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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

30
Mar20

Ir ao dicionário não chega

e consultar dicionários não demonstra conhecimento

Ricardo Nobre

O Público colocou no seu acompanhamento de notícias relacionadas com a pandemia de coronavírus uma ligação para um documento pdf no qual um filólogo reunia informação sobre a origem da palavra «coronavírus». Nada de novo: já se sabia que era uma forma composta de corona (mas não do acusativo, como ali se diz… as palavras que entram por via erudita vêm do nominativo, ó Cícero e Nero!) e virus (sobre este não se escreve que veio do acusativo — pelo menos isso, até porque o nominativo é igual ao acusativo, e o vírus não saberia qual escolher).

Só que o especialista limitou-se à nobre tarefa de consultar dicionários, e não a doutrina. E assim verificou que o elemento de ligação deveria ser «o», que no caso de coronavírus eliminaria o «a» (criando na sua imaginação a sugestiva palavra «coronovírus»). E seguem-se exemplos, numa lista que junta apenas compostos grego-latinos e compostos gregos. Nenhum exclusivamente latino. Não diz o nosso amigo filólogo — porque nunca o problematizou — que os compostos gregos têm «o» na ligação (há excepções, como «parquímetro»), mas não os compostos latinos, que simplesmente se aglutinam (como acontecia na língua de onde procedem).

Assim, é de pedir que se retire o documento do site do Público porque induz os leitores mais suceptíveis em erro. E já basta de informação ficcional.

Senhor(a) leitor(a), mantenha-se em casa e lave as mãos com regularidade.

29
Mar20

A Arte de Automatizar a Pandemia

Da rubrica vamos todos ficar bem (em casa)

Ricardo Nobre

Atribuo grande parte dos desmandos da população sobre as vantagens de se manter em casa durante a pandemia do coronavírus a um certo jornalismo sensacionalista que em cada assunto relativamente irrelevante tem exacerbado emocionantemente as paixões dos consumidores de informação. A esses meios de comunicação social falta uma fleuma objectiva e desinteressada, pois as histórias divulgadas não valem pelo facto em si, mas capitalizam o enredo de forma a manter a atenção do telespectador. Quando surgiram as primeiras notícias de infecção pelo novo coronavírus, os jornalistas andavam numa fona à procura de casos em Portugal: os suspeitos eram todos relatados e até se fez de um portuguesinho residente no estrangeiro uma espécie de herói nacional, com direito a entrevistas via Skype, tendo mesmo havido espaço a entrevistas à família, com directos e debates especiais.

O mesmo acontece diariamente em certos programas da manhã com rubricas de assuntos criminais.

Isto não é só encher o vazio espaço informativo: é a apologia do vazio, mas pelos vistos as audiências (e os rendimentos que delas provêm) justificam tudo. Perversamente, porém, os telespectadores com menos discernimento acabam por interiorizar que estas são acções banais (de que não estará completamente ausente o aproveitamento de determinadas forças políticas a que se vem chamando «populistas») e, por isso, a que se não deve dar importância.

Alegoricamente, trata-se da materialização da famosa fábula do moço que tantas vezes anunciou o lobo que, quando o lobo veio, já ninguém acreditou. Depois de tanto alarme, é natural que a população não tenha dado o real valor ao que está a acontecer. Desta vez, o lobo veio e vivemos verdadeiramente um momento único da nossa história.

A infiltração silenciosa do coronavírus no nosso organismo é um facto, tal como a a propagação sem limites de um vírus com elevada taxa de letalidade pelo mundo inteiro.

Senhor(a) leitor(a), mantenha-se em casa e lave as mãos com regularidade.

18
Mar20

Estado de alerta, quase emergência

Da série Lisboa para vir ver e não para viver

Ricardo Nobre

Vivemos tempos estranhos e ao mesmo tempo não reprimo a expressão da ideia de que é um tempo fascinante. Não pelo medo, cuidados connosco e com os outros, mas pela consciência de que esta é uma experiência histórica, irrepetível (pelo menos, quero crer, no nosso tempo de vida) e única.

A cidade onde vivo não está vazia, mas é como se estivesse. Nas ruas e nos transportes, apenas encontro as pessoas que precisam de sair de casa (muitos estrangeiros residentes), a maioria de máscara. A burguesia aquartelou-se, e até o Jardim da Estrela ontem à tarde estava praticamente despovoado. Acabaram as festas, em público e em privado, não há grupos de pessoas, que circulam ou sozinhas ou em pares.

Jardim da Estrela (Lisboa), dia 17 de Março de 2020, pelas 16h30

A entrada e a saída dos veículos (autocarros e eléctricos) da Companhia Carris fazem-se pela porta de trás (para proteger o tripulante de contactos desnecessários), não é preciso validar o título de transporte, cuja venda a bordo está suspensa e os veículos param em todas as paragens para que não seja preciso accionar o botão de STOP.

No Metropolitano (que circula praticamene vazio, mas sempre com seis carruagens), os canais onde antes, quando havia hora de ponta, se aglomeravam centenas de pessoas em fila, que precisavam de colocar a mão no sensor para passar, estão abertos.

Metro de Lisboa à chegada ao Marquês de Marquês de Pombal (linha amarela) no dia 17 de Março de 2020

Canais de acesso ao Metro (estação de Entrecampos, linha amarela) dia 17 de Março de 2020

A CP anunciou hoje a supressão de vários comboios, em todos os serviços, dado que muitos circulam vazios. Mas pela primeira vez, para sair do comboio, quem entra afasta-se e não afunila quem sai.

Comboio suburbano de Lisboa no dia 17 de Março de 2020

No autocarro, eléctrico, comboio e no metropolitano, ninguém se senta ao pé de ninguém, ninguém fala, a distância, a não ser do vírus. Ainda há quem ache que é exagero, outros pensam que é pouco e que todos deveriam estar em casa (mas estão ali, dentro de um transporte colectivo).

No céu, apenas pombos, gaivotas e melros, além das moscas. Os aviões são poucos e o ruído não perturba a tranquilidade diurna nem o sono à noite.

As idas à rua são rápidas como Aquiles de pés velozes e cada vez mais raras. Numa grande avenida de Lisboa, estão as lojas quase todas fechadas, incluindo frutaria, cafés, restaurantes, oficinas, lojas de decoração. Mantêm-se (provavelmente até hoje) outros cafés, lavandaria, a loja de conveniência e cabeleireiros e barbeiros. Longe daqui, museus, escolas, universidades, monumentos, muitas outras lojas e cadeias de lojas simplesmente fechadas «devido à situação do nosso país».

O perigo dá medo, mas ao mesmo tempo multiplicam-se e partilham-se, graficamente e em línguas vivas e mortas, brincadeiras sobre papel higiénico, lavagem das mãos e permanência em casa.

Nunca poderia imaginar que era preciso uma pandemia para que Lisboa voltasse a ser uma cidade boa para viver.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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