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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

29
Mar20

A Arte de Automatizar a Pandemia

Da rubrica vamos todos ficar bem (em casa)

Ricardo Nobre

Atribuo grande parte dos desmandos da população sobre as vantagens de se manter em casa durante a pandemia do coronavírus a um certo jornalismo sensacionalista que em cada assunto relativamente irrelevante tem exacerbado emocionantemente as paixões dos consumidores de informação. A esses meios de comunicação social falta uma fleuma objectiva e desinteressada, pois as histórias divulgadas não valem pelo facto em si, mas capitalizam o enredo de forma a manter a atenção do telespectador. Quando surgiram as primeiras notícias de infecção pelo novo coronavírus, os jornalistas andavam numa fona à procura de casos em Portugal: os suspeitos eram todos relatados e até se fez de um portuguesinho residente no estrangeiro uma espécie de herói nacional, com direito a entrevistas via Skype, tendo mesmo havido espaço a entrevistas à família, com directos e debates especiais.

O mesmo acontece diariamente em certos programas da manhã com rubricas de assuntos criminais.

Isto não é só encher o vazio espaço informativo: é a apologia do vazio, mas pelos vistos as audiências (e os rendimentos que delas provêm) justificam tudo. Perversamente, porém, os telespectadores com menos discernimento acabam por interiorizar que estas são acções banais (de que não estará completamente ausente o aproveitamento de determinadas forças políticas a que se vem chamando «populistas») e, por isso, a que se não deve dar importância.

Alegoricamente, trata-se da materialização da famosa fábula do moço que tantas vezes anunciou o lobo que, quando o lobo veio, já ninguém acreditou. Depois de tanto alarme, é natural que a população não tenha dado o real valor ao que está a acontecer. Desta vez, o lobo veio e vivemos verdadeiramente um momento único da nossa história.

A infiltração silenciosa do coronavírus no nosso organismo é um facto, tal como a a propagação sem limites de um vírus com elevada taxa de letalidade pelo mundo inteiro.

Senhor(a) leitor(a), mantenha-se em casa e lave as mãos com regularidade.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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