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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

07
Jun17

Financiar a leitura

Ricardo Nobre

Os portugueses têm a sensação de que pagam muitos impostos. Tal como tenho defendido em relação a outros aspectos mundanos, a impressão de que se paga muito só poderia ser atenuada se o retorno fosse equivalente: ninguém se importaria de pagar impostos se, em caso de necessidade, chegasse a um hospital e fosse de imediato atendido, tratado e saísse de lá curado. Quem se queixaria de impostos se as crianças portuguesas frequentassem escolas aquecidas no Inverno e frescas nos meses de Verão, com material escolar gratuito e sempre novo? Alguém se insurgiria contra o valor dos impostos e das contribuições sociais se soubesse que, depois de uma pesada carreira contributiva poderia retirar-se da vida activa com disponibilidade financeira suficiente para ajudar um amigo em situações complicadas, para assistir à família ou para poder pagar um lar de «luxo»?

Os portugueses têm, efectivamente, a sensação de que pagam impostos demasiado elevados e sentem-se traídos pelas notícias de parcerias público-privadas, pela saída de um político de um cargo dirigente para o topo de uma empresa; sentem-se traídos, claro, pelo valor pago a políticos e gestores públicos (refiram-se aqui a Carris e a CP, que são empresas deficitárias e que nunca prestaram um serviço de transportes acima do medíocre). Apesar de nos queixarmos do valor dos impostos, a verdade é que existem serviços públicos que funcionam muito bem. Talvez porque o seu funcionamento seja mais barato do que pôr um autocarro a circular entre Odivelas e o Cais do Sodré.

Falo das bibliotecas públicas municipais.

Em Lisboa, temos uma rede há poucos meses enriquecida pelo novo espaço, em Marvila, a que a propaganda oficial da Câmara chamou «biblioteca de terceira geração» (desconheço o conceito de geração aplicado a bibliotecas). Diria que Belém e Telheiras têm bibliotecas exemplares não apenas pelos óptimos espaços que ocupam, mas sobretudo pelos acervos bibliográficos (Telheiras tem ainda o serviço de música e filmes). Todas as bibliotecas públicas que conheço apenas têm o problema do horário de funcionamento, ajustado ao funcionalismo público, ou seja, enquanto as pessoas estão a trabalhar, as bibliotecas estão abertas; quando as pessoas estão de férias ou de folga, as bibliotecas também. Apesar disso, as bibliotecas têm uma função sociocultural de enorme relevo. São espaços onde jovens e idosos são bem-vindos, onde há desenhos animados e jornais, livros e computadores. Constituindo espaços de liberdade, de criatividade e de cultura, não tenho dúvida de que as bibliotecas públicas são uma das melhores conquistas do nosso país. Completamente gratuitas. Para isto vale a pena pagar impostos.

Anexo a esta mensagem uma nota importante.

À rede de bibliotecas municipais de Lisboa faltam a biblioteca do Campo Pequeno (no Palácio Galveias, que reabrirá no dia de Camões, próximo sábado) e a biblioteca de Alcântara (cujo antigo edifício foi demolido para dar lugar a um novo hospital da CUF, entre a Avenida 24 de Julho, a Avenida da Índia e a rua de Cascais). O edifício da futura biblioteca de Alcântara, na rua José Dias Coelho, está em ruína, como se vê na imagem disponível na vista de rua do Google (à direita, por cima do edifício, vê-se o viaduto norte da Ponte 25 de Abril), e, em breve, já se poderá fazer algo de raiz, como a Câmara de economistas e arquitectos gosta (também em Alcântara, foi preciso uma holandesa defender um edifício para que se revissem os planos de demolição, contou o jornalista João Pedro Pincha no Público de dia 25 de Maio de 2017, p. 19 da edição de Lisboa, e aqui).

Biblioteca de Alcântara

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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