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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

25
Nov19

O que eles inventam

Da série o acordo ortográfico não tem a culpa de tudo

Ricardo Nobre

século 18

Agora parece que se pode escrever os números dos séculos com algarismos. Mas não pode porque — ao contrário do inglês, por exemplo, que usa sempre numerais ordinais — quando se escrevem números romanos até X eles são lidos como ordinais («século I» diz-se «século primeiro») e não como cardinais («século um» está tão bem dito como «Dom Manuel Um»).

24
Nov19

Dar voz a causas

Da série morde aqui sem gaguejar a ver se eu deixo

Ricardo Nobre

Todos nós temos as nossas causas, motivos por que entramos em conversas que não nos dizem respeito para «fazer um ponto». E lutamos por elas, saímos em manifestação, lemos as notícias e comentamos nos jornais, partilhamos nas redes sociais e, claro, escrevemos sobre elas em blogues.

Nem todas as causas têm a mesma importância em si, e muito menos para cada pessoa. A causa ambiental para a jovem Greta é muito mais importante para ela do que para mim, e eu, vítima da calçada de Lisboa há duas semanas, parece que prefiro que a edilidade arranje os passeios escorregadios e cheios de poças de água do que não destrua a Tapada das Necessidades (onde se pretende abrir restaurantes, empresas, quiosques), embora já tenha intuído que, sendo um sítio sem estacionamento, lá vão as árvores à vida porque o progresso medinoso quer passar (e os respectivos esgotos).

Por tudo isso, tenho alguma dificuldade em perceber — embora perceba — porque é que a causa palestina abriu um fosso entre a direcção de um partido e a sua única deputada. Não foi a saia do Rafael nem a imperceptibilidade do discurso que Joacine Katar Moreira proferiu no Parlamento durante a sua primeira intervenção da legislatura, nem mesmo o amor posto nos 900 € de salário mínimo — tudo motivos inócuos que levaram o Livre para o topo do debate semana após semana, sem uma ideia política (a lição que tenho tirado é que é um partido de causas, e por isso pouco político). Foi a Palestina, como se Joacine fosse Israel e Rui Tavares a Palestina. Conforme diria D. Dinis num célebre cantar de amigo, yeah, right.

19
Nov19

Descartável

Ricardo Nobre

Terá sido nos últimos 40 anos, talvez, que se generalizou o uso do plástico (que veio a substituir o vidro e o barro, além do inox) e se multiplicaram as opções descartáveis, cujas vantagens não são negligenciáveis: motivos de saúde e higiene levam-nos a usar fraldas, agulhas, gazes (plural de «gaze», não de «gás») ou luvas descartáveis. Talvez seja possível fabricar esses objectos a partir de materiais mais amigos do ambiente, mas nada aconselha a que sejam reutilizados. Não sendo possível a sua esterilização, esses produtos, depois de usados, são incinerados (por vezes no próprio hospital).

Havendo, assim, muito boas razões para não abandonar o plástico, é preciso compreender que não ter loiça para lavar não é uma delas porque se baseia apenas na comodidade. E se é verdade que a comida para fora, potenciada por serviços de entrega em casa, é uma enorme comodidade a que o mundo se permite, a quantidade de lixo produzido é gigantesca. Do mesmo modo, ainda está por realizar uma estratégia ecológica na entrega de compras no Continente online, por exemplo. A prática de usar um saco para transportar apenas uma escova de dentes parece ter sido abandonada, mas o uso de plástico (para o pão e a fruta) ou cartão nas embalagens torna necessário que o cliente, logo nesse dia, precise de ir colocar o lixo nos ecopontos. A ideia de sacos emprestados (o cliente compra o saco, mas pode devolvê-los) não seria má se os sacos fossem reutilizados, mas ninguém quer tirar o pão do saco onde antes foi transportada lixívia.

E há práticas e comportamentos intoleráveis. Como já aqui foi dito, o serviço de bar do Alfa Pendular (que, para ouvir rádio e televisão, oferece auriculares descartáveis, embrulhados em plástico) é baseado em plástico. A água é vendida em garrafa de plástico e para a beber recebemos um copo de plástico, que também se oferece na venda de gasosas e cervejas; sandes e bolos vêm embrulhados num recipiente descartável de plástico; o café é bebido em copo descartável e mexido com uma palheta de plástico. Acho que só os pratos e talheres de almoços e jantares não são de plástico. Num serviço de bar numa viagem Porto-Lisboa, devem trabalhar três pessoas. A viagem não dura três horas, o serviço não é assim tanto (porque, vendendo produtos que normalmente se encontram nas máquinas de venda automática, cobram o preço do bar do Ritz), mas ninguém fica com loiça para lavar.

Enfim, há descartáveis que são apenas cómodos, e esses são os que devem ser descartados. Há descartáveis necessários, e esses devem ser repensados para que se tornem amigos do ambiente.

13
Nov19

O problema da educação

Da série toma lá um curso sem saberes nada

Ricardo Nobre

não é a quantidade enorme de aulas, extensão dos programas, desmotivação, desautorização nem falta de preparação científico-pedagógica dos professores (que não têm incentivos para formação contínua);

e nada tem que ver com um ambiente doméstico de desvalorização da educação, potenciado por falta de emprego de licenciados, mestres e doutores:

é reter um aluno num nível de escolaridade quando ele não atingiu os mínimos necessários para progredir na sua formação.

Falta cumprir-se Portugal, e a política é a responsável por isso.

03
Nov19

Os bonecos

Da série cada um veste o que quer, mas se é para ficar mal mais vale não usar.

Ricardo Nobre

A vida aqui na internet é palavra, imagem, som, movimento, bonecos, permitindo uma interacção e dinâmica que nenhum dos meios tradicionais admitia. Por isso, as rádios e os jornais tradicionais foram fazendo das plataformas online algo que saiu do seu meio (o som, a palavra, com algumas imagens). Mas agora os vídeos (todos têm opinião dada para uma câmara), os sons (todos têm podcasts), as imagens (todas as notícias têm uma fotografia de arquivo, usadas ad nauseam) têm de estar em todo o lado e até fica mal publicar um texto sem ilustração. Não diria que a palavra ficou a perder, mas a verdade é que a imagem cria ruído quando para ilustrar a notícia da agressão a bombeiros em Borba se usa uma fotografia da urgência do Hospital de Faro (ainda fui ler se poderiam ter sido transferidos para lá [!!], mas as vítimas foram atendidas em Estemoz) ou para se falar da fiscalização de elevadores (para pessoas) se usa uma fotografia dos elevadores dos livros da Biblioteca Nacional. Há uns tempos, uma notícia sobre o Hospital de Almada também era ilustrada pela entrada do Hospital de Faro.

A menos que se trate de algo que seja preciso ver ou que queiram mesmo mostrar (uma obra, um acidente, a cara de um ministro ou o rosto das vítimas da agressão), talvez não fosse mal pensado não ter pressa em publicar bonecos meramente ilustrativos.

01
Nov19

«Novembro»

Da série haverá sempre poesia para ti

Ricardo Nobre

«A respiração de Novembro verde e fria

Incha os cedros azuis e as trepadeiras

E o vento inquieta com longínquos desastres

A folhagem cerrada das roseiras»

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia (1967). Citado de Obra Poética, ed. Carlos Mendes de Sousa (Lisboa: Caminho, p. 475).

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

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