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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

19
Jun17

«Deixai-me parir!»

Ricardo Nobre

Tiago Miranda, fotojornalista do Expresso, publicou na versão digital diária desse jornal, no dia 20 de Abril, um texto que intitulou «Maternidade Alfredo da Costa, a fábrica de parir e o acompanhante que não é de luxo». Em síntese: Tiago foi pai de uma menina e conta a experiência de utilização das instalações da Maternidade Alfredo da Costa.

O texto, geralmente bem escrito, tem muito interesse porque acrescenta ao debate público sobre o possível fecho da maternidade um relato testemunhal sobre a desadequação das instalações para receber os pais dos bebés portugueses (mas não os bebés, note-se). Não é (como até aqui julgo que tem acontecido) um relatório burocrático sobre o legado de Alfredo da Costa nem o interesse profissional de equipas de saúde (e inevitável afeição pelo espaço, nostalgia, etc.) e muito menos o receio da conversão do edifício em hotel ou outros negócios de especulação imobiliária sem transparência. É, repito, uma magoada reflexão em torno de «é aqui que gostaria que o seu bebé nascesse?» Pelo testemunho do pai, não.

No entanto, talvez por ter sido o início de uma vida de parentalidade, há muita emoção e sensibilidade que não beneficiam o texto. De facto, alguns aspectos preocupantes (portas de emergência fechadas a cadeado) são remetidos para depois do fim do relato. Com efeito, a função do p.s. é acrescentar uma informação de que nos esquecemos, e este é um assunto demasiado relevante (mais do que as dimensões do quarto da parturiente e certamente mais do que o banquinho onde o autor aguardou a chegada da filha) para um lugar tão secundário.

De facto, o problema com o texto tem tudo que ver com a hierarquização das ideias. O que mais importunou o autor não foi (nem podia ser) o tratamento clínico que a mulher recebeu na maternidade; também não foi a falta de limpeza, a antipatia do pessoal e dos seguranças, o mau funcionamento da equipa que acompanhou o parto. O incómodo de Tiago Miranda — a ponto de ter feito a chamada ao título — adveio do facto de ele ter sido tratado por «acompanhante» e porque a mulher foi «parir». Estou seguro de que terá sido apenas a hipersensibilidade de pai recente que o levou a insistir nestes dois termos, sobre os quais gostaria de fazer algumas notas.

O facto de associar o primeiro termo à expressão «acompanhante de luxo» diz mais do estreitamento do seu universo de referência enquanto falante do que à desadequação ao contexto. Se fosse hoje (mais de um mês depois a mudar fraldas), o autor já se lembraria de que uma parturiente não tem de ser obrigatoriamente acompanhada do pai biológico do bebé. «Acompanhante» é ‘aquele ou aquela que acompanha’, faz companhia (etimologicamente, ‘quem partilha do mesmo pão’). Não deve haver termo mais neutro do que este, sobretudo quando a maternidade é um sítio público onde aparecem toda a sorte de situações.

A crítica ao termo «parir» é mais infundada:

Tiago Miranda

O próprio autor diz que é um termo técnico. E é, porque todos os mamíferos nascem da mesma forma: «expulsar do útero», diz o Houaiss. O mesmo dicionário diz que o termo existe na nossa língua desde que ela existe, século xiii, ou seja, «parir» vem harmoniosamente do latim para o português sem sobressaltos. Mesmo o sentido metafórico de ‘criar, inventar’ já existia em latim (e ainda outros, como ‘produzir, gerar’, ‘pôr os ovos’ ou ‘obter, alcançar’). O mais interessante na censura a «parir» é que ela ignora completamente todo o campo lexical que com ele se relaciona: «parturiente», «parto», «parteira», «parente», «parental». Além disso, o parentesco (outra palavra) com as línguas românicas (e o inglês, já agora) é evidente.

O estreitamento do universo de referência, potenciado pela circunstância de o autor estar diariamente exposto à velocidade com que as línguas adoptam termos sem critério para logo os abandonar (alguém usou ou alguém se lembra daquele «entroikado», palavra do ano da Porto Editora em 2012?), bem como novas formas de expressão, aliado à hipersensibilidade da recente parentalidade justificam as queixas de Tiago Miranda. Mas de modo algum estas palavras são desadequadas do ponto de vista científico, socialmente ofensivas ou virão a ser alteradas se a maternidade mudar de instalações ou se dissolver nas mudanças para o Hospital Oriental. Estou convencido de que vai chegar o dia em que o politicamente correcto vai alterar (‘tornar outro’) muito e transformar (‘mudar de forma’) as línguas (em Portugal, é provável que comece pelo «cartão de cidadão»), mas, nos dois exemplos que se podem recolher deste texto, não é já.

p.s.: O título deste texto provém da tradução portuguesa de Ulisses, de J. Joyce (trad. Jorge Vaz de Carvalho. Lisboa: Relógio D’Água, 2013, p. 218). No original: “Let me parturiate!”.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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