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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

23
Dez19

Se mais geringonça houvera lá chegara

Da série a língua não começou ontem às três da tarde

Ricardo Nobre

Continua no Público o mito de que a «expressão “geringonça” em contexto político é de facto da autoria de Pulido Valente». Talvez fosse conveniente, mesmo a jornalistas experientes, reler José Rodrigues Miguéis, O Milagre Segundo Salomé: «o problema é essencialmente económico, mas tudo depende da família política. Se não for dentro da geringonça parlamentar, há que ir buscá-la fora dela». E aqui, como por milagre, temos num romance publicado em 1974 a «expressão “geringonça” em contexto político». Eu sei que não interessa quem foi o primeiro, o que interessa é quem é percepcionado como sendo o primeiro, mas os mitos e a falta de leitura não estão de acordo com a retórica do jornalismo de rigor (a que se juntou uma retórica pedinchona — a expressão não é de minha autoria, porque surge já no século XVIII). O mundo não foi inventado nestas duas décadas só porque foram as que melhor conhecemos.

13
Dez19

A ficção da escrita ou a escrita de ficção

Da série a verdade não existe, a mentira também não

Ricardo Nobre

Disse noutro lugar que a criação de um blogue (confessional, documental, diarístico, humorístico, sobre tudo e sobre nada) é sempre um acto ficcional e fiquei a pensar que deveria reflectir aqui sobre isso.
A vida de quem escreve não são as palavras que publica (na internet ou noutro lado); embora os textos possam traduzir sentimentos mais ou menos genuínos, a transposição de um sentimento para palavras, a sua organização em frases, em textos mais ou menos curtos são uma ficcionalização (ou seja, uma representação, uma mimese1). Quando se escrevem diários (que nunca supõem não terem leitor, mesmo que o jurem) também se selecciona informação do que se regista e, notoriamente, essa reflexão é subjectiva porque está sob um ponto de vista de um sujeito (um mesmo objecto ou facto são percepcionados por pessoas diferentes de formas diferentes).
Em cima disto, a vida fora da rede é assim também, todos criamos uma persona para enfrentar o mundo. Essa persona tanto pode ser uma personagem mais ou menos frágil, corajosa, impertinente, estúpida e avassaladoramente erudita como simplesmente aborrecida. Mas cada uma destas características pode ser mais ou menos atraente, de acordo com a percepção de quem a lê (ou de quem lida com ela). Os blogues reflectem isso: independentemente do propósito com que se criam, estas páginas publicam textos que representam o dia-a-dia de alguém (com informação sobre filhos, pais, colegas de trabalho, pessoas com quem convivem quotidianamente), as suas viagens, percepções do quotidiano na sociedade e na política, avaliações do desempenho de serviços públicos e privados. Alguns divulgam impressões de leitura2, o modo como vivem a vida, por vezes com desafios interessantes, com uma espécie de activismo.
Além de tudo, escrever é uma arte que a alguns (como a mim) é custosa. Gosto de tudo no sítio, o lugar de cada vírgula é pensado com o mesmo esforço com que procuro a palavra certa para dizer a coisa certa (é um exercício de tradução de pensamento em palavra, ou seja, repito, mimese, representação, ficção). Não venho para este liceu reclamar nenhuma condição para mim (acho que nunca disse a minha profissão, nunca falei em problemas de saúde, familiares e outros; só falo de transportes públicos, mas ninguém sabe que também tenho carta, ando de carro e que sei o Código da Estrada; aqui ninguém sabe se fumo, me drogo ou se bebo vinho — talvez apenas o Pedro se lembre de uma resposta minha a este propósito há uns tempos). Sou um como os outros e, neste ambiente online, é isso que gostaria de continuar a ser.
E agora, se tudo o que eu acabo de dizer é ficção? Não sei, mas também sei que ninguém tem nada que ver com isso. É a beleza do ser humano, da literatura, da palavra.

Gaudeamus igitur. E boas festas!

 

1 O mesmo acontece quando vemos uma fotografia de um monumento ou um directo da televisão: não estamos a ver o monumento, mas uma representação dele ou a olhar para a televisão, que reproduz por ondas hertzianas imagens com movimento de outro local qualquer que não a nossa sala.

2 Eu próprio gostaria muito de escrever mais vezes sobre livros. Leio, fora o que me é obrigatório ler diariamente, cerca de dois por semana. Era boa matéria para tratar no blogue? Era. Criaria polémica todos os dias com trolls e lesmas? Certamente, pois, apesar de eu dizer que só leio autores mortos, tenho uma pulsão sadomasochista que me faz ler autores vivos. Literatura e ensaio, portugueses e estrangeiros. Premiados e não-premiados. Uns bons e outros maus (imagine-se se eu viesse dizer mal de uma autora que depois se procura a si própria na internet para me vir insultar).

12
Dez19

Circo

Da série vem aí o Natal

Ricardo Nobre

Já não deve faltar muito para que o dinheiro público seja utilizado para ligar a estação de caminho-de-ferro de Benfica à gare do Oriente. Tudo a favor da mobilidade e do uso de transportes colectivos, mas essa ligação já existe e chama-se Linha de Sintra (cujos comboios terminam no Oriente, havendo alguns, em hora de ponta, que vão para Alverca; a partir de Sete Rios — a estação que se segue a Benfica —, há ainda os comboios de Alcântara-Terra para a Castanheira do Ribatejo). Mais comboios, pontualidade e melhor interface com o Metropolitano e a Companhia Carris de Ferro (cujas paragens estão afastadas das estações, sendo preciso o utente fazer travessias rodoviárias) era algo que custaria menos dinheiro mas teria menos charanga.

06
Dez19

A moda Joacine

Da série jornalistas fora daqui quando não me convém

Ricardo Nobre

Se Joacine Katar Moreira tem críticas a fazer a Israel, Israel tem muito para aprender com Joacine e, como sempre em muitas destas situações, muito mais é o que os une do que aquilo que os separa. Em concreto, o facto de jornalistas portugueses (apesar de parcos em acompanhamento de assuntos internacionais, mas bons a acompanhar o cosmopolita a passar férias na província) não terem podido estar no encontro entre o secretário de Estado norte-americano e o primeiro-ministro israelita, tal como não puderam acercar-se da deputada que os mesmos jornalistas elevaram a estrela, porque precisa de descansar depois de brilhar para a Aljazira.

Este assunto é tão importante como se eu encontrar alguém conhecido numa estação de caminho-de-ferro (como ontem) obrigasse à presença do presidente da CP.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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