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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

08
Ago19

Bibliotecas de memórias

Ricardo Nobre

Há muito tempo que este liceu não fala de bibliotecas, mas um texto da Rapariga do Autocarro fez-me lembrar que é preciso fazer lembrar que há coisas que não podemos esquecer.

Uma biblioteca (nota erudita: do grego bibliothéke, «lugar [théke, “caixa, cofre; túmulo”] para livros [bíblos, “interior do papiro, rolo de papiro; escrito, livro”], depósito de livros», é etimologicamente equivalente a «livraria» [palavra do latim], que também significa «colecção de livros dispostos ordenadamente; biblioteca», DLP, s.v. «livraria», 2) está para os livros como um dicionário para as palavras: o item está lá arrumado, à espera que vamos ter com ele.

Sei que ainda existem algumas bibliotecas itinerantes, mas o meu fascínio por bibliotecas não tem que ver com carros, mas sim com paredes e estantes. Por isso, acho que um dos maiores valores que a democracia nos trouxe foi uma rede de bibliotecas públicas que cobre todo o território: em Portugal, todas as capitais de distrito têm bibliotecas municipais, cujos acesso, utilização de espaços (incluindo o parque informático) e empréstimo (de livros ou DVD) são inteiramente gratuitos. Basta formalizar uma inscrição (é necessário um comprovativo de morada ou o papel da inscrição na escola/universidade) e já está. Além disso, existem bibliotecas universitárias cujo acesso é igualmente gratuito, bem como o manuseio dos livros (imagino que para requisitar sejam necessárias outras formalidades se não houver vínculos à instituição).

Tenho várias memórias espalhadas por várias bibliotecas — não é toda a gente que planeia percursos em cidades fazendo contas para passar nas bibliotecas nacionais e locais, tão importantes como museus —, a começar pelas más.

Não me lembro de haver bibliotecas nas escolas primárias que frequentei (apenas armários numa parede, talvez), mas recordo-me bem de ter ido à biblioteca da «Preparatória» D. Afonso III (ainda hoje há cheiros que me lembram desta escola, tal não terá sido o trauma). Era uma sala à direita de quem entra na escola (à esquerda era a secretaria) pela porta principal (que os alunos não podiam usar; apenas lamento não ter tido a consciência que tenho hoje para não respeitar a estupidez desta regra). Uma sala com estantes em três paredes (a outra era a das janelas), em armários fechados. No centro, mesas para nos sentarmos, e à frente de nós, uma terrível funcionária, velhota e mal-encarada, que tinha tanto amor por livros como por crianças. Nos dois anos em que andei na actual EB 2/3 D. Afonso III, devo ter ido à biblioteca duas vezes (se não estou a inflacionar o número em 50 %).

Mas, em 1995, fui para a Pinheiro e Rosa. A escola, inaugurada um ano antes, acabava de receber o nome. Frequentei-a do sétimo ao décimo segundo ano, por isso vi-a também passar de uma escola sem acessos (era, literalmente, no meio da lama, no Inverno; no meio do pó, no Verão) nem pavilhão gimnodesportivo ao que é actualmente. Como escola estreante, a biblioteca ocupava uma salinha e o acervo bibliográfico pouco mais era que manuais escolares não adoptados ou antigos, algumas obras de referência e não me lembro de mais nada antes de, no meu nono ano, ter passado por uma sala ainda menor enquanto decorriam obras para a instalação de uma biblioteca escolar digna, na altura já com uma sala de computadores. E assim foi: o meu ensino secundário decorreu entre aulas, biblioteca e as tardes do «laré», com incursões fúnebres pelo cemitério em dias de teste de História (era a disciplina que mais nos aterrorizava e para a qual, sem dúvida, mais estudava).

Ainda que as actuais instalações não sejam do «meu tempo», lembro-me bem de ter passado parte de um mês de Agosto (no termo do qual já conhecia os leitores residentes e funcionários) na biblioteca municipal de Faro a preparar um projecto. Na verdade, a Biblioteca António Ramos Rosa abriu nas actuais instalações no momento em que eu me estava a mudar para Lisboa. De um espaço tenebroso de um convento do século XVI, não muito diferente da biblioteca da Afonso III, em que os leitores não acediam directamente aos livros, a biblioteca mudou-se para o antigo matadouro, confinando com o jardim da Alameda (a entrada principal faz-se pela Rua Carlos Porfírio, mas chegar pelo jardim é mais impactante, como se diz agora). O espaço é alegre, luminoso, amplo e com os livros em acesso livre.

Mas isso foi em 2014; mais de dez anos antes, passei de uma biblioteca que considerava boa, na Pinheiro e Rosa, para uma que iria mudar a minha vida para sempre — onde, juntando todas as horas lá passadas, faria meses ininterruptos, talvez doze, porventura mais. Em 2001 entrei pela primeira vez na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A biblioteca começara a funcionar naquele edifício (o actual) um ou dois anos antes: as bibliotecas dos departamentos, institutos e centros deixaram de estar espalhadas nas instalações da faculdade e juntavam-se à «biblioteca central» num edifício em que não se distingue sala de leitura de local onde estão os livros (embora exista, obviamente, um depósito). Ali trabalhava e estudava em mesas ao lado das estantes aonde se podia ir buscar o livro sem pedir a ninguém. Os livros acumulavam-se em cima da mesa e no fim colocavam-se nos carrinhos de apoio. E podiam ser requisitados para casa.

A minha existência naquela biblioteca tornou desnecessária a utilização de outras. Aliás, aquilo que estudava na altura não exigia outras: nas suas áreas do conhecimento, a biblioteca da Faculdade de Letras não tinha (e não tem) tudo, mas tem muita coisa, quase tudo.

Na minha vida, porém, surgiriam outras necessidades. Ainda hoje me lembro da primeira vez que entrei, leitor caloiro com o cartão acabado de fazer na mão, na sala de leitura geral da Biblioteca Nacional de Lisboa. Era a primeira de tantas horas sentado nas cadeiras do Daciano Costa. Aguentei as obras da construção da ampliação da torre dos depósitos e a péssima iluminação da sala depois de escurecer às cinco da tarde nos meses de Inverno. Além desta, ainda me lembro dos fins-de-semana e férias de Verão itinerantes pelas bibliotecas do Palácio Galveias (antes de fechar), de Belém e, sobretudo, Orlando Ribeiro, em Telheiras (a que tem secção de música e filmes). Infelizmente, apesar de o acesso não ser difícil para mim, ainda não fui à de Marvila e, desde que este liceu abriu as portas, aguardo a reabertura da biblioteca de Alcântara (da antiga, já nada existe: agora, está lá o excessivamente grande novo hospital da C.U.F., na Avenida 24 de Julho).

As bibliotecas de Lisboa (existem outras que não foram aqui mencionadas) permitem o acesso gratuito a livros (que podem ser requisitados e devolvidos em qualquer biblioteca, mesmo que venham de outros espaços), ou seja, em Portugal não há carência de pontos de acesso ao conhecimento ou à imaginação de escritores e escritoras de todo o mundo. Talvez falte interesse do conhecimento e em atribuir valor à imaginação como forma de sensibilidade. Nem o dinheiro vale tanto.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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