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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

02
Set19

Museus da Nossa Memória

Ricardo Nobre

Aqui está um texto que eu gostaria de ter escrito.

Penso o mesmo que a Sarin para o Museu dos Descobrimentos (com este nome) e defendo que o museu em causa deveria chamar-se Museu do Estado Novo, porque o Professor Salazar não fez tudo sozinho e porque não me lembro, à excepção das casas-museu, de nenhum museu com designações de antropónimos.

Do que me lembro é de um programa de televisão, exibido há muitos anos, em que dois jovens falavam com Mário Soares sobre o Estado Novo enquanto caminhavam pela marginal de Cascais. O ex-presidente da República explicava de modo mais ou menos objectivo o que significou esse período histórico a pessoas já nascidas e criadas na democracia, até que um dos jovens, provavelmente perto do fim, perguntou: «mas não houve nada de bom?». Mário Soares não hesitou, abriu os braços mostrando a estrada, e disse: «olha, fez esta marginal!» (estou a citar de cor, mas certo de que a ideia é esta). Eu acrescentaria: fez a Ponte (pensada desde o século XIX, por isso não é de admirar que o novo aeroporto demore tanto), as escolas, os aeroportos (um deles chamado Humberto Delgado e outro Francisco Sá Carneiro, porque Sacadura Cabral e Gago Coutinho foram pessoas do regime), o Hospital de Santa Maria (que, na lápide inaugural apagou referências que alguma mente pura achou inconvenientes), o Instituto Superior Técnico (sem as torres horrorosas e pelos vistos defeituosas), a Cidade Universitária e a Biblioteca Nacional de Lisboa.

A Lição de Salazar (mas não só, dado que a superioridade da nação — e até da língua — em face das outras vem muito de trás) foi tão bem aprendida que ninguém concebe que se possa fazer um museu que exponha a História de Portugal sem a glorificação do passado que implique o branqueamento de derrotas, misérias ou crimes (Os Lusíadas ainda hoje são entendidos como «história de Portugal em verso», como se os feitos de valentia não fossem contrabalançados pela voz do poeta e do Velho do Restelo). Mas o que se vê nos museus existentes é que é possível (recorde-se o de Arte Antiga), exibindo as mesmas coisas, construir sobre elas uma narrativa contemporânea em que não haja personagens envilecidos nem valorizados.

O que não pode acontecer, neste caso finamente analisado pela Sarin, é o visitante ir a Santa Comba ver memorabilia do Professor Salazar, a sua roupinha e as botas, que, além de historicamente irrelevantes, não dão um retrato do homem nem da época. Se é para fazer um museu, afastem-se os políticos e os historiadores-bonifácios, e coloquemos especialistas no período a trabalhar. Estou certo de que Fernando Rosas e Ernesto Castro Leal fariam um belo Museu, digno das nove Musas e não apenas das  que são simpatizantes fascistas.

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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