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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

03
Abr18

Compêndio de insultos online

Ricardo Nobre

A utilização de redes sociais, como o Facebook ou os blogues do Sapo, é muito positiva na aproximação de pessoas que pensam da mesma maneira, mas traz dificuldades quando se confrontam ideias. É por isso que, justificando e ampliando preconceitos, grupos ficam mais coesos e conseguem ter influência nas democracias. Não sou o primeiro a sugerir que este confinamento ideológico tem promovido o populismo que conduziu tanto à eleição de presidentes como à decisão de resultados em referendos. Isto pode querer dizer que quem fala de mim tem de me elogiar e se não o fizer é porque me está a atacar ou a defender o adversário. Curiosos tempos!

Acontece que, à necessidade de aprovação de pessoas (sobretudo jovens, mas o tempo vai passando e eles tornam-se adultos) com fraca auto-estima, tem-se juntado uma dificuldade na leitura e reflexão de ideias que, não sendo as nossas, nos podem fazer olhar para o mundo de maneira diferente. Além disso, apesar de partilharmos a mesma língua, a sensibilidade difere de indivíduo para indivíduo. É por isso que podemos ter escrito um texto sobre uma coisa, mas obtemos uma recepção surpreendente que interpreta de forma abusiva e errada tudo o que declaramos.

Por exemplo: o autor de Antes de Entrar Aristóteles propõe a duas jornalistas do Público um estudo onde se possa verificar se a acusação de uma escritora é válida. Pelo caminho, reflecte sobre a inspiração e apropriação criativa, suas áreas de particular interesse. Não comenta nem o livro (apesar de o inserir no género literário a que pertence) nem o filme, não dá sentenças sobre plágio de que um realizador de cinema é acusado (o texto começa com a ligação a dois artigos anteriores em que se mostra a posição do autor); sugere, ainda assim, que em casos semelhantes, a figura pública terá vantagem em processos semelhantes, pois estatisticamente será conhecida por mais gente do que a escritora.

A leitura proposta é: o autor elogia o plágio, defende o plagiador e insulta a plagiada. Evidentemente, as redes sociais incendeiam-se e chovem insultos. Naturalmente, todos tipificados e dentro das práticas mais comuns: ofensa sem ideias. Justificações entretanto prestadas pelo autor são ignoradas e ninguém pega numa ideia para debater (se o texto original tinha algumas, a análise justificativa tinha mais). Apresento, por isso, um manual teórico de insultos online: para quem quer insultar e para quem precisa de se defender.

 

I. O ataque

1. O conhecimento.

A relação que o ser humano tem com o conhecimento desmente o que Aristóteles dizia sobre o homem. O indivíduo que passa a vida a estudar não sabe necessariamente mais do que quem nunca estudou, mas consciencializa-se de que o seu conhecimento é mensurável e a ignorância é infinita. Infelizmente, quando nos propõem olhar para um objecto que desconhecemos ou para o objecto de uma perspectiva diferente, a reacção primitiva é desvalorizar o que o outro sabe e apenas valorizar o que eu sei. A forma típica em que se manifesta é na má leitura, na leitura preconceituosa. Quando são reacções a esta proposta distorcida da realidade, apenas se promove o ódio: não importa já ler nada, muito menos tentar perceber que o objecto não era aquele. A isto chamaremos ignorância arrogante ou arrogância ignorante, que se pode definir assim: «não sei, não me interessa e tenho raiva de quem sabe». Enquanto isso, ao outro, coitado, é negado ir a Corinto sem saber se teria recursos para isso.

 

2. As habilitações literárias.

Ligado com o anterior, o tópico das habilitações literárias é obrigatório. Um indivíduo não vale pelo cérebro e pela sua visão do mundo independente: tem de a anteceder de um título. O curioso neste aspecto é que mesmo que o outro seja professor catedrático haverá sempre um desdém pelos anos de estudo, mantendo a ênfase na falácia. «Se calhar fez a licenciatura ao domingo», «deve ter a quarta classe», «Eu estudei seis anos».

 

3. O trabalho.

Há duas invariáveis no mundo laboral: Toda a gente acha que ganha pouco. Todos pensam que têm muito trabalho. Não há mal nenhum nisso, mas a assunção de que o outro apenas está ao serviço da desmoralização do nosso trabalho é uma brincadeira, muitas vezes incompatível com o ponto seguinte. Além disso, a dedicação e o trabalho não se medem pelo calendário (começar a construir uma casa há vinte anos e só colocar o segundo tijolo há duas horas é diferente de ter passado oito horas diárias a assentar tijolo). A bem dizer, o trabalho que o outro faz a mim nunca me custa nada.

 

4. A idade.

Na internet, como na tropa, a idade é um posto. É um argumento interessante, sobretudo se dirigido a algumas pessoas mais novas, que pensam que Fernando Pessoa é um autor antigo. Mas é preciso dizer: «eu tenho 72 anos, ele… não sei quantos anos ele tem». Recusar o livre arbítrio a outros com base na nossa idade é uma falácia enorme. Qualquer professor sabe que nos mais novos também pode haver raciocínio, que deve ser estimulado. Parece que é uma forma de exigir respeito, mas como dizia o nosso Padre António Vieira: ao homem, nunca falta respeito, falta é dinheiro.

 

5. O reconhecimento.

Um insulto recorrente: «mas quem é este para falar?», «Tem um blogue sobre filosofia» (e só considera Aristóteles um simples filósofo quem for muito ignorante!). A falácia nunca ouvi falar, por isso não lhe admito a opinião é muito interessante e é facilmente relacionável com o ponto 1. É verdade: há poucos eruditos famosos e nem todos podem ser Eduardo Lourenço ou José Gil, mas se o patamar é o reconhecimento por meio da cultura, estaremos sempre condenados ao fracasso. Ninguém pode estudar na praça pública, é preciso o recolhimento do gabinete.

 

II. A resposta

Em face disto, como reagir a insultos? O mais importante de tudo é reconhecer que, justos ou injustos, os insultos são uma conquista da liberdade de expressão e da democracia, e, a menos que nos enviem um Magriço para tirar o desagravo, mantemos a integridade física. É, contudo, desgastante responder a esses insultos porque eles são perturbadores. Ninguém ganha com a apresentação de contraprovas (algumas fáceis de obter, como o certificado de habilitações) e a dispersão da discussão.

Por isso, uma forma eficaz é manter o debate no campo das ideias, sem as tornar em nada pessoal. O oponente, passando tipicamente pelos pontos enumerados em cima, não conseguirá fazê-lo e continuará na sua ignorância arrogante. Chamar-nos-á arrogantes intelectuais, mas isso não é bem um insulto. Estamos condenados, como dizia o Abade de Baçal, a sermos pedaços de asnos: por isso, aprendamos com os burros, puxando a nossa carroça.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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