Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

03
Jun19

Era bom que trocássemos umas ideias sobre os comentários em 'sites' noticiosos

Ricardo Nobre

Há sérias e fundadas razões para questionar porque é que a maioria dos sites noticiosos portugueses permite aos leitores fazer comentários nas peças informativas. Que me lembre, entre nós, só o Expresso (cujo acesso à leitura é pago, embora haja notícias que podem ser lidas gratuitamente) não admite comentários às suas notícias, daqui resultando a qualidade da opinião das leitoras e dos leitores publicada no jornal semanal. Fora de portas, as notícias da BBC, da Aljazira, do Libération, do New York Times e da Spectator não têm comentários. E, com efeito, muitas vezes, não se percebe porque é que as pessoas têm de reagir a (mais do que comentar) notícias de factos. Que comentário merece a notícia de uma onda de calor? Quantos livros de Chico Buarque é preciso ler para avaliar da justiça da atribuição do Prémio Camões? E porque é que se opina sobre o Nobel de Dylan?

Os comentários não devem, todavia, ser banidos ou desaconselhados, sobretudo quando se trata de debates sobre questões políticas (recordo algumas propostas legislativas): estimule-se a publicação de «cartas ao director» (no Público, um terço ou quarto de página é pouco), e a comunidade responderá com a qualidade que temos lido no Expresso. Os leitores e as leitoras teriam mais cuidado na articulação das ideias que querem transmitir sobre os assuntos — e na verdade e para não sair de casa, quando se escreve um texto num blogue ou no Facebook, tem-se mais consciência de que se escreve para um público alargado do que quando se faz um comentário numa caixa de comentários dos sites de notícias. De novo: teríamos melhores ideias, e essas deveriam ser publicadas (muitas vezes não desmerecem dos e das colunistas dos jornais — alguns deles e algumas delas muito mal preparados ou preparadas e com muito poucas leituras). Além disso, e não menos relevante, é o facto de não ser o alarme de caixas de comentários que faz retroceder decisões políticas ou que conduz à demissão de um ministro ou de uma ministra: são as redes sociais, em que se incluem os blogues, que sintetiza a opinião pública, aqui sustentada com saber, argumentos e (normalmente) num português que não se lê nos comentários nas páginas de notícias.

Deste modo, as páginas de notícias em Portugal não publicariam nem promoveriam mensagens de ódio (diria que o Facebook tem uma melhor política a esse respeito que os comentadores e comentadoras das publicações do Diário de Notícias ou da TSF), desinformação (a expressão é livre, mesmo que seja asneira, mas a promoção do disparate, da falta de sentido crítico e de elementar boa educação não precisam de ser exibidos publicamente em órgãos de referência), além de inqualificáveis e sistemáticos erros de português (como o nosso ensino tem falhado!) no espaço público. Eu sei que tenho tido uma atitude crítica a respeito da forma como algumas notícias são redigidas, mas diria igualmente que só não erra quem não escreve e que, por isso, seria mais útil investir no trabalho de revisão do que na selecção de comentários (ou deixar a tarefa para moderadores e moderadoras, como também acontece).

 

P.S.: O título deste texto reelabora o título do romance Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, de Mário de Carvalho (1.ª ed. 1993).

7 comentários

comentar texto

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

classificados

Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.