Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

19
Ago17

Fogo-de-vista da Cultura

Ricardo Nobre

A revista «E» (suplemento do Expresso) de hoje traz dois textos de extremo interesse.

Um, de Diogo Ramada Curto, sobre as extravagâncias orçamentais das festas e do folclore (a propósito de um festival literário no México) em detrimento de uma política cultural consistente, sólida e séria, que promova a leitura, o conhecimento e a preservação do património bibliográfico português. A ironia do texto está na chapelada1 à directora da Biblioteca Nacional, instituição que tem cortado em todas as despesas (o Prof. Ramada Curto enumera-as) menos… no folclore das exposições. Eu sei que uma exposição (que digo? na Biblioteca Nacional de Lisboa há sempre cinco ou seis exposições ou mostras em simultâneo) não é assim tão cara: excepto três, que exigem uma sala iluminada e climatizada — ao contrário da sala de leitura geral durante a maior parte do ano (não falo na «sala multimédia», todo o dia a transmitir filmes ou documentários) —, as outras exposições ou mostras estão em corredores ou na sala de referência. Os visitantes são muito poucos (e, como não têm cartão de leitor, logo expulsos da sala de leitura, que deve ser o espaço mais interessante acessível ao público). Mas a Biblioteca Nacional não distribui leitura durante a hora de almoço por falta de pessoal: não quer dizer que haja falta de pessoas; só que estão a montar exposições — ou a não fazer nada, como amplamente se tem visto num sofá em frente de leitores e visitantes.

Antes deste texto, porém, está uma notícia de António Valdemar sobre um estudo que Arnaldo Saraiva fez (com documentos outrora inacessíveis) sobre a passagem do escritor Vergílio Ferreira pelo seminário do Fundão (e da Guarda). É evidente que nestes contextos é preciso salientar as novidades descobertas, mas é claro que considerar a obra do autor (em particular a Manhã Submersa) testemunha autobiográfica parece uma ingenuidade — a mesma que levaria a acreditar que o seminário não trouxe nada de bom a Vergílio Ferreira, nem sequer o desenvolvimento da sua capacidade de expressão em língua portuguesa. As vigilâncias, repressões e outras rotinas dos seminários também precisariam de ser contextualizados para que o leitor mais sensível não fique a pensar que não havia atrocidades dessas fora dos seminários (e até ao 25 de Abril). Eu sei que a palmatória do professor do menino José [Trindade Coelho] (em «Para a Escola», incluso em Os Meus Amores) não fez muitos doutores, mas era o instrumento da disciplina.

Numa idade em que um escritor só existe com os holofotes e a exposição mediática (afinal pode relacionar-se isto com o festival do México de que fala Ramada Curto), eu sei que pode parecer importante conhecer a vida (íntima ou privada, porque quanto mais privada mais interessante para as massas) dos criadores literários. Pois eu acho que não, mas também defendo que cada um estuda e investiga o que quer.

Última nota para dizer que, na infância e adolescência de Vergílio Ferreira (e até ao Concílio Vaticano II, em 1969), a missa católica era em latim, mas o autor da notícia (imagino que levado pelo autor do estudo) sublinha-o: «ajudar à missa, e em latim, antes dos seis anos». É óbvio para quem quer que seja que isto não quer dizer que Vergílio Ferreira sabia latim antes dos seis anos: a missa era ritualizada e baseava-se em repetição de expressões ou frases. Em todo o caso, foi o seminário que lhe deu o conhecimento do latim e do português.

1 Acredito que seja um elogio sincero, pois não é a primeira vez que é feito. No entanto, não se pode concordar com ele.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

classificados

Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.