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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

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Antes de Entrar Aristóteles

14
Mar18

A expansão do Metro e o estado da rede ferroviária

Ricardo Nobre

defendi neste espaço que, para tomar decisões respeitantes aos transportes, seria importante ouvir a parte mais interessada, os passageiros. Quando se lêem os planos de «expansão» do Metropolitano de Lisboa, não se pode deixar de pensar como é possível que os gestores de uma empresa — que não consegue ter as escadas rolantes da estação do Rato a funcionar (ver imagem e lembrar que está assim há anos) ou cujas estações que servem os dois principais hospitais de Lisboa (Santa Maria e São José são servidos pelas estações da Cidade Universitária, amarela, e Martim Moniz, verde) não tem acesso a pessoas de mobilidade reduzida —, com o apoio dos políticos (que não se podem deixar representar por Renaults Clios), decidam gastar o dinheiro dos contribuintes não a fazer uma expansão, mas a criar a ilusão de que o metro funcionaria melhor se fosse uma linha contínua e circular. Se for circular, não é preciso esperar dez minutos pelo próximo comboio, mas sobram dúvidas: sem ser os turistas, quem vai precisar de uma linha circular? Quem vem de fora da cidade. Quem vem de fora? Quem precisa de fazer dois ou três transbordos. Qual a dificuldade de fazer circular comboios com destinos alternados? Entre o Cais do Sodré e Odivelas, ou entre o Rato e Telheiras? Na CP, acontece a mesma coisa. Porque não haverá comboios do Rossio para Sintra e para a Azambuja em vez de irem apenas para Mira-Sintra? Porque não há comboios entre a Azambuja e Sintra? Ou Alcântara-Terra e Sintra? Alternadamente, de acordo com horários que não sejam apenas adequados aos trabalhadores da CP e da Infra-estruturas de Portugal, mas a todos os que pagam uma assinatura mensal para usar transportes sujos, barulhentos e atrasados?

Rato.jpg

Não me quero lembrar da frequência com que as linhas do metro estão com «perturbações» para não dizer que toda a estrutura circular irá colapsar quando um comboio se avarie, haja algum «incidente com passageiros» ou problemas na sinalização. Se houvesse um responsável pelo controlo de tráfego em todas as estações, quando a sinalização automática deixa de funcionar, haveria o telefone a controlar as saídas (o mesmo para os comboios, até porque em Lisboa há estações em que continua a ir o responsável dar o sinal de partida por não haver semáforos). Não há pessoal, e o que há está a ver utilizadores informais a saltar as cancelas (o metro funciona melhor com as cancelas? quanto custa a sua manutenção e porque não se volta ao sistema antigo, em vigor, aliás, no Porto?).

A definição de prioridades na gestão dos transportes deixa-me sempre surpreendido: a Infra-estruturas de Portugal fez um elevador num pilar da Ponte 25 de Abril, e há dias soube-se que a ponte propriamente dita apresenta fissuras que é urgente reparar. A rede ferroviária, diz o Público, está degradada e obsoleta (incluindo carris, sinalização e catenárias, onde existem). A linha de Cascais é uma vergonha nacional. Ainda assim, os trabalhadores das Infra-estruturas de Portugal decidiram que têm motivos para fazer greve. É um dos curiosos casos em que quem devia fazer greve para eles desaparecerem éramos nós, utentes das auto-estradas ou da rede ferroviária (é tão bonito o edifício de Braço de Prata, mas não sei se não preferiria que o dinheiro fosse gasto numa solução para a estação de Alcântara-Mar, onde funciona uma cloaca).

Porque é que as prioridades na gestão da rede do metro não implica que ele chegue a Campolide e Campo de Ourique, onde há aglomerados populacionais com um péssimo serviço de transportes públicos? (A estação da CP de Campolide é no meio do nada.) Não sou favorável a que haja metro em Alcântara porque a prioridade em Alcântara deveria ser a ligação (ferroviária) entre a linha de Cascais e a de Cintura (ligações com Azambuja, Sintra e Setúbal, passando nas estações de Sete Rios [ligação com a Rede Expressos e linha azul do metro], Entrecampos [com a linha amarela], Roma-Areeiro [linha verde], Oriente [linha vermelha]). Depois é preciso garantir que a modernização da linha de Cascais inclua a possibilidade de haver comboios para Alcântara-Terra (ou para o Oriente). A linha está lá, mas atravessa ruas e avenidas (actualmente é apenas usada por mercadorias para e do Porto de Lisboa). Que solução têm os «engenheiros» para isso? Falou-se em fazer uma estação subterrânea em Alcântara-Terra, mas será necessário gastar todo esse dinheiro quando a actual está subaproveitada e tem espaço mais do que suficiente para linhas e plataformas para mais comboios e mais passageiros (a ligação com a Carris e os TST também existe)?

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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