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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

05
Jun18

Didacticamente correcto

Ricardo Nobre

Uma das prioridades dos homens que promoveram a Revolução de 1820 (entre a necessidade imperiosa de uma Constituição e do regresso de El-Rei D. João VI do Brasil) era uma reforma do ensino (que, a concretizar-se, teria tido muito maior alcance do que as políticas pombalinas no mesmo sector): como era preciso modernizar o país, era preciso espalhar pela economia pessoas capazes e eficientes que a potenciassem. Além disso, era a primeira vez que a política se submeteria a escrutínio alargado, por meio de eleições de deputados, representantes de um eleitorado que, nesse tempo e apesar de tudo, era reduzido (era o voto censitário, reservado a indivíduos do sexo masculino que soubessem ler e escrever, por exemplo). A «formação de eleitores» surge como um dos aspectos mais interessantes da política educativa e cultural do nosso Liberalismo.

Não se justifica agora desenvolver a questão, que se encontra em qualquer livrinho de história de Portugal no capítulo sobre o Liberalismo, mas fiz-lhe menção porque a educação no nosso país nunca cumpriu aquele objectivo, eloquentemente expresso por Almeida Garrett ou Alexandre Herculano (talvez essa filosofia se tivesse perdido algures num recanto da história ou numa gaveta do Ministério do Reino). Se, no século XIX, houve muitas dificuldades e resistências na generalização do ensino, no seguinte o estado autoritário serviu-se dele como elemento normalizador de comportamentos (que deveriam tolerar e agradecer um regime inimigo da liberdade), controlador do pensamento e da palavra.

Depois da democracia, não sei bem o que se passou, mas tornámo-nos avaros a inculcar valores, ao mesmo tempo que a história, usada e abusada para fins propagandísticos, foi sendo esvaziada até ao momento actual. Saber história, reconhecer a qualidade de um texto ou a estética de uma obra de arte é ser elitista e saber escrever é um anátema.

E assim chegámos entretanto ao politicamente correcto. A liberdade de expressão não é universal porque é controlada por algumas figuras: agora há normas que devemos seguir, coisas que não se podem fazer, há coisas que não se podem dizer («Descobrimentos») e há coisas que é preciso dizer («as senhoras e os senhores»). No fundo, o politicamente correcto manifesta-se publicamente por meio de gente cheia de certezas que se projecta muito negativamente no conjunto infindável das minhas incertezas. (Um pouco como no debate da eutanásia.)

Um exemplo apenas. Há umas semanas, um historiador (certamente muito importante no seu departamento) escrevia no Público sobre o nome do Museu dos Descobrimentos de Lisboa. Entre as piadas que contava sobre a sua vida de estudante, chamava a todos os não-historiadores de ignorantes e arrogava que as ciências sociais e humanas devem ser respeitadas. O problema das ciências sociais e humanas é, aliás, esse mesmo: quando reclamam a sua própria importância, não explicam para que servem e apenas destilam arrogância e prepotência para os não-iniciados. Não houve um único argumento sobre a desadequação prática de chamar Museu dos Descobrimentos ao museu que pretende retratar os Descobrimentos. Por muito bem que Rui Tavares escreva, ele não pode estar sozinho a defender a classe: outros historiadores que queiram participar no debate, como o engraçadinho das anedotas de estudante, devem fazê-lo com argumentos, mas sobretudo com exemplos claros e num tom didáctico, e deixar a arrogância lá nas suas salas de aula ou nas páginas dos artiguinhos que escrevem. Porque o que começa a ser assustador é perceber que, nos regimes autoritários, o discurso público é muito mais didáctico e pedagógico do que o discurso (ou o que fica dele) dos regimes democráticos.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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