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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

15
Abr18

Dias difíceis para as artes e para todos nós

Ricardo Nobre

Não há dúvida de que a capacidade (acima do normal) que o sector artístico tem para ocupar o espaço público lhe dá um poder que dificilmente se pode comparar a outros profissionais, igualmente dignos de respeito por parte de uma sociedade europeia de natureza democrática.

Com efeito, não são poucas as profissões que beneficiam do apoio público para funcionar, incluindo a saúde e a educação. E, como estas, a protecção civil, a investigação no meio universitário e a segurança social. Existem ainda outros sectores em que o peso do estado é assinalável, como os transportes (que têm um papel importante no tecido económico por questões de mobilidade e turismo, além da preservação do ambiente). Sem falar da Defesa e das Forças Armadas, o papel do Estado, não estando completamente bem definido, é, intuitivamente, esse: dar condições para que sejamos bem educados, instruídos e cultos, vivendo com saúde e protegidos.

Ora, mesmo que eu ignorasse o papel civilizacional da cultura (incluindo a edição, as bibliotecas, a tradução), alguém poderia lembrar-me do relevo económico que as actividades artísticas têm. Acontece que, apesar do sucesso do Acordo Ortográfico de 1990 ao unificar a língua falada neste corredor litoral da Península, no Brasil, em Timor e nos PALOP, tornando a nossa língua verdadeiramente universal, os turistas que tiram a casa aos lisboetas não têm invadido a sala Garrett, tal como não saem do «resort Medina» para assistir aos espectáculos do Teatro Viriato ou Gil Vicente. Assim sendo, o Estado precisa de intervir, estar presente, promover e pagar muita da nossa produção cultural, tal como paga aos bancos e compra submarinos.

Para isso, o Estado burocratizou, e bem, a atribuição de subsídios às artes (companhias de teatro, de dança, de música e de circo, entre outras). As companhias têm de fazer como outros organismos públicos, que têm de prever actividades com dois, quatro ou mais anos de antecedência. A este respeito, é muito interessante reflectir sobre o que o Estado pensa sobre a actividade científica: pouco se pode prever sobre o rumo de um projecto de investigação, que, como as artes, podem ser muito pouco previsíveis. No entanto, a burocratização é, também, uma forma de nivelar todos por igual, sem que o Estado se assuma como dirigista ou como censor do tipo de concertos a que os seus cidadãos podem assistir (tal como dirige os livros da literatura portuguesa que se lêem na escola, sendo essa, porém, outra questão).

Entretanto, pude perceber que muitos critérios dos formulários do concurso da Direcção-Geral das Artes são semelhantes às da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), que financia centros de investigação e laboratórios. Nas artes, as companhias agora precisam de apresentar os seus projectos criativos num formulário burocrático que quer saber coisas como a adequação das propostas artísticas à organização que as promove, as peças que querem levar ao palco ou os concertos que querem dar, descrevendo as actividades que tudo isso implica. Dito de outro modo, uma companhia de teatro não apresenta uma candidatura para desenvolver actividades de culinária, como os investigadores não apresentam projectos dedicados a História Medieval no Centro de Nanotecnologia de Braga, e pode estabelecer com a antecedência de um par de anos quais os espectáculos que pretende promover.

O processo é burocrático e moroso e retira tempo às actividades criativas? Sim, tal como preencher relatórios retira tempo à docência e à investigação. Os investigadores da FCT também se queixam disso, mas não fazem manifestações e não conseguem que o Governo abra os cofres para aumentar o financiamento depois dos resultados dos concursos. Há critérios como a definição de prioridades ou a excessiva centralização que podem ser revistos. Não se pode lamentar a desertificação do interior só quando ardem florestas, fecham correios ou agências bancárias. É preciso prover o país de uma rede cultural coerente e adequada, assegurando, por exemplo, digressões (se a Companhia de Teatro do Algarve faz uma peça de Gil Vicente, deve poder levá-la a cena em Trás-os-Montes) e que todas as capitais de distrito tenham estruturas capazes de garantir o acesso à cultura.

Todavia, estes problemas podem ser resolvidos mantendo o modelo de financiamento actual, alterando pontualmente os critérios. É preciso que os concursos estejam abertos em permanência (como se faz em países que gostamos de tomar como exemplo), que o financiamento seja maior (toda a gente fala de 1 % e eu pergunto se não seria de aumentar o orçamento da cultura para três ou quatro, visto que ainda precisamos de monumentos e museus, além de continuar a validar projectos ligados à leitura e ao livro). Os jornais poderiam, desse modo, gastar menos tempo e espaço a enumerar problemas da cultura e a fazer-lhes referência do ponto de vista crítico (e não apenas o promocional actualmente em vigor).

O meu desejo é que os agentes culturais não vão para casa depois das manifestações e que continuem a ocupar o espaço público, mesmo depois de resolvidas (ou minoradas) as questões entretanto levantadas pelo processo de avaliação de candidaturas à Direcção-Geral das Artes. E que não façam como o Teatro Nacional de Dona Maria II, que se esquece do repertório português. Não prejudica ninguém as companhias assumirem o seu papel e especializarem-se, pois mesmo dentro de uma tradição há sempre muitas oportunidades de diversificação (que a referida digressão pode, evidentemente, potenciar). Se isso implicar preencher formulários, pois que os preencham: não lhes falta engenho e arte.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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