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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

24
Mar18

Engenheiros e Patos-Bravos

Ricardo Nobre

A Arquitecta Helena Roseta, igualmente autarca de Lisboa, defendeu uma posição de classe nas páginas do Público esta semana a propósito da lei que concede aos engenheiros a possibilidade de assinar projectos de arquitectura. Roseta carrega no tom das críticas, concluindo que a lei foi feita por uns engravatados burocratas que não percebem nada do assunto sobre o qual legislaram.

Eu diria que o pato-bravismo1 não decorre da acção de engenheiros, mas da acção dos nossos parlamentares, pois o que a Arquitecta Roseta traz a público é uma questão em que penso desde o Acordo Ortográfico: os deputados da Assembleia da República são, na maioria, formados em direito, por vezes sabe Minerva em que Atenas, escrevem muito mal (como se vê de cada vez que alguém desenterra textos escritos pelo seu punho, ou, como aparentemente outros, pagam para que escrevam as teses em seu nome) e, no entanto, impuseram a milhões de pessoas uma forma de escrever cheia de problemas, lacunas e erros. Cheguei ao ponto de ver que, de todas as pessoas a quem se paga o salário para legislar em Portugal, apenas o Partido Comunista e dois deputados do CDS-PP me representam. Os outros acham que escrever mal é que está bem.

O meu problema com o Acordo Ortográfico começa a ser este: a imposição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, da Imprensa da Universidade de Coimbra ou das universidades que obrigam que se use essa norma nas teses e dissertações. A aflição aumenta quando alguns dos responsáveis pelas editoras ou universidades encolhem os ombrinhos e lamentam porque também são contra a grafia. Até o Poeta Ministro da Cultura o faz. Que pensaria disto Almeida Garrett, que fazia saber sobre os seus escritos «antes m’o reprovem do que me alterem as palavras, virgulação ou orthographia»?

Se os deputados substituem arquitectos por engenheiros (mais ou menos como substituir médicos por enfermeiros), estudos científicos por negócios obscuros, democracia por imposição, então mais vale substituir todo o saber pela ignorância. Em 1828, Garrett escrevia que «cabedal de letras» «é a mais ruim fazenda que neste país se pode ter». 190 anos depois, as malaquices do acordo ortográfico comprovam que nada mudou.

1 Pato-bravo é uma expressão que me lembra sempre José Cardoso Pires. Deve ser por estar na altura de podermos caçar na lagoa.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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