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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

26
Fev18

Deixar avançar o futuro

Ricardo Nobre

Não sei como reagir à notícia de que a casa onde morreu, em 1900, o poeta António Nobre, no Porto, vai ser demolida.

Há umas pessoas que se preocupam com a memória do país que insistem em travar o progresso, defendendo que o passado é tão importante quanto o futuro e que, se alienamos um, o outro fica comprometido. Mas será mesmo assim?

Que importância tem que um ex-ministro da economia tenha demolido a casa onde, em 1854, morreu Almeida Garrett1 se agora em Campo de Ourique existe um prédio de arquitectura contemporânea?

Qual é o mal construir no Largo do Rato um prédio que desdiz de toda a envolvente, se todo o Largo do Rato (exceptuando talvez a sede do PS e a igreja da Conceição) é um horror? Para não falar no trânsito (houve tantas obras para turistas, mas esqueceram-se desta zona) nem nas escadas do metro…

Que interessa manter a harmonia bairrista da Praça das Flores, em Lisboa, se o prédio tem assinatura de um arquitecto premiado, que ainda por cima tanto desenha estádios como barragens?

As cidades são corpos em mutação, actualizam-se e modificam-se, dizem os arquitectos e outros que assinam projectos como eles. Não dizem com que motivação o fazem, o dinheiro que enriquece alguém para deixar a todos mais pobres. Por isso, deixemos destruir o passado — quer sejam os prédios da cidade onde vivemos, quer seja a língua que falamos — porque haverá, no futuro, quem nos dê o nosso verdadeiro, nome como fizemos com outros bárbaros iguais a nós: vândalos.

1 A notícia para que o apontador remete fala na «casa onde nasceu Almeida Garrett», lapso (o escritor nasceu no Porto, numa casa que o celebra… até ao dia em que um dinheiro a mande demolir) corrigido no parágrafo seguinte.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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