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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

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Antes de Entrar Aristóteles

22
Mar18

Já que falamos em plágio… falemos de plágio no jornalismo

Ricardo Nobre

Enquanto leitor de informação «tradicional», estou um pouco cansado do discurso da falta de meios (dinheiro, portanto) para um jornalismo de investigação e reportagens (bem-vindos à realidade de todos os dias da maioria da população fora do Parlamento). Já não há correspondentes no estrangeiro e nem a informação do fundo do quintal é bem dada. Entedia-me que os jornais portugueses valorizem apenas o que se valoriza noutros países (incluindo o sucesso de portugueses) e que, em terreno nacional, sejam tão monotemáticos e que falem apenas dos seus favoritos (era preciso esclarecer qual é o fétiche do Público com o artista Vhils: é casado com alguma jornalista? é sobrinho de alguém da administração?), ignorando (por desinteresse ou desconhecimento) outros. Não defendendo uma promoção aleatória e muito menos propaganda dissimulada, seria preciso definir critérios que levam os assuntos às páginas dos jornais: relevância e diversidade cultural.

A falta de recursos dos jornais faz com que os jornalistas e estagiários das redacções passem o dia na internet à procura de notícias (daí a importância que os Facebooks têm nas notícias). Há coisas inacreditáveis que vêm parar aos sites de notícias (o da TSF é bem significativo disso) e há falta de pudor na transcrição de notícias que são de outros. Estamos novamente no domínio do elementar plágio.

Usar frases de outros sem aspas, sinal que marca graficamente que o que está escrito não é da nossa autoria, é plágio. Dizer «como diz o António Silva» não é suficiente para não ser plágio. É preciso não assinar um texto quando este é, afinal, tradução de outro (e dizer muito claramente quando é). Ora, essa apropriação de material informativo alheio é muito frequente nos jornais portugueses. É comum acontecer com notícias da Agência Lusa, mas também com imprensa estrangeira, como agora se exemplificará.

O site é do Público1 e o texto, publicado hoje, tem uma autora, Filipa Almeida Mendes, que é, na verdade, tradutora de um texto (publicado ontem) de Adam Gabbatt, nome não citado. Aliás, o jornal onde Gabbatt escreve apenas é mencionado uma vez, a propósito de umas «declarações». Hugo Daniel Sousa editou o texto, por isso é cúmplice do plágio, dissimulado pela tendência actual de inserir hipertextos como nós, não jornalistas, fazemos nos blogues.

1. No início, não há nada de aberrante. É o débito de uma informação.

Adam Gabbatt: «Smoking while walking would be banned in New York City if a new bill is passed into law.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Foi apresentado nesta quarta-feira, em Nova Iorque, um projecto de lei que pretende proibir as pessoas de fumarem enquanto andam nas ruas.»

2. A proximidade à fonte não identificada vai-se tornando evidente não apenas na estrutura do texto («nesta quarta-feira» vem na frase seguinte do Guardian) ou dos nomes citados (não consta que o Público tenha ido a Nova Iorque ou que os jornalistas tenham lido a proposta legislativa): começa a tradução.

Adam Gabbatt: «Councilman Peter Koo is introducing the legislation on Wednesday, in what he says is an attempt to keep secondhand smoke away from pedestrians.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «A legislação, proposta por Peter Koo, membro do Conselho da Cidade de Nova Iorque, quer evitar que os peões sejam expostos ao fumo do cigarro de terceiros.»

3. Agora é só traduzir, juntando mais palavras (estratégia permitida pela prolixidade do português e da escrita jornalística, como aquele «aprovada e implementada») ou até com o câmbio, não vamos nós ser apanhados a desrespeitar a lei em Nova Iorque e autuados. Houve uma mudança da posição da frase sobre fumar-se estando parado.

Adam Gabbatt: «If the bill is passed into law people would be fined $50 if they were caught walking and smoking on city streets. Smoking is already banned in many public spaces in New York City.»; «Under the bill, smokers would still be free to light up on public streets, as long as they remained stationary while doing so.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Caso a lei seja aprovada e implementada, os fumadores podem estar sujeitos ao pagamento de multas de 50 dólares (cerca de 40,65 euros ao câmbio actual), a mesma quantia da multa por fumar em parques, empresas e espaços públicos interiores. No entanto, os fumadores poderiam continuar a acender o cigarro na rua, desde que se mantenham parados enquanto fumam.»

