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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

01
Ago19

O Amor da Palavra

Ricardo Nobre

Quando o amor à língua exige o conhecimento dos seus segredos, da história das suas andanças e pegadas pelo mundo, não se escreve um poema, escreve-se um dicionário. Com todas as palavras da língua, mesmo quando são quatrocentas e catorze mil oitocentas e vinte e cinco.

Quando se junta Mel Gibson a Sean Penn, faz-se um filme sobre a intrigante história de amor pela palavra que foi a concretização do Oxford English Dictionary, o dicionário que reinventou a lexicografia moderna — «The greater effort since the invention of printing» — a partir da publicação do primeiro fascículo em 1884 (entre nós, ainda não tinham sido publicados Os Maias; Fernando Pessoa ainda não tinha nascido; reinava El-Rei D. Luís). A primeira edição sairia apenas em 1927: «Twelve mighty volumes; 414,825 words defined; 1,827,306 illustrative quotations used», «The total length of type […] is 178 miles, the distance between London and the outskirts of Manchester. Discounting every punctuation mark and every space […] there are no fewer than 227,779,589 letters and numbers». A segunda edição, de 1989, tem vinte volumes; a terceira está em preparação e poderá estar pronta em 2037 (está disponível uma versão em linha, claro).

O filme é baseado no livro de Simon Winchester, que escreveria anos depois a história do dicionário fora do universo da ficção (The Meaning of Everything, 2003). O título original do romance histórico de 1998 é The Surgeon of Crowthorne: A Tale of Murder, Madness and the Love of Words, mas nos E.U.A. foi publicado com o título que dá nome ao filme: The Professor and the Madman: A Tale of Murder, Insanity, and the Making of the Oxford English Dictionary (tenho a 1.ª edição da Harper Collins, de onde citei excertos da pág. 220).

The Professor and the Madman e The Meaning of Everything, de Simon Winchester

«One word — and only one word — was ever actually lost: bondmaid, which appears in Johnson's dictionary [publicado em 1755], was actually mislaid by Murray and was found […] long after the fascicle Battentlie-Bozzom has been published». A ausência da palavra é mencionada no filme e usada contra James Murray (Mel Gibson), que é hostilizado desde o início pelos responsáveis da editora de Oxford (apesar das suas capacidades intelectuais, Murray não tinha um grau académico, vindo a recebê-lo durante a elaboração do dicionário, honoris causa).

Em Portugal, é claro, não há nenhum dicionário com esta grandeza, escopo e precisão. Se estamos a ler um livro um bocadinho mais antigo, já os dicionários não nos dão os significados das palavras que caíram em desuso porque no nosso país os dicionários são sempre feitos para a língua contemporânea, o que faz com que de edição para edição sejam retiradas palavras cultas e necessárias para a boa compreensão de textos, a fim de introduzir neologismos que duram menos que o vigésimo governo da república portuguesa. E o leitor precisa de voltar a Bluteau, a Morais, a Cândido de Figueiredo… deixando os dois volumes do dicionário da Academia das Ciências a apanhar pó a um canto. Vanham-nos, ainda, Aurélio e Houaiss!

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título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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