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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

29
Mai19

Calor, jacarandás e livros: começa hoje a 89.ª Feira do Livro de Lisboa

Ricardo Nobre

Todos os dias, eu (e certamente muitos leitores e leitoras deste espaço) sou atormentado pelo preço dos livros. Sabemos que são valiosos do ponto de vista subjectivo, mas como objecto (pasta de papel transformada em folhas, tinta e cola1) um livro não é (ou não tem de ser) precioso e muito menos um luxo. É claro que é preciso pagar a conta da luz da tipografia e o salário aos funcionários e funcionárias que lá trabalham; nas casas editoras, há que ter liquidez para os salários dos gestores (aqui não há feminino) de grandes grupos editoriais (que muitas vezes pagam mal e com recibos verdes a revisores e revisoras e a colaboradores e colaboradoras); depois ainda é preciso pagar ao autor ou à autora, a quem cabe, do preço final do livro, uma percentagem mínima.

Só que o livro também precisa de distribuição, de livrarias e de livreiros e livreiras. Mesmo que as livrarias físicas estejam a desaparecer, a verdade é que (e ninguém diz isto na internet, o que me parece contra-senso) a Wook, por exemplo, é uma excelente livraria, com um bom apoio ao/à cliente (mesmo do ponto de vista da sugestão). E lá também se paga à pessoa que insere os dados dos livros na loja (embora quem dá as ordens ainda não tenha percebido que é preciso indicar os nomes dos tradutores e tradutoras), responde às reclamações e solicitações dos leitores e leitoras e recolhe, empacota e envia as encomendas para os correios.

A questão do elevado preço dos livros em Portugal (que tratei noutro texto) é ainda mais interessante se se pensar que os tipógrafos, editores e autores, distribuidores e livreiros (e tipógrafas, editoras e autoras, distribuidoras e livreiras) ganham mais na França, na Itália, na Alemanha ou no Reino Unido do que os homólogos nacionais. Só que os livros são mais baratos porque os mercados têm outra dimensão — e o nosso, mesmo com acordos ortográficos com países com baixa literacia, não é apoiado pelo Estado se não for em situações pontuais. Por tudo isto, ainda não percebi bem para que serve o Plano Nacional de Leitura sem ser para colar selinhos nos livros. Senhor Estado, não me recomende o que ler, limite-se a não permitir que eu gaste uma percentagem tão significativa do meu salário num livro só (sobretudo quando tenho tantos para ler).

Tudo isto a propósito do início (que decorre neste momento) da octogésima nona Feira do Livro de Lisboa (cujo logótipo continua a escrever o A com um lamba), no Parque Eduardo VII, em Lisboa2. Adeus, conta-poupança!

1 Terá de ficar para outra ocasião uma reflexão sobre os preços altíssimos dos e-books em Portugal.

2 Recomenda-se a utilização de transportes públicos. De Metropolitano, a melhor estação é Marquês de Pombal (onde se cruzam as linhas amarela e azul) porque a do Parque tem um percurso pedonal acidentado até à feira. De autocarro da Companhia dos Carris de Ferro, há várias possibilidades: 2, 12, 20, 27, 32, 36, 38, 44, 46, 48, 53, 83 (todos com um 7 antes), com paragem no Marquês de Pombal, em vários pontos da rotunda. Se der mais jeito o 13 ou o 42, pode apear-se na paragem do Palácio da Justiça.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.