4. Houve uma mexida na ordem dos parágrafos, mas a tradução mantém-se inabalável. Quando não há vergonha, até se cita a fonte do texto de onde se copia, para parecer que a informação foi toda recolhida por Filipa Almeida Mendes (também faz hiperligação porque Gabbatt incluiu uma no seu texto).

Adam Gabbatt: «“In a perfect world, every smoker would have the self-awareness to realize smoking while walking subjects everyone behind you to the fumes,” Koo told the New York Daily News. “It has happened to me many times — I’m walking behind someone who’s smoking, and I’m suffering for five or 10 minutes,” Koo said. “I see mothers with their strollers walking behind people who smoke, and they’re exposing the baby to second-hand smoke.”»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Peter Koo afirma que, “num mundo perfeito, todos os fumadores teriam consciência para perceberem que fumar enquanto caminham expõe toda a gente à sua volta ao fumo”, cita o jornal norte-americano New York Daily News. O membro do Conselho Municipal acrescentou que foram várias as vezes que sofreu “durante cinco ou dez minutos” quando caminhava atrás de algum fumador e deu ainda o exemplo das mães que passeiam os carrinhos de bebé na rua e que acabam por expor o bebé ao fumo do cigarro.»

5. Foram ouvir o «Former mayor» ou, em bom português, «ex-autarca de Nova Iorque» (podia dar-se o caso de se ter mudado o contexto e estarem a falar de um simpático ex-autarca de Freixo de Espada à Cinta).

Adam Gabbatt: «Former mayor Michael Bloomberg, a passionate anti-smoking advocate, banned smoking in public parks and beaches in 2011. The city prohibited smoking in bars and restaurants in 2003.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Michael Bloomberg, ex-autarca de Nova Iorque e grande defensor do antitabagismo, tinha já proibido, em 2011, fumar em parques públicos e nas praias, segundo o New York Times, enquanto a lei que proíbe fumar em bares e restaurantes tinha já sido aplicada anteriormente.

6. Falta saber a opinião do actual presidente da câmara (ou melhor, mayor: apesar de se poder falar de Bloomberg como «autarca», como Isaltino Morais, De Blasio não pode ser como Fernando Medina). Verifica-se aqui única atribuição de autoria, insuficiente para deixar claro que o Público traduziu todo o texto do jornal britânico.

Adam Gabbatt: «In 2017 Mayor Bill De Blasio signed a number of anti-smoking measures into law in a bid to reduce “smoking prevalence”. The measures included banning the sale of cigarettes at pharmacies and raising the minimum price for all tobacco products.»

Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa: «Em 2017, o actual mayor de Nova Iorque, Bill De Blasio, aprovou uma série de medidas antitabaco com o objectivo de reduzir a “prevalência do tabagismo”, cita o jornal britânico The  Guardian — nomeadamente, a proibição da venda de cigarros em farmácias e o aumento do preço mínimo para todos os produtos tabágicos.»

O texto do jornal português é mais longo, pois, a seguir a estes parágrafos, junta informações (igualmente plagiadas) sobre legislação sobre o mesmo tema noutros países, incluindo Portugal.

Talvez da próxima vez que o Público quiser debater o futuro do jornalismo possa convidar Adam Gabbatt, Filipa Almeida Mendes e Hugo Daniel Sousa para uma mesa-redonda em que o autor conhece os tradutores.

O Guardian também luta pela viabilidade do projecto do jornal, seguindo a política de não impor restrições de acesso à informação. Solicita-nos, porém, donativos para que continue o seu trabalho. Noutro contexto, seria algo que eu faria. No entanto, pago assinatura do Público. Espero, por isso, que parte do salário da redacção do Público seja para donativos ao Guardian.

1 O exemplo utilizado é retirado do Público porque é o jornal que leio por assinatura. Não tenho nada contra a pessoa que o fez nem a conheço (nem ao seu editor, claro). Não tenho nem quero ter a sua profissão, e a ocupação do lugar na redacção do Público não me afecta directa nem indirectamente.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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