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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

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Antes de Entrar Aristóteles

08
Out19

Combater a geringonça

Ricardo Nobre

Antes do significado que hoje lhe concedemos, geringonça tinha um sentido que nas últimas décadas foi substituído por «gíria»: «linguagem inventada por gente da mesma profissão, ou parcialmente, para que ninguém os entenda, quando falam» (definição do Vocabulário Português e Latino, de Rafael Bluteau).

Sobre geringonça, portanto, fala Vítor Belanciano num texto muito interessante e que me fez lembrar outras formas de não-comunicar que deveríamos todos combater.

No entanto, nem sempre é fácil fazê-lo mesmo quando não usamos geringonça profissional. A proposta de Belanciano é obviamente oportuna, mas há áreas do conhecimento que se constroem muito para lá da linguagem corrente e cuja compreensão é árdua para não-iniciados (usando os exemplos do artigo: medicina, finanças, justiça, arte). Não que não sejam bem-vindos a esse conhecimento, mas é também verdade que um especialista labora sobre conceitos que são para ele elementares e que naturalmente usa sem se aperceber de que o interlocutor entende por aquelas palavras outra coisa. Eu próprio tenho alguma dificuldade em compreender algumas indignações que se expressam, sobretudo porque tento usar um vocabulário dominantemente português e sem esquecer a etimologia; eu próprio me apercebo de que o meu discurso por vezes não se adequa ao público a que me dirijo, acabando por ceder a simplificações e a generalizações, comparações e sinónimos, cuja utilização outra parte do meu cérebro pensa estar a simplificar e a generalizar, potenciando a imprecisão, a inexactidão e, no limite, o erro.

 

P.S. às 18h06: Acho que o destaque do Sapo pensou que o texto era sobre política nacional.

4 comentários

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    Ricardo Nobre 10.10.2019

    Fujamos sempre de quem nos fala em ablativos absolutos! No minuto seguinte ainda nos pode querer ensinar latim, o mais inútil dos conhecimentos inúteis!
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    Vorph Valknut 10.10.2019

    Agora a sério. Adoro saber a etimologia das palavras. Penso que existem duas teorias (Wittgenstein??!!). Uma que defende que elas são arbitrárias, soltas do objecto que designam, outra que sustenta que elas reflectem sempre algo de "substantivo" do "objecto"(uma teoria adâmica). E Ricardo, adorava saber latim. Quanto ao que escrevo é frequente o ritmo das palavras apossarem-se do que penso, acabando por ditar , no final, algo que não pensei. Um tipo de dança contemporânea.


    Não revi texto. A sua caixa de comentários é igual à da Sarin não permitindo com facilidade rever o que escrevi 
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    Ricardo Nobre 10.10.2019

    Não há maneira de saber como nasceram as palavras no primeiro homem que delas usou. Por isso se pensa que seja arbitrário a atribuição de um significante (a palavra) ao significado (a coisa). O que sabemos é que elas se relacionam entre várias línguas, o que permitiu criar modelos de análise da transformação de alguns sons noutros, a partir de uma língua matricial (para a Europa, temos o indo-europeu, mas há línguas como o basco que não conseguimos encaixar nesses modelos, pelo que tudo aponta para que tenham origem não indo-europeia). É uma questão em aberto (e que dificilmente terá solução).
    Quanto ao que diz num outro comentário, sim, o objectivo nasceu antes do abstracto, por derivação de sentido. Uma angústia é objectivamente um aperto na garganta, embora seja, no abstracto, outra coisa impalpável.
    Quanto à caixa de comentários, lamento, mas não posso fazer nada. Por mim, seria possível a edição, a minha e a sua.
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    título e imagem de cabeçalho

    O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
    No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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    Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.