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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

10
Jun19

Camões

Ricardo Nobre

Vítor Bastos, Monumento a Camões, 1867

O feriado nacional português é hoje, 10 de Junho, o (suposto) dia da morte de Camões, em 1580.

Não se sabe onde nem quando nasceu (naquela época não havia registo civil) Luís de Camões, e na verdade pouco se sabe de concreto sobre a sua vida, que, como em muitos outros casos, sofreu a diegese fabulística e mitográfica de vários biógrafos. Mesmo o que escreveu continua um mistério. A primeira edição das Rimas é póstuma (1595) e atribui-lhe poemas que já tinham sido publicados pelo Cancioneiro Geral, compilado por Garcia de Resende em 1516 (fazendo contas, Camões pode ter nascido quanto muito em 1524). O cânone da lírica continua, aliás, um dos temas mais interessantes (e sem solução) da literatura portuguesa, e nós, leitores, aguardamos uma edição crítica e completa de todos os poemas que são atribuídos a Camões pelas diversas edições da obra, mas também pelos cancioneiros manuscritos (que eram muito usados porque em Portugal o estado sempre gostou bastante de censura).

Conhecedor da literatura italiana do Umanesimo, da tradição literária e historiográfica e literária portuguesa e da Antiguidade Clássica, Camões foi, por isso, um poeta culto: escreveu Os Lusíadas, que veio a publicar em 1572. É a obra maior da língua portuguesa, responsável por várias «respostas» (de que Mensagem, de Fernando Pessoa, 1934, será a mais conhecida, embora com contornos muito mais nacionalistas) ao longo dos séculos, e a configuração da identidade de Portugal (ao pé dele todos os outros poetas parecem menores e só Pessoa se pode aproximar da sua grandeza).

Fora a questão estética e a utilização da língua, que daquele modo se formou enquanto literatura superior, Os Lusíadas contam bem mais do que a «história de Portugal em verso»: são a expressão máxima de um povo que, tendo poder para conquistar o mundo, também o faz selvaticamente, sendo, ainda, capaz de se fechar na maior ignorância:

O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dũa austera, apagada e vil tristeza. (Os Lusíadas, 10.145)

Camões é, por isto e por muito mais, o Poeta que identifica Portugal. Bom feriado.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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