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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

04
Jun17

A rotina

Ricardo Nobre

http://www.keepcalmandcarryon.com/history/

O romance Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto (Mário de Carvalho, 1995 (1)) tem como história paralela à intriga principal a ascensão (rápida e sem queda) de Eduarda Galvão: de empregada de uma loja a jornalista de referência. O narrador (que acumula o papel de autor) expõe o ridículo das circunstâncias de uma pessoa intelectualmente não preparada (a sua única formação é a «universidade» do Bairro Alto) conseguir exclusivos consecutivos: com um escafandrista francês (sem saber a língua), uma entrevista com Agustina Bessa-Luís (sem conhecer a escritora) ou a história inédita de um homem que mordeu um cão («aconteceu»: p. 110; cf. pp. 118-126 134). Não é apenas a sorte (ou a graciosidade) que ajuda a sua carreira; por trás do sucesso de Eduarda Galvão está um antigo professor seu, Jorge Matos, que transforma em material publicável as histórias que a ex-aluna lhe leva (ironicamente, Jorge nunca publicaria nenhuma das suas peças). Numa cena em que as duas personagens interagem (e que julgo que é o início do seu afastamento), Eduarda pergunta a Jorge qual é o seu signo. A reacção de Jorge é um dos momentos antológicos da obra de Mário de Carvalho. O professor indigna-se (p. 199):

Atreves-te a falar no Zodíaco em minha casa, quatrocentos anos depois de Pico della Mirandola! (2) Atreves-te a negar milhares de anos de civilização que custaram muito a ganhar, ouviste?

A civilização em causa não teve uma ascensão constante nem rápida como a de Eduarda Galvão. Teve muitos sobressaltos e retrocessos, como a história do século xx mostra: em cem anos, a Europa pôs em causa toda a sua história, mas, nesse mesmo intervalo de tempo, reconstruiu-se, reformou-se e ficou em paz (como recordava George Steiner na revista E de ontem).

Com os atentados à civilização ocidental — de que o Zodíaco é uma projecção mínima e as acções terroristas uma projecção máxima (bem como a negação das alterações climáticas e do Holocausto) —, o espaço mediático enche-se de especialistas, opinadores e fundamentalistas. A mensagem dominante, fora o pesar com as vítimas, é a da superioridade da democracia e do estoicismo britânico (“Carry on”). Diante do terrorismo, a Europa levanta-se e continua a erguer os ideais que «custaram muito a ganhar» ao longo de «milhares de anos de civilização». Há quem defenda que não se deve falar dos acontecimentos para não lhes dar demasiada importância. Alguns entendem que o aumento de medidas de segurança e o cancelamento de eventos que mobilizam multidões é uma cedência aos terroristas. Outros alertam para o medo que estas acções provocam (que não se pode comparar com o medo de o mundo acabar no ano 2000), mas também dizem que agora matam menos que os grandes atentados do 11 de Setembro (quando as vítimas não somos nós ou a nossa família são sempre apenas pequenos números).

Ao medo de atentados soma-se o pânico da ascensão de (partidos) políticos que apresentam uma solução imediata: fechar fronteiras, expulsar o estrangeiro e atacar o inimigo na sua casa. Negando a hipótese de escolha (o acto), esses partidos recusam aceitar que há coisas que não se escolhem (a essência [da nacionalidade, como outras determinações que não se escolhem, como a cor da pele ou o sexo]), propondo acções terroristas aplicadas aos outros para responder a actos praticados nos nossos. Se não aprendemos «absolutamente nada» com a História (outra vez George Steiner), saibamos ler Platão, Aristóteles, Spinoza, Locke ou Hume para que a nossa opinião não se alicerce em juízos precipitados e impressões do momento.

Afinal, a lição da Europa civilizada é esta: a memória não se apaga.

(1) Referências da edição Porto: Porto Editora, 2014.

(2) Recorde-se, a este propósito, que Pico della Mirandola (1463-1494) foi autor das Disputationes adversus astrologiam divinatricem (em linguagem portuguesa: Discussões contra a astrologia da adivinhação).

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

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