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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

19
Nov19

Descartável

Ricardo Nobre

Terá sido nos últimos 40 anos, talvez, que se generalizou o uso do plástico (que veio a substituir o vidro e o barro, além do inox) e se multiplicaram as opções descartáveis, cujas vantagens não são negligenciáveis: motivos de saúde e higiene levam-nos a usar fraldas, agulhas, gazes (plural de «gaze», não de «gás») ou luvas descartáveis. Talvez seja possível fabricar esses objectos a partir de materiais mais amigos do ambiente, mas nada aconselha a que sejam reutilizados. Não sendo possível a sua esterilização, esses produtos, depois de usados, são incinerados (por vezes no próprio hospital).

Havendo, assim, muito boas razões para não abandonar o plástico, é preciso compreender que não ter loiça para lavar não é uma delas porque se baseia apenas na comodidade. E se é verdade que a comida para fora, potenciada por serviços de entrega em casa, é uma enorme comodidade a que o mundo se permite, a quantidade de lixo produzido é gigantesca. Do mesmo modo, ainda está por realizar uma estratégia ecológica na entrega de compras no Continente online, por exemplo. A prática de usar um saco para transportar apenas uma escova de dentes parece ter sido abandonada, mas o uso de plástico (para o pão e a fruta) ou cartão nas embalagens torna necessário que o cliente, logo nesse dia, precise de ir colocar o lixo nos ecopontos. A ideia de sacos emprestados (o cliente compra o saco, mas pode devolvê-los) não seria má se os sacos fossem reutilizados, mas ninguém quer tirar o pão do saco onde antes foi transportada lixívia.

E há práticas e comportamentos intoleráveis. Como já aqui foi dito, o serviço de bar do Alfa Pendular (que, para ouvir rádio e televisão, oferece auriculares descartáveis, embrulhados em plástico) é baseado em plástico. A água é vendida em garrafa de plástico e para a beber recebemos um copo de plástico, que também se oferece na venda de gasosas e cervejas; sandes e bolos vêm embrulhados num recipiente descartável de plástico; o café é bebido em copo descartável e mexido com uma palheta de plástico. Acho que só os pratos e talheres de almoços e jantares não são de plástico. Num serviço de bar numa viagem Porto-Lisboa, devem trabalhar três pessoas. A viagem não dura três horas, o serviço não é assim tanto (porque, vendendo produtos que normalmente se encontram nas máquinas de venda automática, cobram o preço do bar do Ritz), mas ninguém fica com loiça para lavar.

Enfim, há descartáveis que são apenas cómodos, e esses são os que devem ser descartados. Há descartáveis necessários, e esses devem ser repensados para que se tornem amigos do ambiente.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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