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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

13
Dez19

A ficção da escrita ou a escrita de ficção

Da série a verdade não existe, a mentira também não

Ricardo Nobre

Disse noutro lugar que a criação de um blogue (confessional, documental, diarístico, humorístico, sobre tudo e sobre nada) é sempre um acto ficcional e fiquei a pensar que deveria reflectir aqui sobre isso.
A vida de quem escreve não são as palavras que publica (na internet ou noutro lado); embora os textos possam traduzir sentimentos mais ou menos genuínos, a transposição de um sentimento para palavras, a sua organização em frases, em textos mais ou menos curtos são uma ficcionalização (ou seja, uma representação, uma mimese1). Quando se escrevem diários (que nunca supõem não terem leitor, mesmo que o jurem) também se selecciona informação do que se regista e, notoriamente, essa reflexão é subjectiva porque está sob um ponto de vista de um sujeito (um mesmo objecto ou facto são percepcionados por pessoas diferentes de formas diferentes).
Em cima disto, a vida fora da rede é assim também, todos criamos uma persona para enfrentar o mundo. Essa persona tanto pode ser uma personagem mais ou menos frágil, corajosa, impertinente, estúpida e avassaladoramente erudita como simplesmente aborrecida. Mas cada uma destas características pode ser mais ou menos atraente, de acordo com a percepção de quem a lê (ou de quem lida com ela). Os blogues reflectem isso: independentemente do propósito com que se criam, estas páginas publicam textos que representam o dia-a-dia de alguém (com informação sobre filhos, pais, colegas de trabalho, pessoas com quem convivem quotidianamente), as suas viagens, percepções do quotidiano na sociedade e na política, avaliações do desempenho de serviços públicos e privados. Alguns divulgam impressões de leitura2, o modo como vivem a vida, por vezes com desafios interessantes, com uma espécie de activismo.
Além de tudo, escrever é uma arte que a alguns (como a mim) é custosa. Gosto de tudo no sítio, o lugar de cada vírgula é pensado com o mesmo esforço com que procuro a palavra certa para dizer a coisa certa (é um exercício de tradução de pensamento em palavra, ou seja, repito, mimese, representação, ficção). Não venho para este liceu reclamar nenhuma condição para mim (acho que nunca disse a minha profissão, nunca falei em problemas de saúde, familiares e outros; só falo de transportes públicos, mas ninguém sabe que também tenho carta, ando de carro e que sei o Código da Estrada; aqui ninguém sabe se fumo, me drogo ou se bebo vinho — talvez apenas o Pedro se lembre de uma resposta minha a este propósito há uns tempos). Sou um como os outros e, neste ambiente online, é isso que gostaria de continuar a ser.
E agora, se tudo o que eu acabo de dizer é ficção? Não sei, mas também sei que ninguém tem nada que ver com isso. É a beleza do ser humano, da literatura, da palavra.

Gaudeamus igitur. E boas festas!

 

1 O mesmo acontece quando vemos uma fotografia de um monumento ou um directo da televisão: não estamos a ver o monumento, mas uma representação dele ou a olhar para a televisão, que reproduz por ondas hertzianas imagens com movimento de outro local qualquer que não a nossa sala.

2 Eu próprio gostaria muito de escrever mais vezes sobre livros. Leio, fora o que me é obrigatório ler diariamente, cerca de dois por semana. Era boa matéria para tratar no blogue? Era. Criaria polémica todos os dias com trolls e lesmas? Certamente, pois, apesar de eu dizer que só leio autores mortos, tenho uma pulsão sadomasochista que me faz ler autores vivos. Literatura e ensaio, portugueses e estrangeiros. Premiados e não-premiados. Uns bons e outros maus (imagine-se se eu viesse dizer mal de uma autora que depois se procura a si própria na internet para me vir insultar).

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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