Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

21
Jun19

Nada é em vão

escrito por: Ricardo Nobre

Nem sempre é fácil ter um conhecimento relativamente seguro sobre uma coisa e deparar com pessoas que dele falam equivocadamente. Prefiro escrever «equívoco» para garantir que não estou apenas a falar de engano propositado, mas também dos erros que são transmitidos e perpetuados involuntariamente, por muito boas que sejam as nossas intenções, como o/a jornalista (que terá tido uma formação em ciências sociais) a tratar de assuntos científicos ou económicos. O/A especialista nestas matérias ouvirá ou lerá o/a jornalista e irá pensando ou dizendo «isto não é bem assim». Mas mesmo o não ser «bem assim» pode ter uma motivação nada ignóbil: falar para um público alargado, com muitas sensibilidades e estudos diferentes obriga a uma simplificação do nível do discurso ou da exclusão de fenómenos mais complexos. Se já deu aulas ou se já teve de falar para uma plateia de estudantes mais jovens ou de pessoas de outras áreas de estudo, o/a «especialista» já cometeu os mesmos pecados do(a) jornalista: às vezes as circunstâncias obrigam a nivelar abaixo do desejável um discurso produzido sobre um tópico com alguma complexidade, de que não está ausente um «erro em nome da pedagogia».

O problema é a percepção que o público (ouvinte ou leitor) terá da questão, a forma como ele próprio a vai discutir, resumir, impor noutro círculo. No fundo, o conhecimento transmitido sofre uma erosão, fenómeno semelhante à perda de qualidade entre o que um(a) professor(a) explica e o que o/a aluno(a) escreve no exame (curiosamente, há casos em que o exame é melhor que a explicação original!).

A forma de consolidar um conhecimento é, parece, mediante um extenso trabalho de leitura. Só que as dúvidas aumentam na mesma proporção: ler o quê, de quem, onde? Talvez em livros de divulgação (que resultam em simplificações redutoras de estudos científicos de assinalável complexidade que o cidadão ou cidadã comum não compreende sem dois cursos universitários), artigos de enciclopédia (que não estão isentos de erros, em particular numa obra de reconhecido mérito e divulgação), jornais e revistas? Entremos na papelaria (o/a leitor(a) conhece uma loja assim: é o sítio onde vai comprar tabaco ou pôr o Euromilhões) e dêmos lá uma volta: há publicações dedicadas a todos os assuntos, de bordados a videojogos, de automóveis à saúde, da educação infantil à literatura, da ciência à história.

O conhecimento é mesmo infinito e vem em diversas formas, incluindo sob a forma de não-conhecimento. Por exemplo, que conhecimento se pode adquirir da literatura? Esta é uma das perguntas mais antigas da história da Humanidade, e as tentativas de resposta variam entre o «nenhum» e o «todo». O patrono deste blogue é um dos que tentaram dar-lhe resposta, que veio, entre outras, sob o conceito de «catarse». Todavia, se nada se aprende com a literatura porque é que quem lê tem, normalmente, um nível cultural superior a quem não lê? Julgo que em parte isso pode ter que ver com o desenvolvimento do raciocínio e com a fundamentação da argumentação, que se adquire na leitura e exercício que conduzem ao alargamento de vocabulário, percepção de pequenas diferenças entre fenómenos semelhantes, arranjo e arrumação de ideias e formas de as expor, para não falar em questões de gosto. Além disso, a leitura permite o encadeamento de conhecimentos e a sua própria questionação. É um treino como outro qualquer e por isso se costuma dizer que só um grande leitor pode ser um grande escritor (havendo excepções atestadas em todas as literaturas do mundo) e que ser pensador é resultado de ser leitor.

Seremos certamente melhores cidadãos se lermos mais. Desenvolvendo a massa crítica, seremos mais exigentes também com os nossos governantes, criticaremos as suas visões do mundo, a sua forma de reflectir sobre o Estado e a sua presença na vida das pessoas e, nas próximas eleições, talvez consigamos fazer escolhas mais acertadas.

 

P.S.: Às vezes sento-me para escrever um texto neste blogue sobre um assunto e acabo com um post sobre outra questão. Este texto devia ter outro tópico, deveria abordar um tema de forma concreta, mas partiria de exemplos empíricos e o meu desejo é generalizar, teorizando. Por isso, desta vez, terei de assumir que o texto continua.

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

memória

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Procuro

Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco Rebelo Gonçalves (Coimbra Editora, 1966). Caso esteja interessado/a em vender-mo (a qualquer preço) ou se sabe onde o posso encontrar, agradeço o contacto.