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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

28
Mar18

Falta o respeito por pessoas com mobilidade reduzida

Ricardo Nobre

Recebemos ontem a notícia de que alguns monumentos nacionais vão ter obras para garantir o acesso a pessoas com mobilidade reduzida, enquanto a cidade continua a ser um campo de batalha para quem usa cadeira de rodas. Pessoas com mobilidade reduzida são cidadãos que não conseguem andar com a ligeireza normal, quer por motivos de saúde, quer pela idade, quer por estarem grávidas.
Há alguns meses, tínhamos recebido a notícia de que o estacionamento indevido em lugares reservados a deficientes iria retirar dois pontos na carta de condução.
Também desta legislatura é a obrigatoriedade do atendimento prioritário, em restaurantes ou supermercados, de pessoas com mobilidade reduzida. Os supermercados deixaram de ter uma caixa para em todas se poder atender prioritariamente estas pessoas.
O estado, afinal, funciona.

Infelizmente, a prepotência de alguns agentes deste mesmo estado corta os direitos que a sociedade civilizada lhes reconhece. Mais infelizmente, o exemplo escolhido para ilustrar este atropelo civilizacional é uma casa de cultura, apesar de não ser gerido por uma pessoa com relevância cultural (o peso da directora é outro: é uma especialista em biblioteconomia, com doutoramento feito no estrangeiro).

Há anos, dos lugares reservados a deficientes, junto à entrada principal da Biblioteca Nacional, em Lisboa, um estava ordinariamente ocupado por uma chefia (que também gere a utilização das instalações sanitárias, porque proibiu um funcionário de usar as dos deficientes; a ironia não ficará por aqui). Coincidentemente, usava um lugar de estacionamento que tapava o acesso directo à boca de incêndio mais próxima. Nos filmes americanos, além de proibido, é uma prática condenada pelos cidadãos comuns. Depois da legislação dos pontos, a mesma funcionária deixou de usar esses lugares para estacionar o carro.

FFD8255A-3047-4668-875C-AD6B232FA4FF.jpegComo a biblioteca não tem orçamento para a aquisição de livros nem para o restauro de obras antigas, com o descongelamento financeiro, adquiriu-se agora um carrinho amigo do ambiente. Juntando a outro, anterior a 2000, e ao seu próprio, a direcção da Biblioteca Nacional pode agora andar em três carros. (Se o estado fosse mesmo amigo do ambiente, dava-lhe um Navegante, e tinha todos os autocarros da Carris à disposição, por isso ainda é uma limitação.)
Nos locais de estacionamento da direcção, cabem ainda os corpos da Direcção-Geral das Artes (a funcionar no mesmo edifício) e duas carrinhas de serviço, normalmente paradas. Ou seja, o carrinho novo não tem espaço, e por isso ocupa o lugar dos deficientes, que partilha com motas e bicicletas, além de outros mais afoitos (durante um tempo documentei essa prática e tenho uma colecção guardada). A fotografia que ilustra este texto foi tirada esta tarde, em pleno horário de expediente da Biblioteca. Mas podia ter sido tirada no sábado ou na segunda, pois é lá que ele agora está. Se alguém estacionasse no lugar da directora (como chega ao serviço já a manhã está a terminar, quem chega cedo podia tentar), lá vai o segurança mandar tirar o carro.
Pelos vistos as ordens não chegam a situações mais escandalosas do que ter uma directora de serviços ter de andar cem metros para chegar ao gabinete.
Junte-se a esta normalidade o facto de, há meses, o elevador do átrio principal da Biblioteca ter deixado de funcionar. Os deficientes deixaram de ter acesso às salas de leitura (porque o átrio tem umas escadas) e aparentemente não há prioridade em solucionar o problema. Acho que foi depois disto que chegou a cadeira de rodas que os edifícios públicos precisam de ter. A ironia, na verdade, não encolhe os ombros, como também espero que o ministro não faça a este respeito. As leis são para cumprir. Por todos.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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