecho antológico (d’Os Contos Vagabundos, publicados em 2000):

Ele já lá estava e lia, à mesa, com aquele desprendimento selecto que tanto a havia impressionado na véspera. Matilde [com os binóculos] tinha-o agora ao perto, muito nítido, com as cores muito vivas. Podia acompanhar-lhe o perfil, milímetro a milímetro, o azulado da barba na face bem escanhoada, as riscas da camisa, cuidadosamente arregaçada nos punhos e o livro, manuseado com displicência. Conseguiu ler as letras da capa: Cultive a Sua Vontade de Vencer, por J. D. Russel West. Céus, aquilo eram leituras de gestor.

Não obstante tudo o que nos fazem crer os meios de comunicação de massas antes enumerados, debalde tentei encontrar informação estatística sobre a venda de livros ao longo do ano para confirmar esse empirismo. As bibliotecas públicas, objecto de largos elogios neste liceu, têm serviços mínimos de função pública, não acompanhando, assim, esse suposto aumento sazonal da procura pelo livro e pela leitura amena. No Algarve, cujo Verão apenas rima com praia, acreditando nas informações dos respectivos sites e registando apenas as diferenças em relação ao resto do ano, acontece[ra]m estes fenómenos:

  • a Biblioteca Municipal António Ramos Rosa (em Faro) esteve encerrada de 1 a 15 de Agosto;
  • a Biblioteca Municipal Álvaro de Campos (em Tavira) reduziu o horário de atendimento;
  • a Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes (em Portimão) apenas fechou ao sábado;
  • a Biblioteca Municipal Vicente Campinas (em Vila Real de Santo António) apenas abriu até às três da tarde em Agosto;
  • a Biblioteca Municipal Lídia Jorge (em Albufeira) e a Biblioteca Municipal de Castro Marim (por sinal, um espaço extraordinário) mantiveram o horário de funcionamento;
  • a Biblioteca Municipal de Lagos também manteve, mas infelizmente esta tem horário de Verão o ano inteiro (abre às 10h, fecha às 18h e encerra à hora de almoço);
  • o site da Biblioteca Municipal de Olhão, que não é actualizado desde 2016, informa que no Verão o espaço abre no fim da manhã para encerrar ao meio da tarde.

N.B.: Deixei de fora a Biblioteca Municipal Sophia de Mello Breyner Andresen (em Loulé) e a Biblioteca Municipal de Silves (que deve ter o site mais caro de todas, apesar de não ter conteúdo) por não serem em cidades junto à praia. Mas talvez valha a pena dizer que no Verão apenas encerram ao sábado e que a biblioteca de Loulé tem um dos horários de funcionamento mais alargados de todas as bibliotecas públicas.

Seria interessante ter informação sobre a afluência a todos estes espaços e sua utilização; seria muito relevante saber se os horários estão ajustados à procura (fecham ao sábado porque não vai lá ninguém ou é necessário dar folga ao funcionário público? abrem de manhã porque há afluência ou estão vazias até meio da manhã? fecham às cinco da tarde quando não está lá ninguém ou é a hora em que mais gente a frequenta, mas o funcionário público tem de picar o ponto?).

Como em muitos outros aspectos da nossa sociedade e vida em comum, são mais as dúvidas que as certezas, há mais palpites que estudos, há mais opiniões que factos.

02
Set19

Museus da Nossa Memória

Ricardo Nobre

Aqui está um texto que eu gostaria de ter escrito.

Penso o mesmo que a Sarin para o Museu dos Descobrimentos (com este nome) e defendo que o museu em causa deveria chamar-se Museu do Estado Novo, porque o Professor Salazar não fez tudo sozinho e porque não me lembro, à excepção das casas-museu, de nenhum museu com designações de antropónimos.

Do que me lembro é de um programa de televisão, exibido há muitos anos, em que dois jovens falavam com Mário Soares sobre o Estado Novo enquanto caminhavam pela marginal de Cascais. O ex-presidente da República explicava de modo mais ou menos objectivo o que significou esse período histórico a pessoas já nascidas e criadas na democracia, até que um dos jovens, provavelmente perto do fim, perguntou: «mas não houve nada de bom?». Mário Soares não hesitou, abriu os braços mostrando a estrada, e disse: «olha, fez esta marginal!» (estou a citar de cor, mas certo de que a ideia é esta). Eu acrescentaria: fez a Ponte (pensada desde o século XIX, por isso não é de admirar que o novo aeroporto demore tanto), as escolas, os aeroportos (um deles chamado Humberto Delgado e outro Francisco Sá Carneiro, porque Sacadura Cabral e Gago Coutinho foram pessoas do regime), o Hospital de Santa Maria (que, na lápide inaugural apagou referências que alguma mente pura achou inconvenientes), o Instituto Superior Técnico (sem as torres horrorosas e pelos vistos defeituosas), a Cidade Universitária e a Biblioteca Nacional de Lisboa.

A Lição de Salazar (mas não só, dado que a superioridade da nação — e até da língua — em face das outras vem muito de trás) foi tão bem aprendida que ninguém concebe que se possa fazer um museu que exponha a História de Portugal sem a glorificação do passado que implique o branqueamento de derrotas, misérias ou crimes (Os Lusíadas ainda hoje são entendidos como «história de Portugal em verso», como se os feitos de valentia não fossem contrabalançados pela voz do poeta e do Velho do Restelo). Mas o que se vê nos museus existentes é que é possível (recorde-se o de Arte Antiga), exibindo as mesmas coisas, construir sobre elas uma narrativa contemporânea em que não haja personagens envilecidos nem valorizados.

O que não pode acontecer, neste caso finamente analisado pela Sarin, é o visitante ir a Santa Comba ver memorabilia do Professor Salazar, a sua roupinha e as botas, que, além de historicamente irrelevantes, não dão um retrato do homem nem da época. Se é para fazer um museu, afastem-se os políticos e os historiadores-bonifácios, e coloquemos especialistas no período a trabalhar. Estou certo de que Fernando Rosas e Ernesto Castro Leal fariam um belo Museu, digno das nove Musas e não apenas das  que são simpatizantes fascistas.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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