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Antes de Entrar Aristóteles

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu

Antes de Entrar Aristóteles

21
Jun17

O fim da Arcádia

Ricardo Nobre

Os textos que se têm publicado desde o início do incêndio de Pedrógão Grande (1) reconhecem que já se disse tudo (alguns autores foram buscar textos escritos no ano passado, por ocasião do incêndio na ilha da Madeira). Ainda assim, dizem tudo outra vez. Também o estudo exige repetição para atingir o conhecimento: o combate aos incêndios começa pela prevenção. Muitos lamentam o fim da pastorícia, apontando ainda a monocultura (em particular aquela que é muitíssimo comburente: o famoso eucalipto (2)), a falta de limpeza das matas (em substituição de animais que comeriam o pasto), etc. Com efeito, estamos tão submersos em saber rural e estamos tão certos de que se sabe exactamente como o problema pode ser minorado que o difícil é escolher por onde começar.

A amargura apenas se sente quando o cidadão percebe que não tem poder para fazer nada e o Estado não quer agir: falta de coragem, desinvestimento no interior (que não dá os votos que eles lá querem), política agrícola e florestal pouco trendy porque pertence a uma vida sem gostos ou hashtags (3). Como todos têm a sua fantasia (faltou quem culpasse a Caixa Geral de Depósitos por ter fechado a agência de Almeida, mas recordaram-se os correios, tribunais e as repartições de finanças que contribuem para a desertificação), eu também gostaria de acrescentar uma.

A minha proposta é a criação de uma brigada florestal na GNR para substituir os antigos guardas florestais (que não eram polícias). Se há entidade que tem pessoal disponível (alguns até têm tempo livre a mais), com jipes, cavalos e cães é a Guarda Nacional Republicana. Compravam-se drones (aproveitando a onda de solidariedade, podia ser que alguma multinacional os oferecesse), construíam-se uns postos de observação elevados (como os faróis) e mandava-se a guarda para a floresta. Com a agilidade no manuseio de telecomunicações, seria mais fácil detectar os incêndios e chamar os bombeiros.

De resto, julgo que o regresso à economia rural preconizada pelo amanho do campo e pastorícia já não é possível. Quem se dedica à criação de gado (para produzir queijos, por exemplo) no século xxi adopta métodos mais baratos, seguros e economicamente eficazes que não implicam levar os animais para o campo.

De qualquer maneira, se se conseguir reintroduzir os rebanhos, peço o regresso de ovelhas ao Campo Grande (4):

Biblioteca Nacional

A fotografia que ilustra este texto representa a entrada principal da Biblioteca Nacional de Lisboa esta manhã, dia 21 de Junho de 2017. Por vergonha (às vezes, quando os dirigentes não têm, tenho eu por eles), não tirei nem vou publicar fotografias da savana que circunda o edifício do depósito bibliográfico português.

(1) Aproveito para informar os jornalistas e o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (ver aqui uma publicação de dia 18, às 3h22) que Pedrógão se escreve com acento agudo no primeiro o. Sendo esta a naturalidade (de acordo com Inocêncio Francisco da Silva, tomo ii, p. 289) de Fernão de Oliveira, primeiro gramático português (ler a Gramática da Linguagem Portuguesa aqui), o pudor exige a correcção ortográfica.

(2) Etimologicamente, é um primo de Calipso, pois partilham da mesma origem: eu- significa ‘bem’, em grego; kalyptós quer dizer ‘escondido, encoberto’; apesar disso, está bem à vista a destruição.

(3) Deslocando do contexto e adulterando uma citação de João da Ega, «é estrangeirismo! fujamos!». Nota aos alunos que fizeram Exame Nacional de Português este ano: João da Ega é uma personagem do romance Os Maias, publicado por Eça de Queirós em 1888, o mesmo ano em que nasceu o único poeta que estudaram por causa da comuna.

(4) Não foi assim há tanto tempo que rebanhos de ovelhas circulavam na Alameda da Universidade e no jardim do Campo Grande (presença testemunhada no programa Bairros Populares de Lisboa, de 1990, episódio sobre o Campo Grande, como se pode ver no Arquivo da RTP).

título e imagem de cabeçalho

O título deste blogue é uma expressão de Aquilino Ribeiro que ocorre na última frase do segundo volume de Luís de Camões: Fabuloso. Verdadeiro (Amadora: Bertrand, 1974; 1.ª ed. 1958), que se lê: «Tudo se há-de passar como se estivéssemos no Liceu antes de entrar Aristóteles.»
No cabeçalho, pormenor da «Escola de Atenas» (Scuola di Atene), de Rafael Sanzio, terminada em 1511. A imagem foi retirada dos Wikipedia Commons e encontra-se sob domínio público.

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