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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

19
Out19

Joacine Katar Moreira

Chegámos

Ricardo Nobre

Interessa-me pouco o ruído em torno das eleições ou da composição do futuro governo, cuja verdadeira qualidade só pode ser avaliada no exercício de funções (mesmo com tantos ministros repetidos, a conjuntura externa está a mudar, e o Brexit não trará alterações na dinâmica internacional só para o Reino Unido). Ao mesmo tempo, embora tenha ficado espantado por os meus irmãos portugueses terem elegido dois partidos de extrema-direita (só um deles com base no discurso do ódio), também não creio que o Chega e a Iniciativa Liberal venham a conseguir algum resultado prático (o sucesso do P.A.N. é justificado por outros motivos) na sua actuação porque a sua ideologia não pertence nem a este tempo (Chega) nem serve a este país (Iniciativa Liberal).

O que verdadeiramente me está a incomodar é o incómodo provocado pela eleição da deputada do Livre, uma mulher negra e gaga que se chama Joacine Katar Moreira. Chamo incómodo às reacções provocadas nas redes sociais para não lhe chamar outra coisa: celeuma, bazófia, sururu, risadinhas, gozação, ignorância arrogante, etc. O mais curioso é que se escolheu atacar três situações que Joacine não teve oportunidade de escolher: sexo, cor da pele e uma disfunção na fala quase imperceptível. O que ela escolheu — com bastante coragem, diga-se — foi um activismo político bastante louvável (independemente da conformidade das ideias que ela defende em relação à esmagadora maioria do eleitorado).

Ora, a democracia é assim mesmo: apesar de não gostarmos de uma coisa (neste caso, um partido que tem votos suficientes para ter assento parlamentar), temos de respeitar o que os nossos concidadãos conscientemente escolheram. Se essa decisão significar cairmos num regime de extrema-direita que odeia ciganos, é a democracia a funcionar. Mas os cidadãos têm de ter um mecanismo de raciocínio que vá além do ódio, ultrapassando preconceitos que encaixam nos seus medos e formas de pensamento primitivo.

No caso da eleição de Joacine, tenho lido coisas espantosas: é gaga, por isso não vai conseguir cumprir o seu papel parlamentar porque a política é uma nobre arte da palavra. É o quê? Exacto. O Professor António de Oliveira Salazar não era gago e escreveu os melhores discursos que ecoaram no hemiciclo. Os políticos da actualidade, com brilhantes excepções, são semi-analfabetos, não lêem um livro, governam para um país de que conhecem apenas uma porção muito pequena e enchem os minutos de que dispõem nas sessões parlamentares (quando se dignam aparecer) de um vazio mental e desonestidade intelectual de proporções que nos deveriam alarmar.

Se querem criticar Joacine, algo perfeitamente aceitável do ponto de vista democrático, indiquem as suas ideias políticas, as incoerências do seu pensamento (se as tiver), mas contra-argumentem racionalmente (e sem erros de português, já agora). E podem parar de exibir ignorância (como a história da bandeira e outras futilidades, porque toda a gente gosta de ver portugueses e lusodescendentes com a bandeira nacional — bem feia, por sinal — nos condados americanos ou países onde são eleitos), preconceitos e arrogância que se desfaz com um bocadinho de história. E com um espelho.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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