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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

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Antes de Entrar Aristóteles

02
Mai19

Como aprender latim (a escolha do método)

Ricardo Nobre

Desde há dias, Antes de Entrar Aristóteles tem uma nova colecção na coluna dos apontadores, à direita deste texto. Philologia pretende reunir algumas questões ligadas ao conhecimento das línguas antigas, o latim e o grego, a respeito das quais escreverei pequenos textos de divulgação, sem deixar de ter cuidado com o rigor que a matéria exige. Para inaugurar a colecção, começarei do princípio: como aprender latim.

Aprende-se latim estudando latim.

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Com esta declaração, estou a defender que a aprendizagem do latim se faz como a de qualquer outra língua, ou seja, não é possível ler uma gramática e ficar apto a ler as Tusculanas de Cícero. Assim, começa-se a ler frases simples, depois algo mais complexo e por fim, eventualmente, textos literários, de especulação filosófica ou de elaboração teológica.
Para pôr o plano em prática, é preciso escolher um método e uma pronúncia, cuja selecção depende em larga medida do objectivo que se pretende atingir com a aprendizagem. Exemplos:
1. A Emília quer aprender latim para se divertir com amigos que também estão a aprender ou querem fazê-lo. Pretendem falar entre si, fingir que encomendam pizas ou que se dirigem ao hospital para serem atendidos de urgência comunicando em latim com o pessoal hospitalar.
2. O Cornélio é um homem religioso e gostaria de aprender latim com o objectivo de ler a Summa Theologica.
3. O Públio é filósofo e tem interesse em ler Séneca e Descartes sem precisar da mediação de uma tradução.
4. O Marco estuda História e está a pensar especializar-se na Idade Média: precisa de ler as fontes historiográficas portuguesas medievais. Além disso, quer ler a correspondência dos humanistas para de lá colher informações para o estudo daquela época.
5. A Júlia tem apenas interesses na área da história das ciências. Quer ler sobre botânica e agricultura em Plínio, Catão e Varrão; precisa ainda de ler as Questões Naturais de Séneca.
6. A Cláudia entrou na carreira diplomática e sabe que a língua da diplomacia foi o latim, língua que quer aprender para poder ler o Tratado de Methuen e muita correspondência diplomática.
7. Com uma infinita paixão pelas línguas, o Tito é poliglota e linguista. Precisa de compreender, na origem, o funcionamento de alguns traços da sua língua materna, relacionando-a com outras da mesma família.
8. Cansada de aprender expressões latinas de cor sem verdadeiramente as entender, a estudante de Direito Camila decide que chegou a hora de compreender a língua. Além disso, quer ler as Instituições de Gaio sem ser por meio de uma tradução.
9. Marcela adora ler e encontrou na literatura mais do que uma forma de passar o tempo: compreendeu que se insere numa tradição cultural que a antecede em milhares de anos e que está na altura de ler poesia de Horácio e de Sulpícia no original.
10. Na sua profissão de bibliotecário e arquivista, Aulo precisa de catalogar e descrever paleograficamente muitos documentos que se encontram escritos em latim. Para os compreender, decidiu aprender a língua.
As situações-modelo (em que as personagens têm nomes romanos) ajudam na escolha da pronúncia a adoptar na aprendizagem. Com efeito, excluindo o exemplo 1, normalmente não se aprende latim para falar, mas isso não quer dizer que esta seja uma língua muda ou silenciosa. Assim, nos casos 2, 4, 5, 6 e talvez 10, porque farão a leitura de muitos textos não antigos, mas medievais, renascentistas ou dos séculos xvii-xviii, é provável que seja mais adequada uma pronúncia tradicional (normalmente a italiana), enquanto para todos os outros se deverá usar a pronúncia clássica ou restaurada.
Tomada a primeira decisão, é necessário escolher um método, ou seja, que livro usar para aprender1 latim. Existem muitos livros, mas podemos distinguir dois modelos prototípicos, o A e o B.
