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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

14
Nov17

Decoro a escrever sobre o Snr. Garrett

Ricardo Nobre

Há uns anos, foi proposto à Porto Editora uma revisão de alguns artigos de apoio da Infopédia, sobretudo aqueles que dizem respeito às literaturas grega, latina e portuguesa, embora não pudesse faltar revisão dos termos da retórica ou da teoria da literatura, por exemplo (não me lembro se se propôs algo mais, como a mitologia). Numa carta muito amável, responderam que os textinhos estavam bem assim porque eles tinham muitos colaboradores internos e externos cheios de conhecimento.

Infelizmente, não foram os especialistas que pediram para corrigir, no Dicionário da Língua Portuguesa, a definição errada de «decoro» (como termo dos estudos literários: e agora lá está, bem, na acepção 4). Os dicionários antigos, que todos temos em casa, ainda testemunham uma ideia errada do que é o decoro nos estudos literários. É um exemplo menor de uma acepção que a poucos poderá interessar.

No entanto, poderia fazer um exercício engraçado que é ler nos artigos de apoio da Infopédia e perceber quão próximos (a roçar o plágio de tanta proximidade) estão da História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes (publicada pela mesmo editora e actualizada ao longo dos anos na época contemporânea e em alguma bibliografia nas restantes). Quando se afastam desta fonte, lemos:

Captura de ecrã 2017-11-09, às 16.29.14.png

O rebaptismo do nome do tio de Almeida Garrett (um iluminista chamado D. Frei Alexandre da Sagrada Família) é um lapso pouco mais problemático. Todavia, Garrett é um autor dos programas do ensino básico e secundário, além de uma das figuras mais representativas da literatura em língua portuguesa. Os mais tolerantes dirão, ainda, que, embora importante, o nome do tio do escritor é um pormenor. Não é preciso sair da página para ler:

Captura de ecrã 2017-11-09, às 16.29.35.png

Não há palavras para dizer como os especialistas da Porto Editora estão enganados não só na data como na circunstância em que as Viagens na Minha Terra foram publicadas. Não se pode dizer com esta ligeireza que o livro foi publicado na Revista Universal em 1845 porque a obra começou a ser publicada em 1843. Interrompida a publicação, o livro veio à publicidade, sim, entre 1845 e 1846. Deste modo, não há boa vontade que aceite uma formulação como «publicado um ano antes em folhetim».

Todos admitimos erros na Wikipédia e por isso a repudiamos (muito injustamente, no caso da versão em língua inglesa), mas não sei descrever como pode ser problemático um professor convencer um aluno que as informações da Infopédia (da Porto Editora, que os estudantes conhecem possivelmente desde que entraram na escola) contêm erros desta dimensão. Todos ouvimos falar que seria bom as empresas aproveitarem conhecimentos das universidades, a fim de aumentarem a qualidade da produção. Acontece que nas universidades não se produzem só máquinas robóticas (cidadãs de países onde as mulheres têm menos cidadania): também se produz uma cultura de rigor e respeito pela história dos textos. Rigor e respeito que a Porto Editora, a nossa editora desde que somos estudantes, recusou.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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