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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

26
Nov17

Imprimamus

Ricardo Nobre

Toda a gente já se encontrou na posição do leitor desiludido que se consciencializa de que um livro está esgotado ou não está publicado ou não tem tradução para português (a propósito, já saiu a tradução d’O Conde de Monte Cristo da Relógio D’Água, provavelmente o acontecimento literário do ano). Mas existe uma editora que reutiliza uma prática do século xix: um conjunto de pessoas paga a publicação de uma obra (nos periódicos, eram os assinantes). Era o que se chamava «subscrição» e que agora se chama crowdfunding (ou seja, é o princípio da menos sofisticada vaquinha). Trata-se da E-Primatur, editora idealizada por Hugo Xavier, Pedro Bernardo e João Reis1, que já permitiu republicar, por exemplo, a tradução de Ivanhoe, de Walter Scott, ou Os Lusíadas, do nosso Camões (uma rica edição preparada por Maria Vitalina Leal de Matos, que inclui as cartas; noutro volume, sairão lírica2 e teatro). É ainda a editora responsável pela publicação da tradução (a partir do original) das Mil e Uma Noites (o segundo volume está a angariar fundos para publicação) ou da publicação integral, em 2015, d’A Minha Luta, de Adolf Hitler, completando a versão de Jaime de Carvalho (Afrodite, 1976; há também uma tradução da Guerra e Paz, 2016).

Também reeditam (use-se o presente do indicativo, desejando a continuação de tal prática) Mário-Henrique Leiria (por qualquer motivo reduzido no nosso mundo aos Contos do Gin-Tónico) e Bernardo Santareno. É estranho dizer que em Portugal não se pode comprar uma obra de Santareno, esgotado na Ática, sendo Santareno considerado o principal autor dramático português do século xx.

Nos projectos em votação (ou seja, a recolher apoios) encontram-se actualmente os Contos de Cantuária, de Chaucer (escritos quando Fernão Lopes usava cueiros), traduzidos por Daniel Jonas (autor da tradução do Paraíso Perdido, de Milton, publicado pela Cotovia, e esgotado, por sinal).

Os livros (analogicamente falando) são primorosamente executados, e as edições de textos portugueses e as traduções são muito boas: aquele Ivanhoe (a partir do qual tomei real conhecimento da editora) tem pouquíssimas gralhas e é um livro bonito (capa, formato, mancha gráfica). Talvez tivesse sido preferível fazer uma nota clara a dizer que se trata da reedição da tradução feita por António Vilalva nos anos 50 do século passado editada pela Romano Torres (também publicada em 2008 pela QuidNovi).

Enfim, o projecto, uma forma honesta de garantir a boa reedição ou edição de livros culturalmente significativos, é interessante não só pelos títulos em votação, mas porque qualquer pessoa pode sugerir a publicação de uma obra. Por isso, vale a pena ficar atento.

Que eu saiba, os textos dos livros não são publicados com Acordo Ortográfico.

P.S.: Existe uma chancela parente da E-Primatur, a Bookbuilders, que contraria um pouco a lógica de apresentar traduções a partir dos originais (estou a pensar na República de Platão, que, apesar de ser uma mistura de traduções de várias línguas excepto do grego, foi completamente financiada e está à venda), mas que se dedica a publicar obras inéditas (apesar da República).

N.B.: O título deste texto é uma brincadeira com o nome da editora e significa «imprimemos».

1 Ver aqui um texto da Agência Lusa sobre a editora.

2 Não é este o lugar para falar do pesadelo do «cânone da lírica de Camões», mas estou certo de que será um contributo maior para o seu estabelecimento (continua a usar-se uma edição fac-similada daquela publicada em Coimbra há mais de sessenta anos por Costa Pimpão — tal como Os Lusíadas, que era preciso substituir).

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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Procuro Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.