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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

03
Ago19

Dicionário politicamente correcto

Ricardo Nobre

Há uns anos (já foi em 2012), o Ministério Público Federal fez uso dos recursos públicos brasileiros para obrigar à retirada do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (DH) de circulação. A acusação era simples: a forma como a palavra «cigano» está definida é pejorativa e discriminatória. E, com efeito, na quinta acepção, «cigano» é, no registo pejorativo, «que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador». Tal significado regista-se (segundo a mesma fonte) desde pelo menos 1899.

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, s.v. «cigano»

Existem outros exemplos, noutros verbetes deste e de outros dicionários, de discriminação e intolerância, perpetuação de estereótipos e do discurso de ódio (como «judeu», que no DH 9 surge como «pessoa usurária, avarenta»). Quando alguém se lembrou de que a definição de «mãe» ou «mulher» devia ser votada e decidida por utentes de um famoso dicionário em rede, estava a promover uma campanha política válida em defesa dos direitos da mulher ou das mães, mas a cometer uma fraude linguística. O mesmo aconteceu quando um (ou uma) activista mais entusiasmado ou entusiasmada e menos reflectido ou reflectida descobriu que «casal» no dicionário da Porto Editora não poderia implicar um casal de pessoas do mesmo sexo. Ninguém lhe disse e ele ou ela não se lembrou que o significado de uma palavra é o que os e as falantes lhes dão a cada uso e que o dicionário não inventa sentidos derivados para acomodar todas as sensibilidades.

Ainda falta mencionar o desrespeito pelos «direitos» dos animais, que vêem a sua honra ferida nos verbetes «vaca» (DH 7: «mulher de vida devassa») ou «porco» (DH 9: «que ofende os valores morais predominantes, grosseiro, imoral, obsceno»). E, conjugando animais com mulheres, percebemos que todos os nomes de animais no feminino servem de insulto ao sexo feminino: galinha, cabra, cadela, bezerra.

A culpa não é do dicionário, é claro: o que está agora nos dicionários é ofensivo e sem respeito pelas minorias e desrespeitoso para as mulheres, mas um dicionário não é uma lei actual, é um registo histórico, não é a previsão do futuro, é a documentação de significados passados (e por vezes conselheiro de melhores usos, embora o seja apenas em questões linguísticas e não sociopolíticas). Portanto, arremeter judicialmente ou perorar nas redes sociais contra os dicionários terem registado o valor das palavras é um método que só pode ser usado por quem for muito ignorante. Se queremos uma língua imaculada de representatividade, empenhemo-nos na sua renovação (boa sorte com isso). Veremos que na próxima edição já o dicionário trará um significado novo. Se a edição seguinte apagar os insultuosos porque caíram em desuso teremos feito um bom trabalho.

Solucionar o problema com a retirada de dicionários do mercado chama-se censura, PIDE ou Inquisição (havendo quem goste, já tentámos, não gostámos, mudámos). Pensar que a culpa da nossa ignorância ou insensibilidade é do dicionário é não saber nada sobre dicionários — e é não saber nada sobre nós.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.