Protótipo A: manual de latim que ensina a gramática para ler textos. É o método indutivo, usado tradicionalmente na aprendizagem de línguas antigas. Cria dependência de dicionário porque a aquisição de vocabulário é preterida em favor da gramática. Paradigma deste método: Wheelock’s Latin. Outros exemplos: Intensive Basic Latin, Latin: An Intensive Course, Classical Latin: An Introductory CourseIntroduction to Latin, etc.
Protótipo B: manual de latim em que se lêem textos para aprender a gramática. É o método intuitivo ou natural, usado normalmente na aprendizagem de línguas estrangeiras. Paradigma: Lingua Latina per Se Illustrata, de Hans Ørberg. Outros exemplos: Cambridge Latin Course, Oxford Latin CourseReading Latin, etc. Destes, só Ørberg não faz uso de nenhuma língua para comunicar com o leitor sem ser o latim; os outros usam o inglês. Merece ainda referência o método Assimil.
As diferenças entre todos os livros mencionados2, acerca dos quais falarei individualmente em textos próximos, residem essencialmente no tipo de texto usado para iniciar o estudo. Deve-se notar que, além de não haver nada em português sem ser uma tradução do Cambridge Latin Course, não há nenhum método que faça uso exclusivo de enunciados autênticos, pois isso implicaria que se lessem apenas textos produzidos por falantes nativos de latim, ou seja, as personagens das situações descritas em 1, 2, 4, 6 e 10 (pelo menos) perderiam o interesse na sua aprendizagem, visto que o que os motiva a iniciar este estudo é a leitura de textos escritos depois do fim do período de dissolução do latim como língua «viva». Além disso, como ninguém começa a aprender inglês lendo Shakespeare ou português lendo Camões, não é didacticamente tolerável iniciar o estudo do latim lendo Virgílio ou Cícero.
Os textos iniciais do protótipo A são sobretudo frases simples adaptadas de autores clássicos, desligadas umas das outras, que ilustram um aspecto gramatical que é explicado antes ou depois das frases, fazendo-se exercícios a seguir. O método baseia-se em traduções.
Os textos do protótipo B configuram uma história contínua, construída com frases em que a estrutura gramatical se vai adensando à medida que o enredo se desenrola. Fazem uso de ilustrações diversas para a compreensão imediata do texto mediante a leitura sem tradução. Por vezes, há livros extras com exercícios ou explicações gramaticais, cuja utilidade, nalguns casos, pode e tem sido questionada.
Independentemente da natureza do método, todavia, o objecto de estudo é o mesmo, ou seja, a aprendizagem de uma língua altamente flexionada. Por isso, apesar da facilidade que qualquer método promete, a verdade é que é necessário decorar («saber de coração») as tabelas de declinação e de conjugação. Há quem diga que basta escrevê-las duzentas vezes, o que parece ser exagerado, dado que cento e cinquenta devem chegar.
Para vários casos descritos nas situações-modelo, existem manuais específicos (latim para medievalistas, latim para juristas…), mas há reservas a essas formas de ensinar a língua. A recomendação é: adquirir as bases com um método A ou B e depois estudar características específicas (particularmente variações diacrónicas) dos textos. Isto em nada é diferente do que fazíamos nas aulas de português; antes de ler um autor, estudávamos as características da sua época e do seu estilo. O que importa é ter o conhecimento de base, geral e teórico; o específico e o circunstancial vem depois.

 

1 Excluo situações em que a Emília, o Cornélio, o Públio, o Marco, a Júlia, a Cláudia, o Tito, a Camila, a Marcela e o Aulo pagam cursos ou se matriculam numa escola ou universidade onde se ensina a língua.
2 As lojas Amazon permitem ver os índices e algumas páginas do interior dos livros. Além disso, as obras estão muito comentadas e, no momento de escolher qual adquirir, ler a experiência de outros utilizadores pode ajudar na selecção (as piores «notas» na Amazon costumam estar ligadas a problemas de fabrico dos livros físicos ou em deficiências no formato Kindle, em nada comprometendo o método propriamente dito). É por isso que incluí ligações à loja americana da Amazon. No entanto, em encomendas feitas na loja espanhola não são cobrados portes.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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