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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

15
Jun20

Algo maior do que a Ilíada

Ricardo Nobre

Se Virgílio é um dos grandes escritores da história da Humanidade e a Eneida a sua principal obra, então pode assumir-se que a Eneida é uma obra maior do património literário do planeta.

Eneida

Depois da destruição de Tróia pelos exércitos gregos, mulheres e homens troianos foram mortos, capturados ou vendidos como escravos. Houve, todavia, um grupo que conseguiu escapar, talvez por o seu líder ser semidivino. Eneias, filho de Vénus (a deusa que protegeria os marinheiros portugueses na sua primeira viagem marítima até à Índia), foge de Tróia levando o pai, Anquises, às cavalitas, o filho e os deuses tutelares da cidade (já não teve mãos para salvar a mulher, Creúsa).

Lá vão eles num barquinho que, depois de morrer Anquises e sobrevivendo a ventos e tempestades (suscitados pelos deuses, cujo desentendimento tem sempre influência no destino dos homens), aporta no norte de África, onde testemunham a construção de uma grande cidade e civilização, que iria dominar o Mediterrâneo durante algum tempo. Eneias conhece aí a rainha, de origem fenícia, Dido, que está a fundar Cartago; oferecem-se prendas de e pela hospitalidade (era um turismo mais familiar). Com a ajuda da mãe de Eneias, Vénus (que tem poderes sobre esses assuntos), Dido enamora-se daquele troiano e oferece-lhe a honra e Cartago, acabada de estrear. Eneias, porém, depois de contar a sua história em ricos e deliciosos banquetes, recebe ordens divinas para fazer o que lhe compete e lhe foi destinado: rumar a Itália, pois é lá que deve fundar uma nova civilização. Bem mandado, mal-educado e péssimo namorado, parte com os companheiros pela calada, sem nada dizer a Dido. Quando esta percebe que foi abandonada, usa um punhal que Eneias lhe oferecera para se matar. Isto simboliza que ele próprio lhe provoca as golfadas de sangue. O nosso Correia Garção escreveu sobre isto uma cantata, recitada na peça Assembleia ou Partida. Bocage comporia um poema em que defende que não foi Eneias quem provocou a morte de Dido, mas sim a sua castidade (ela tinha já sido casada e, para evitar entregar-se ao irmão, fugiu e foi por isso que estava a fundar uma cidade nova) e a purificação da sua honra.

Antes de aportar no local destinado, Eneias teve tempo para passear um bocado, sendo-lhe permitida, como só aos heróis deste tempo, ir ao reino dos mortos. A ideia era falar com Anquises, o falecido pai, mas, antes de o encontrar, Eneias topa com… Dido, evidentemente. Se, no momento da morte, Dido dirigira a palavra a Eneias ausente, num monólogo que vale três literaturas, agora Eneias tenta meter conversa, e Dido responde com um silêncio que vale sete literaturas. Volta-lhe as costas e vai ter com o primeiro marido morto (mais um casal de amorosos que só a morte pôde juntar).

Por fim, Eneias fala com o pai, ou melhor, Anquises fala com Eneias. As suas palavras estão carregadas de simbolismo político, mas ao mesmo tempo são uma gema literária. Ao filho, Anquises prevê a fundação de um poderoso império, que pode não ser o melhor em termos culturais, científicos, artísticos, mas é certamente excelente na arte militar, na cultura diplomática e na ciência da submissão do inimigo. Além disso, será clemente e saberá poupar os vencidos.

De novo debaixo do Sol, Eneias lá chega a Itália. Nas imediações do sítio onde se devia fundar uma cidade, junto ao Tibre, existia um civilizado aldeamento, cujo rei era Latino, que faz a Eneias uma visita guiada pelos sítios mais pitorescos. Claro que Latino tinha uma filha, e Eneias, duas vezes viúvo, aceita mais esta noiva (Lavínia, chamava-se a moça). Acontece que ela já estava prometida a outro (Turno, um jovem da zona)… mas não houve problema porque Eneias, filho da deusa do Amor, era igualmente um grande guerreiro (embora na Ilíada tenha perdido todas as batalhas em que entrou — só sobreviveu porque os deuses o retiraram da luta) e tinha excelentes armas (forjadas por ninguém menos do que o seu padrasto, Vulcano, um pobre deus que viria a dar nome a uma marca de esquentadores).

Há ainda muitas escarmuças e acontecimentos que não foram nem serão aqui contados (Niso e Euríalo, Camila…), mas é preciso dizer, ainda, que Turno matou Palante, um grande amigo de Eneias, filho de Evandro (equivale, mais ou menos, à morte de Pátroclo na Ilíada, que é o acontecimento que determina a reentrada de Aquiles na luta, para vingar a morte do amigo).

Eneias já está pronto para combater contra Turno. Tem umas armas novinhas em folha e muito treino (aquilo da guerra de Tróia parecia a formação dos comandos — e Eneias lutara com Aquiles, que matara Heitor, o melhor dos Troianos), por isso é sem surpresa que vence Turno. Prostrado, derrotado, Turno pede clemência a Eneias, que está inclinado a conceder-lha.

 

Para saber o resto da história (o fim e o muito que pelo meio ficou por dizer), deverá o/a leitor(a) ler a nova tradução da Eneida, acabada de publicar pelos sempre estimáveis Livros Cotovia. A tradução, em verso, é de Carlos Ascenso André, professor aposentado da Universidade de Coimbra.

 

P.S.: O título deste texto é uma citação do poeta latino Propércio, que escrevia a propósito da composição da Eneida.

01
Jun20

Um escritor

Ricardo Nobre

— Se ele tinha inteligência — disse António Joaquim — fizesse­-­se escritor.
Ouvido isto, benzi­-me, pus os olhos no céu, e disse:
— A providência divina houve por bem endoidecê-­lo pelos processos ordinários da loucura vulgar, antes de lhe incutir a loucura extraordinária de fazer­-se escritor em Portugal. Que paradoxo! A inteligência do teu amigo não lhe abriu as portas do funcionalismo público? Não: pois bem; faça-­se dessa inteligência alguma coisa! Um escritor — o derradeiro mester em que pode ser aproveitado esse raio luminoso do coração de Deus!…
Ó meu amigo, o máximo favor que um português pode receber do céu é endoidecer, na véspera de fazer-­se escritor público!*

Faz hoje 130 anos que morreu Camilo Castelo Branco (1825-1890).

 

* Cito Vinte Horas de Liteira (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, pp. 218-219)

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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