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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

05
Jun19

E que dizer da desconfiança do ensino superior?

Ricardo Nobre

Ontem, no dia de luto nacional pela morte da enorme Agustina Bessa-Luísa, o editorial do Público preferiu levantar suspeitas quanto à isenção da avaliação de qualidade da prestação de serviço docente e da investigação dos professores universitários portugueses. O texto de Manuel Carvalho merece reflexão e comentário.

O primeiro é que é claro que é possível que haja notas inflaccionadas. No entanto, parece-me que a desconfiança de Manuel Carvalho (que sugere que a universidade se encontra próxima do Antigo Regime) é de desconfiar (atendendo à minha experiência pessoal e profissional) e deve ser questionada, na medida em que a excelência deveria ser um factor de contratação em todas as profissões.

O segundo reparo tem que ver com o escrutínio público a que os professores universitários se submetem em toda a sua carreira. Que eu saiba, em mais nenhuma profissão se submete um indivíduo a várias provas públicas: mestrado, doutoramento, agregação e eventos científicos são todos momentos em que um professor do ensino superior se expõe à apreciação dos pares e de todos os interessados.

Desde que entrei como caloiro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (em 2001), muito mudou no ensino superior, e lamento contrariar Manuel Carvalho, recordando que no ensino superior trabalham (ou trabalharam) professores e professoras que mudaram a minha vida e sem os quais o meu percurso pessoal e profissional teria sido muito diferente. De 2005, quando me licenciei, até hoje, entrou em vigor o estatuto de docente do ensino superior, legislação que não permite que não doutorados leccionem nas universidades portuguesas e que lhes exige investigação integrada em centros devidamente acreditados. Mais uma vez, os nossos cientistas e investigadores são sujeitos a avaliação por painéis internacionais, apontados pela agência portuguesa de investigação científica para todas as áreas do conhecimento.

O terceiro comentário tem que ver com o tema do nepotismo e da endogamia, a que Manuel Carvalho volta. Sem estar agora aqui a dizer que essas tendências se registam em todas as classes profissionais (vamos lá exigir aos jornalistas que estudem a abertura de portas das redacções a filhos de jornalistas; e os ferroviários que descendem de ferroviários, filhos de quadros dos CTT, de sociedade de advogados…), importa esclarecer que a contratação de um professor universitário se faz em Portugal por concurso público internacional. O júri é constituído por professores no topo de carreira, e na sua maioria tem de ser composto por docentes de outras universidades (em provas de agregação isso também acontece; em provas de doutoramento é aconselhável, mas não sei se é obrigatório).

Por tudo isto e por outros motivos que não vale a pena estar agora a pormenorizar (mas cite-se o facto de os nossos professores do ensino superior terem uma carga horária lectiva superior aos seus pares europeus, tendo, em simultâneo, as mesmas obrigações quanto ao componente de investigação), achar que o processo de selecção do corpo docente do ensino superior continua a ser pouco transparente ou como no Antigo Regime é não conhecer nada, mas a isso já os jornalistas nos habituaram; é pena que o director do Público esteja na mesma lista dos mais medíocres.

 

PS: Falta dizer, já agora, que não dou aulas na universidade em que me formei.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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