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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

04
Fev20

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett

Da série poetas na cidade

Ricardo Nobre

Cidadão empenhado, desde cedo mostrou inclinação para as letras. Os primeiros testemunhos dos poemas que escreveu documentam que foi na adolescência, enquanto vivia nos Açores (para onde a família foi viver por causa da segunda invasão francesa, depois de ter nascido no Porto, em 1799), que João Baptista da Silva Leitão sentiu o impulso da escrita. Começou por ser um desforço com um substituto do professor de Latim, uma menção épica ao pau de marmeleiro com que foi castigado por considerar que sabia mais do que aquele substituto. Escreveu ainda uns poemas amorosos e traduziu tragediógrafos gregos, mas quando se aproxima a partida para Coimbra já canta as saudades que a despedida do campo lhe vai deixar. A universidade viu-o crescer como poeta e dramaturgo, diligente defensor da liberdade e da causa liberal, que entretanto triunfaria no Porto, em 1820 (na sequência da qual faz uma viagem à sua cidade natal, cai do cavalo e fica seriamente doente; virá daí o uso de um capachinho). Nas férias, no Porto e nos Açores, continua sempre a escrever, voltado para a alegria e prazeres da vida, brincadeiras de rapazes, e amores que se sucedem. As amadas têm ainda pseudónimos neoclássicos. Traduziu Catulo, Horácio, Píndaro e poemas atribuídos a Safo, Anacreonte e a Alceu.

A política nunca o deixou de interessar. Militante liberal, depois das contra-revoluções absolutistas, teve de emigrar: esteve na Inglaterra e em França (onde publicaria as primeiras obras poéticas: Camões, Dona Branca, Adozinda, que viria a integrar o Romanceiro, e Lírica de João Mínimo). Exerceu cargos públicos em Portugal e na Bélgica; a sua presença (e indumentária) nas cortes davam que falar no meio galante. É depois do setembrismo que publica as suas obras-primas: Frei Luís de Sousa, Flores sem Fruto (colectânea onde reúne «As Minhas Asas»), Viagens na Minha Terra. Em 1853 publica Folhas Caídas, recebidas não sem escândalo.

Fernando Pessoa começou a escrever em português depois de o ler. É, sem dúvida, o nosso primeiro poeta, romancista e dramaturgo moderno. Almeida Garrett, nome que viria a adoptar depois da morte do tio D. Frei Alexandre da Sagrada Família (clérigo de altíssimo nível intelectual), que morreu em Lisboa a 9 de Dezembro de 1854, na casa onde vivia (Rua Saraiva de Carvalho, n.os 66 a 68) e que foi demolida por não ter «valor arquitectónico, patrimonial ou histórico», faria hoje 221 anos. Encontra-se sepultado no Panteão Nacional.

Túmulo de Almeida Garrett no Panteão Nacional

Em Lisboa, dá nome à antiga Rua do Chiado (outrora com dois nomes, pois do actual Largo do Chiado à Praça Camões chamava-se Rua das Portas de Santa Catarina), com início em frente aos actuais Armazéns do Chiado (na Rua Nova do Almada), desde Junho de 1880, por edital do então Presidente da Câmara, José Gregório da Rosa Araújo (que tem um busto, de Costa Motta, 1936, na Avenida da Liberdade, defronte da rua perpendicular a que dá nome). Garrett é celebrado por uma estátua de Salvador Barata Feyo (1950) na mesma Avenida da Liberdade (cruzamento da Rua Alexandre Herculano, onde se encontram igualmente as esculturas a Alexandre Herculano, ainda de Barata Feyo, de António Feliciano de Castilho e de Oliveira Martins, estas do Mestre Leopoldo de Almeida); no átrio poente do Teatro Nacional de Dona Maria II, encontra-se um busto dele (da autoria de João Anastácio Rosa). No Porto, que tem uma biblioteca pública com o nome dele nos jardins do Palácio de Cristal, a sua estátua, igualmente de Barata Feyo (1954), ergue-se diante da Câmara Municipal, na Avenida dos Aliados.

Estátua a Almeida Garrett (Porto)

Chegou a dar nome ao Teatro Nacional de Dona Maria II (cuja sala principal conserva o seu nome) e ao Liceu de Lisboa (actual Maria Amália Vaz de Carvalho).

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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