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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

21
Mai19

Graecum est: legitur!

Ricardo Nobre

O que em textos anteriores foi sendo dito sobre a aprendizagem do latim pode ser repetido relativamente ao grego. Antes, porém, é necessário distinguir os gregos: estou aqui a falar do grego antigo, não da língua que se fala hoje na Grécia, que é significativamente diferente da língua em que foram escritos os poemas homéricos, as histórias de Heródoto, a História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, as tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, os diálogos de Platão, as obras de Aristóteles, os discursos de Demóstenes e a poesia de Safo, Anacreonte ou Píndaro. E estes autores não escreviam todos da mesma maneira: o grego clássico tem dialectos diferentes (Heródoto escreveu em jónio, mas Platão em ático), situação que a partir da época helenística vai uniformizar-se no que se chama koinê, a língua comum a todas as geografias em que se falava grego (uma espécie de «inglês internacional» dos dias de hoje: uma versão única de que são eliminados os traços que distinguiam os dialectos).

Assim sendo, para começar a estudar grego é preciso começar por definir um objectivo, pois ele determinará não só por que dialecto começar, mas também que pronúncia usar — e, consequentemente, que método seguir:

1. Se o objectivo do Demódoco é aprender a ler o Novo Testamento, deve começar por aprender a koinê.

2. Se o Críticas quer ler Platão tem de começar por aprender o dialecto ático.

3. Se a Xantipa quer ler os poemas homéricos iniciará os estudos com um método que a introduza logo na língua de Homero.

4. Como é mais pragmática, a Corina quer aprender a variante em que estão escritos mais textos em grego antigo. Logo, aprenderá a koinê.

Claro que, depois de ler o Novo Testamento, Platão ou os poemas homéricos, Demódoco, Críticas, Xantipa e Corina (antropónimos gregos) podem querer ler autores que usem outra variante dialectal; nessa altura, basta aprender as características do dialecto de Safo ou Heródoto, que escreveram em eólio e jónio, respectivamente. O que é preciso é que o estudo comece com uma motivação séria e verdadeiramente entusiástica. Não há limites quanto à chegada porque o grego é como as cerejas: atrás de um autor ou de um poema, vem outro diálogo, discurso, tragédia ou comédia.

Esse objectivo da aprendizagem determina, ainda, que pronúncia escolher para usar. A pronúncia clássica do grego, ao contrário do que acontece com o latim, não está muito difundida em Portugal, onde se usa a pronúncia tradicional da língua helénica. Essa diferença começa no verbo que significa «ser, estar», pois ει, primeira sílaba de εἰμι, era pronunciado por Platão como «êê» e na pronúncia tradicional helenística diz-se «éi» (em grego bizantino e dos nossos dias já é «i»). Isto pode ser um problema no momento de usar elementos multimédia que existem pela internet, sobretudo no YouTube, onde, mesmo nos melhores canais em que se usa o latim, não há maior empenho ou qualidade na divulgação do grego antigo como língua oral. Seja como for, aconselho a que se escolha um sistema de pronúncia e que ele se mantenha, mesmo que se mude de época. Por isso, talvez seja mais prudente aprender a pronúncia da koinê (como é hábito entre nós), embora eu prefira aplicar-me na pronúncia clássica, menos adequada ao nosso aparelho fonador.

Estabelecido o princípio orientador do estudo, precisamos de um método. Como com o latim, distinguimos obras de duas naturezas:

Protótipo A: manual de grego que ensina a gramática para ler textos. Modelo: Hansen e Quinn. Outros: Mastronarde e Luschnig.

Protótipo B: manual de grego em que se lêem textos para aprender a gramática. Modelo: Athenaze (edição italiana, com vocabulário em italiano, mas também a partir de ilustrações). Outros: Reading Greek (vocabulário em inglês), Alexandros (em grego).

Dentro do protótipo B, inserem-se os métodos que ensinam grego antigo como língua viva: Ancient Greek Alive, de Paula Saffire e Catherine Freis (3.ª ed., The University of North Carolina Press, 1999), e Pólis são os mais conhecidos e certamente os melhores. Só o segundo ensina os temas tradicionais da saudação, apresentação, etc. Com o Alexandros, mencionado antes, é também possível aprender diálogos.

Como escrevi acima, existem métodos que podem ser usados para o objectivo imediato de aprender grego homérico, bíblico, helenístico. Poderei falar deles nos comentários, se algum leitor se mostrar interessado; para já, importa salientar que todas as obras que conheço que cumprem esse propósito se inserem no protótipo A.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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